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Por reforma, Bolsonaro negocia com desafetos e caciques da "velha política"

Pedro Ladeira/Folhapress
Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress

Alex Tajra

Do UOL, em São Paulo

04/04/2019 04h01

Pela necessidade de cumprir com sua principal proposta econômica - a aprovação da reforma da Previdência -, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) deve se reúne hoje com dirigentes dos partidos mais influentes na Câmara. As reuniões tentarão remediar as lacunas na articulação política do governo, desgastada por uma série de embates entre Legislativo e Executivo.

Bolsonaro ainda corre contra o tempo para formar uma base aliada, imprescindível para a aprovação das propostas que interessam ao governo, principalmente aquelas que exigem alterações na Constituição do país. Oficialmente, apenas a sigla do presidente, o PSL (Partido Social Liberal), que conta com 54 parlamentares, apoia o governo na Câmara.

O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM), já demonstrou consciência disso. "Para que tenhamos uma base constituída, a gente precisa dialogar, convidar e abrir as portas", disse ontem, após reunião com a Executiva do DEM.

Hoje, Bolsonaro deve se reunir com presidentes de seis partidos: PSDB, MDB, PP, DEM, PSD e PRB, conforme a agenda oficial divulgada ontem à noite. Conversas com outras legendas de centro-direita podem acontecer na próxima semana.

Além da formulação da base, os encontros trazem à tona outros desafios para Bolsonaro.

O presidente terá de abandonar a retórica da "velha política", já que vai dialogar com caciques partidários de peso como Geraldo Alckmin (PSDB), Antônio Carlos Magalhães Neto (DEM) e Romero Jucá (MDB). De quebra, vai conversar com políticos a quem criticou ou de quem ouviu críticas públicas:

Geraldo Alckmin (PSDB)

Durante sabatina, Geraldo Alckmin critica Bolsonaro

UOL Notícias

Derrotado na última eleição presidencial com a pior campanha da história do PSDB, Alckmin já emitiu várias opiniões críticas a Bolsonaro - incluindo contra a proposta de reforma da Previdência apresentada pela equipe econômica do presidente.

"[Bolsonaro é] Aquela coisa corporativa, atrasada, que não confronta a corporação. Ele votou contra o [Plano] Real, contra a quebra do monopólio do petróleo, contra a quebra de monopólio de telecomunicações, contra cadastro positivo", disse Alckmin sobre seu então concorrente em entrevista ao UOL.

O que anda para trás é caranguejo. O Brasil não vai regredir, o sofrimento foi muito grande com esse período populista (...) O Bolsonaro e o PT são a mesma coisa, é corporativismo puro
Geraldo Alckmin durante a campanha presidencial


"Pô, pelo amor de Deus. Eu acho que o Alckmin soltou pipa no ventilador e jogou bola de gude no carpete. Caranguejo não anda pra trás, anda de lado", rebateu Bolsonaro pouco depois em entrevista à Rádio Metrópole.

No final de fevereiro, o presidente do PSDB deu declarações pouco otimistas em relação à reforma proposta por Bolsonaro. O tucano considerou "desumana" a ideia de que idosos muito pobres só possam receber um salário mínimo após os 70 anos, conforme publicado pela Folha de S. Paulo.

Gilberto Kassab (PSD)

Kassab vira réu após irregularidades em programa de inspeção veicular

redetv

Presidente do PSD, ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro de Temer (MDB) e Dilma (PT), Kassab criticou a articulação política do governo atual no Congresso e se encontra às 9h com Jair Bolsonaro, segundo a agenda oficial.

Para Kassab, caso Bolsonaro não consiga arcar com os compromissos mais urgentes, pode "perder crédito e popularidade".

"A avaliação que faço é que o governo, neste primeiro momento, está patinando, principalmente nas articulações políticas", disse à Folha.

Como outros caciques que encontrarão Bolsonaro hoje, Kassab está sendo investigado pela Polícia Federal por suposta propina paga pela JBS a duas empresas suas.

O ex-prefeito chegou a ser indicado por João Doria (PSDB) para ocupar a secretaria da Casa Civil do governo, mas pediu afastamento para se defender das acusações.

Ciro Nogueira (PP)

Senador e presidente do PP Ciro Nogueira é alvo de ação da Polícia Federal

redetv

Em 2014, o apoio de parte do "centrão", incluindo o PP, à candidatura de Dilma Rousseff (PT) irritou o clã Bolsonaro. O presidente, então filiado ao partido, criticou Ciro Nogueira em suas redes sociais pelo apoio à reeleição de Dilma. "Ciro Nogueira, presidente do PP, mesmo s/ ouvir o partido, quer apoiar a reeleição de Dilma Rousseff", escreveu Bolsonaro em seu Twitter.

