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Boff releva xingamento de Ciro e vê Brasil em situação dramática: "precisamos de uma Arca de Noé"

Leonardo Boff, em Curitiba, após visitar o ex-presidente Lula na prisão, em maio - Joka Madruga/Agência PT
Leonardo Boff, em Curitiba, após visitar o ex-presidente Lula na prisão, em maio Imagem: Joka Madruga/Agência PT

Wellington Ramalhoso

Do UOL, em São Paulo

02/11/2018 04h00

Xingado e criticado por Ciro Gomes (PDT), o teólogo Leonardo Boff, 79, diz ter misericórdia do candidato derrotado à Presidência e entender o “excesso” do pedetista. Em entrevista ao UOL, Boff, que é amigo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reconhece Ciro como um dos maiores líderes do país.

Durante o segundo turno, Boff afirmou que Ciro havia “amarelado” e que cairia no esquecimento político por não declarar apoio a Fernando Haddad, candidato do PT. Ciro retrucou Boff em entrevista à “Folha de S.Paulo” publicada na quarta (31). O pedetista o chamou de “bosta” e de bajulador de Lula.

“Pega um bosta como esse Leonardo Boff [que criticou Ciro por não declarar voto a Haddad]. Estou com texto dele aqui. Aí porque não atendo o apelo dele, vai pelo lado inverso. Qual a opinião do Boff sobre o mensalão e petrolão? Ou ele achava que o Lula também não sabia da roubalheira da Petrobras?”, questionou Ciro. “Quem disse a ele [Lula] que não pode fazer o que ele fez? Que não pode fraudar a opinião pública do país, mentindo que era candidato?”

Escritor e filósofo, Boff rejeita o rótulo de bajulador do petista e afirma que a amizade com Lula não o impediu de fazer críticas ao próprio ex-presidente e ao PT. “Um intelectual, ciente de sua missão, não pode deixar de criticar malfeitos, venham de onde vierem. Assim o fiz em todo o tempo”, declara na entrevista abaixo, concedida por e-mail.

Para o teólogo, a vitória de Jair Bolsonaro (PSL) representa um risco à democracia. ”Precisamos de uma Arca de Noé onde todos possamos nos abrigar, abstraindo das diferentes extrações ideológicas, para não sermos tragados pelo dilúvio da irracionalidade e das violências que poderão irromper”, afirma. Confira abaixo a entrevista.

UOL - Como o sr. encara e responde às críticas feitas por Ciro Gomes ao senhor?
Leonardo Boff - Não me incluo entre os eventuais bajuladores de Lula. Nunca fui filiado ao PT por convicção, pois o ofício do pensar filosófico e teológico não pode se restringir à parte, donde vem partido, mas deve procurar pensar o todo e a parte dentro do todo. Somos eu e Frei Betto (também não filiado ao PT) amigos de Lula de longa data, desde o tempo em que organizava as greves e a resistência à ditadura militar. Portanto, bem antes de ser político e presidente. Os amigos se criticam olhos nos olhos para construir, os adversários o fazem pelas costas para destruir. E assim o entendia Lula. Somos amigos-irmãos que têm os mesmos sonhos e os mesmos propósitos fundamentais. Frei Betto era igualmente duro na crítica, não obstante a grande amizade que os unia e une. Sigo a sentença dos mestres espirituais: "se não entender o que alguém diz a seu respeito tenha pelo menos misericórdia", virtude central do cristianismo assumida, decididamente, pelo papa Francisco. Procuro viver esta virtude.

Considero Ciro Gomes uma das maiores e imprescindíveis lideranças do Brasil. Ele é importante para a manutenção da democracia e dos direitos sociais. Ele ajuda a alargar os horizontes dos problemas que enfrentamos com o seu olhar próprio. O que faz e diz é dito e feito com paixão. Entretanto, a paixão necessária nem sempre é uma boa conselheira. Creio que foi o caso de sua crítica a mim chamando-me com um qualificativo que não o honra.

Dias atrás, no Twitter, o sr. disse que Ciro amarelou e que será esquecido. Por que o sr. afirmou isto? O sr. mantém esta opinião?
Causou-me espanto o fato de que, no meio da crise, quando a democracia estava sob risco, confrontando-se com uma proposta autoritária de viés fascista, extremamente danosa ao país, ele tenha se retirado e assim privado a todos nós de um apoio importante devido à sua força política. O ressentimento falou mais alto e [ele] simplesmente se afastou. Na volta, não foi capaz de dizer “voto em Haddad”, apenas disse “voto pela democracia”.

Como há a possibilidade do voto branco e nulo nunca saberemos em quem ele votou. Por amor à democracia, ao bem comum, deveria se pronunciar claramente, face a uma ameaça grave de um governo de ultradireita e de viés fascista. Essa clareza faltou nos pronunciamentos de Ciro.

Ciro também afirmou na entrevista à “Folha” que foi traído por “Lula e seus asseclas” e repetiu que não fará mais campanha para o PT. Qual sua opinião sobre estas declarações? Ciro tem razão de se sentir traído?
Creio que devemos pensar como os antigos: devemos ter sempre magnanimidade na vitória e especialmente face à derrota. Não obstante os enfrentamentos durante a campanha eleitoral, os políticos não devem perder o verdadeiro sentido da política que é buscar o bem comum da nação. Aqui não podem prevalecer projetos pessoais, mas os coletivos aos quais nos colocamos a serviço. 

