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Como os maiores doleiros do Brasil criaram um banco clandestino para lavar dinheiro

Aloisio Maurício/Fotoarena/Estadão Conteúdo
PF cumpre mandados de prisão na Operação Câmbio Desligo Imagem: Aloisio Maurício/Fotoarena/Estadão Conteúdo

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

2018-05-03T16:33:01

2018-05-03T18:13:45

03/05/2018 16h33Atualizada em 03/05/2018 18h13

O esquema de lavagem de dinheiro criado pelos doleiros investigados na Operação Câmbio, Desligo, desdobramento da Lava Jato, funcionava como um verdadeiro banco clandestino, do qual participavam o "sócio-capitalista", Dário Messer, e seus sócios, Vinícius Claret e Cláudio Barbosa.

Do Uruguai, segundo os investigadores, o trio se aliava a dezenas de outros doleiros para, entre outras transações, enviar dinheiro em espécie ao exterior e compensá-los com operações de dólar-cabo. Os recursos voltavam "limpos" e eram então repassados a políticos, empresários, entre outros beneficiários.

Um dos principais clientes de Messer, Claret e Barbosa era o ex-governador fluminense Sérgio Cabral (MDB), preso em novembro de 2016 e já sentenciado em ações penais da Lava Jato a cem anos de prisão. Os operadores do político, os irmãos Marcelo e Renato Chabar, lavaram cerca de US$ 100 milhões com o auxílio da rede de câmbio. As informações foram obtidas a partir das delações premiadas dos doleiros e de anotações de contabilidade paralela.

Além de Messer e seus sócios, mais de 40 doleiros integram o organograma do esquema, de acordo com a Lava Jato. De 2010 a 2016, a engrenagem movimentou, no total, mais de US$ 1,6 bilhão --R$ 3,7 bilhões em valores atualizados. Na operação de hoje, a Justiça expediu 54 mandados de prisão, sendo 49 preventivas (seis no exterior) e quatro temporárias. Até as 12h desta quinta, 33 pessoas haviam sido localizadas e detidas: no Rio de Janeiro (13), em São Paulo (8), em Porto Alegre (5) e em Belo Horizonte (2). Também foram cumpridas 51 ordens de busca e apreensão.

Além das transações de dólar-cabo, o trio liderado por Messer fazia uma ponte entre clientes que necessitavam de reais em espécie e outros que demandavam montantes de dólar no exterior. Segundo o procurador da força-tarefa Rodrigo Timóteo, isso funcionava como uma "câmara de compensação", isto é, uma troca entre partes cujos interesses se cruzavam.

Quem precisava de dólares indicava contas bancárias para que os doleiros depositassem quantias em real, e a "compensação" era repassada ao cliente que pedia montantes em dólar.

"Alguém que demandava dólar fornecia uma conta no exterior, e o que demandava real fazia o depósito no exterior. Assim que o TED era feito no exterior, o compensador realizava o pagamento em real no Brasil", disse Timóteo.

"Eles faziam essa junção entre a demanda de dólar no exterior e a demanda de reais no Brasil. (...) Essas duas pontas têm uma íntima ligação com todo o ciclo da corrupção no Brasil. É de uma complexidade tal qual um sistema bancário", completou.

Entre os que geravam dólares no exterior estava, por exemplo, a Odebrecht, que já foi alvo de investigações anteriores da Lava Jato. Os membros da força-tarefa informaram que ainda não foi possível identificar se há outros políticos e empresários envolvidos no esquema. "As informações estão sendo processadas", disse o procurador Sérgio Pinel.

Sistema "Bankdrop"

Para organizar e controlar o esquema, Claret, conhecido pelo codinome "Juca Bala", e Barbosa, o "Tony", desenvolveram um sistema informatizado, o "Bankdrop". Nele, os investigadores encontraram mais de empresas 3.000 offshores, com contas em 52 países.

"O Bankdrop registrava todas as transferências internacionais, como fazem os bancos com TEDs e DOCs [modalidades de transferência de dinheiro]. Com isso, eles tinham o controle de quem depositava para quem no exterior e quem recebia de quem no Brasil."

Outro sistema, chamado "ST", registrava todas as operações de cada doleiro como uma espécie de conta corrente e foi utilizado para controlar a movimentação dos recursos tanto no Brasil quanto no exterior.

A remuneração do trio de doleiros era uma espécie de "taxa de administração" --como é conhecida a tarifa de manutenção cobrada pelas instituições bancárias. Eles recebiam um percentual em relação a todas as transações, mas a maior parte dos lucros (60%) era destinada a Messer, cabeça do esquema. Ele era o responsável por organizar e ampliar a extensa rede de doleiros, enquanto os sócios cuidavam das atividades operacionais.

Claret e Barbosa foram presos em março do ano passado e, posteriormente, fizeram acordos de delação. Como a pena estipulada pela colaboração era de um ano e dois meses, eles deixaram a cadeia justamente nesta quinta-feira, dia da operação Câmbio, Desligo. Além de revelarem o funcionamento do esquema, entregaram um disco rígido com as informações das inúmeras transações de lavagem de dinheiro, segundo afirmou o coordenador da força-tarefa da Lava Jato, procurador Eduardo El Hage.

Já Messer tem cidadania uruguaia e está fora do Brasil, de acordo com as investigações. Os nomes dele e de todos os outros suspeitos já foram inseridos na difusão vermelha da Interpol e já podem ser presos no exterior. Há mandados em aberto no Paraguai e nos Estados Unidos. Além disso, um alvo estaria em viagem pela Alemanha, de acordo com a apuração da Polícia Federal.

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