A publicação foi endossada pelo seu filho, Eduardo Bolsonaro, que também utilizou suas redes sociais para criticar Nogueira. "Ciro Nogueira é o senador presidente do PP, aquele que mesmo antes da convenção nacional de seu partido gritava aos quatro cantos que Jair Messias Bolsonaro não seria candidato a presidente em 2014, pois o PP apoiaria Dilma", escreveu Eduardo

O encontro de hoje com o cacique do PP também coloca em cheque o discurso anticorrupção de Bolsonaro. A legenda, à qual o presidente foi filiado por 11 anos, está submersa em acusações de corrupção desde o início da Operação Lava Jato, e o próprio Nogueira foi alvo de uma operação da Polícia Federal no final de fevereiro.

Marcos Pereira (PRB)

No último dia 23, Pereira utilizou suas redes sociais para atacar a atuação do presidente Jair Bolsonaro como deputado federal em relação à Previdência.

"Bolsonaro sempre votou contra todas as propostas de reforma durante 28 anos como deputado, durante sua campanha criticou a reforma da Previdência, disse na quinta que não concorda com ela, e agora joga a responsabilidade para o parlamento", escreveu Pereira. "Ele parece não querer aprovar a reforma."

Dias depois, em entrevista ao Estado de S. Paulo, afirmou que Bolsonaro deveria "descer do palanque" e que se incomoda com as críticas de Bolsonaro à "velha política".

O presidente não pode dizer que não é político estando há 28 anos na política. Ele se elegeu sem partido, porque o PSL praticamente não existia, e acha que não precisará dos partidos agora
Marcos Pereira

ACM Neto (DEM)

ACM Neto: Não vamos concordar 100% com governo Bolsonaro

UOL Notícias

Apesar de ter respaldado Bolsonaro no segundo turno, o prefeito de Salvador teceu frases duras sobre o capitão reformado logo após a eleição. Em entrevista à Folha, afirmou que o "Brasil deu o maior cheque em branco de sua história ao eleger Jair Bolsonaro".

Neto apoiou Alckmin no primeiro turno e afirmou ao UOL, durante a posse do presidente, que não iria concordar 100% com o governo, "inclusive na agenda de costumes". "Essa afinidade ideológica, sobretudo na agenda econômica, é o que nos aproxima hoje", disse o prefeito de Salvador.

Como Bolsonaro, ACM Neto foge do "toma lá, da cá", e já reafirmou que o Democratas não apoia pautas do governo pensando em cargos. Na Esplanada, no entanto, a legenda é a mais numerosa nos ministérios de Bolsonaro e ocupa três pastas.

Antes de ser eleito, o presidente desconversou sobre uma possível aliança com ACM Neto, ainda na esteira de suas declarações contrárias ao que chama de "velha política".

"Tivemos uma conversa de dez minutos. Como eu sou do baixo clero, não converso com general e coronel, a não ser que eles me chamem. (...) Aqui [Salvador], sou simpático ao ACM Neto. Se ele me permite, pode até não querer, mas acho que é uma pessoa educada e não vai ter nada contra", disse à rádio Metrópole.

Romero Jucá (MDB)

O ex-senador, que não foi reeleito em 2018 e é alvo de inquéritos derivados da delação de executivos da Odebrecht, foi outro que entoou o argumento de que Bolsonaro, mesmo eleito, não conseguiu se desvincilhar da campanha. À Folha, afirmou que o presidente é refém de um discurso contra a "velha política" e a articulação partidária.

Jucá chamou a retórica de Bolsonaro de "âncora" que está puxando o governo para baixo. "O governo ainda não teve uma conversa com os presidentes dos partidos. A âncora da campanha é: não vamos falar com partidos e líderes, não vamos ter negociação. A âncora começou a ser cortada pelo pior pedaço, que é dizer que vai dar cargo e vai dar verba", disse Jucá.

Romero Jucá (RR), presidente nacional do MDB - Pedro Ladeira/Folhapress
Romero Jucá (RR), presidente nacional do MDB
Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress
Para o presidente do MDB, a reforma da Previdência está "longe de ter a firmeza de colocar para votar". Questionado sobre qual conselho daria ao atual governo, foi sucinto: "Converse mais".

Na última terça-feira, Jucá escreveu um artigo para o mesmo veículo - interpretado por muitos como uma mensagem prévia a Bolsonaro - onde mais uma vez rechaçou a perspectiva do presidente sobre a política partidária. "No final das contas, a política é quem vai decidir", escreveu o ex-senador.

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