Excluir por parte de Ciro o PT de qualquer apoio não é politicamente sensato particularmente quando a democracia está em jogo.

Qual sua avaliação sobre a tentativa do PT e de Lula de insistir até o limite para que o ex-presidente fosse o candidato do partido na eleição deste ano? Foi uma estratégia acertada ou equivocada? Esta estratégia favoreceu a eleição de Jair Bolsonaro?
Não me cabe dizer se errou ou não. O PT tinha esperança de que se fizesse justiça a Lula e que o Judiciário obedecesse à declaração da ONU de que Lula teria garantido o seu direito de ser candidato. Mas o arbítrio imperante não atendeu esta regra de tão alta instância. Vetou sua candidatura e quanto o saiba até lhe sequestrou o direito de votar. O que demonstra ser de fato um prisioneiro político vivendo numa solitária. O que, na verdade, elegeu Bolsonaro foi um mantra contra a corrupção e o antipetismo que suscitou na sociedade. Só que, ao meu ver, usou métodos corruptos, de milhões de fake news e difamaçãoes a ponto de inundarem a consciência de boa parte da população. Sou completamente a favor que se combata a corrupção. Mas que se comece pelos grandes corruptos que são as grandes empresas.

Do ano passado até princípios de setembro de 2018, atestam os procuradores da Fazenda Nacional, foram sonegados R$ 450 bilhões. O total da corrupção do “mensalão” e do “petrolão” mal chega a 10% desta corrupção já naturalizada. Com o resgate destes bilhões sonegados não precisaríamos fazer a reforma da Previdência.

Esta espécie de ruptura de Ciro com o PT irá enfraquecer a formação de uma frente de oposição ao futuro governo Bolsonaro?
Não creio, pois para além dos desentendimentos com o PT, Ciro é um democrata. Irá seguramente se agregar a uma frente ampla e pluralista de resistência ao radicalismo de direita, estimulado pelas palavras ditas por Bolsonaro durante a campanha. Eleito, [Bolsonaro] procurou amenizar suas posições. Mas suspeito que é apenas um rito do cargo. Ele continua raivoso e odiento, como revelou numa entrevista, já eleito, num canal de televisão, nomeando diretamente os movimentos dos sem-terra e dos sem-teto. Sua proposta é considerá-los terroristas e aplicar-lhes as leis contra o terror. Isso significaria uma carnificina no campo e nas cidades. 

Muitos provavelmente chorarão e terão saudades de tempos mais democráticos e que permitia às pessoas se sentirem mais felizes.

Qual a avaliação do sr. sobre o mensalão e os casos de corrupção na Petrobras? O sr. tratou destes temas com o ex-presidente Lula em algum momento? O que sr. disse a Lula sobre isto e o que ex-presidente lhe falou?
Sobre o “mensalão” e o “petrolão” sempre fui crítico. Mostrei-o em meus artigos publicados no “Jornal do Brasil” online, onde escrevi, semanalmente, durante 18 anos. Todos eles estão no meu blog. Aconselho os leitores que leiam o livro que publiquei a partir da atual crise brasileira: ”Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência”, com 265 páginas, editado pela Editora Vozes neste ano. Há todo um capítulo sobre “Os equívocos e erros do PT e o sonho de Lula".

Um intelectual, ciente de sua missão, não pode deixar de criticar malfeitos, venham de onde vierem. Assim o fiz em todo o tempo.

O que representa a vitória de Bolsonaro? E o que sr. espera do governo do presidente eleito?
Entramos numa fase, a meu juízo, de grandes desafios e atribulações, especialmente para a população mais vulnerável, dos homoafetivos e de outras minorias políticas, e também para maiorias numéricas, como os negros e negras. E seguramente muitos intelectuais e artistas sofrerão perseguições e injúrias como já estão já ocorrendo. Mas a situação nos obrigará a todos a fazermos uma autocrítica e superar a perplexidade com a qual fomos tomados: por que chegamos a tal ponto de extremismo e de atitudes fascistas? Por que não fomos vigilantes? Onde erramos? Penso que todos os partidos têm que se reinventar sobre bases éticas e morais mais sustentáveis e com uma democracia mais avançada que inclusive insira os direitos da natureza e da Mãe Terra.

Temo uma onda de extermínio, vinda de cima, de grupos metidos com a droga e com violência organizada nas periferias de nossas cidades.

Há, na opinião do senhor, motivos para se temer uma ruptura democrática no país?
Creio que agora a situação é tão dramática que precisamos de uma Arca de Noé onde todos possamos nos abrigar, abstraindo das diferentes extrações ideológicas, para não sermos tragados pelo dilúvio da irracionalidade e das violências que poderão irromper a partir de uma liderança que tem como ídolo um torturador como Brilhante Ustra e que admira Hitler, o criador dos campos de extermínio em massa de milhões de pessoas.

Suspeito que a ruptura democrática já está a caminho tal é o radicalismo de viés fascista do presidente eleito.

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