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Minicurso, tropeços e negociações: como Moro entrou no Twitter

Divulgação/Twitter @sf_moro
A história por trás do meme: Moro contrariou auxiliares e postou foto com calendário Imagem: Divulgação/Twitter @sf_moro

Leandro Prazeres

Do UOL, em Brasília

2019-04-14T04:00:00

2019-04-13T22:40:33

14/04/2019 04h00

Às 12h52 do dia 4 de abril, a internet no Brasil "parou". Naquele instante, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, publicou uma foto sua segurando um calendário na sua então recém-criada conta no Twitter.

Por mais que aquilo fosse, de fato, "um pouco inusitado" --como ele mesmo definiu--, a imagem marcou a entrada de Moro no reino das redes sociais (e dos memes). O UOL conversou com especialistas em política e em mídias e com pessoas próximas ao ministro para contar como surgiu a ideia e quais as consequências da chegada de Moro esse universo de postagens.

A estreia de Moro no Twitter ocorreu precisamente às 6h34 daquele dia 4 de abril. Até a última sexta-feira (12), ele já contabilizava 612 mil seguidores. Uma média de 76,5 mil seguidores por dia.

Mas a ideia de ter uma conta para chamar de sua havia surgido quase um mês antes. Pessoas próximas a ele contam que, em meados de fevereiro, Moro apareceu com a proposta.

"Foi ele que trouxe a ideia. Ele disse que achava que seria legal ter uma conta que não fosse só a do ministério para que ele pudesse explicar os projetos", disse uma pessoa que acompanhou todo o processo. Em fevereiro, Moro tinha acabado de apresentar o seu projeto anticrime, alvo de inúmeras críticas por parte da oposição e de entidades que atuam na defesa dos direitos humanos.

Enquanto ele se desdobrava em audiências com deputados e senadores para falar sobre o endurecimento das penas a criminosos, sua equipe começou a pôr de pé o projeto nas redes sociais.

Logo na primeira incursão a esse terreno, Moro se deu conta de que aquele território tinha suas próprias regras.

Ele queria que sua conta tivesse o seu nome. Mas sua equipe teve de lhe explicar que @SergioMoro e variações semelhantes já existiam e não poderiam ser utilizadas. A alternativa foi a criação da conta @SF_Moro, uma abreviação do nome completo do ministro: Sergio Fernando Moro.

Escolhido o nome, veio a segunda etapa: entrar em contato diretamente com o Twitter para que a conta já surgisse "verificada". Essa checagem é uma espécie de certificado conferido pela rede social para atestar que aquela é uma conta oficial.

Normalmente, os perfis "nascem" sem essa verificação, mas a equipe do ministro convenceu o Twitter de que a conta deveria ser "verificada" desde o início.

Com março, chegou a maior crise dos três primeiros meses de Moro à frente do ministério: o embate com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), pela tramitação do pacote anticrime.

Em meio à confusão, o plano de estrear na rede social teve de esperar. Somente após a paz ser selada entre eles, chegou o momento para a estreia de Moro na rede.

Não sem um pequeno treinamento. "A gente deu algumas noções básicas de como o Twitter funciona. Mostramos para que servem algumas funcionalidades, como se dá o diálogo entre os usuários. Não chegou a ser um curso, apenas umas noçõezinhas. O Twitter tem uma linguagem e alguns códigos próprios e, se ele queria usar essa ferramenta, ele tinha que saber como funcionava", disse uma das pessoas que ajudou o ministro.

Segundo o UOL apurou, é o próprio ministro quem faz as postagens em seu perfil.

"Caneladas"

Não demorou muito para que as primeiras "caneladas" de Moro acontecessem. Antes mesmo da foto/meme "parar" a internet, Moro foi alertado sobre como devia usar a rede.

Às 6h39, ele publicou uma postagem dizendo que queria usar o perfil para explicar o pacote anticrime.

O problema é que ele só foi voltar a escrever sobre o assunto quase 24 horas depois, às 3h16 do dia 5 de abril. Nesse meio tempo, centenas de internautas cobravam a continuação do assunto. Sua equipe precisou explicar que não é de bom-tom iniciar assuntos e demorar tanto para continuá-los.

O maior "tropeço" até agora, é claro, foi a foto/meme do calendário.

Antes de publicá-la, Moro reclamou a seus auxiliares que estava se sentindo incomodado com o fato de que muitos usuários estarem duvidando de que aquela fosse a sua conta verdadeira. Explicaram a Moro que ele não precisava se preocupar. Que aquele símbolo "azulzinho" ao lado da foto seria suficiente. Ele não se convenceu e o resto, agora, é história.

Batismo na política

O antropólogo Michel Alcoforado é especialista no comportamento em redes sociais e diz que a chegada de Moro ao Twitter marca o "batismo" político do ministro.

"A gente pode ver a entrada no Twitter como o batismo dele no mundo da política. Antes de assumir o cargo, ele era um juiz que se pronunciava nos autos e não precisava disputar narrativas. Agora, como político, ele se deu conta que precisa. E um perfil em rede social é uma das ferramentas que ele vai precisar para entrar nessa disputa", afirma.

Para o professor de ciência política da FGV-SP (Fundação Getúlio Vargas de São Paulo) Cláudio Couto, a entrada de Moro nas redes sociais é uma consequência natural da trajetória do ministro até agora.

"É normal. Agora, ele é um político e qualquer um que esteja envolvido na política precisa estar presente nas redes sociais para sobreviver", afirmou.

Alcoforado e Couto dizem acreditar que Moro está em um período de "aprendizado" resultado da transição da sua posição como juiz para a de um político cujas aspirações ainda são misteriosas.

"Ele é um ator em transformação, saindo da condição de juiz para a de um político. É um caminho sem volta. Ainda não sabemos se essa entrada no Twitter tem a ver com pretensões eleitorais, mas, seja qual for o plano, ele vai precisar aglutinar seus seguidores e ter uma voz", afirmou Couto.

"Moro está aprendendo a como transitar nesse universo. Desde a crise com o Maia, por exemplo, até o meme da foto com o calendário, a gente vê que ele está tentando caminhar nesse novo cenário", disse Alcoforado.