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Guerra entre governadores do NE e Bolsonaro vai acabar, diz chefe da Sudene

Mário Gordilho, superintendente da Sudene - Sudene
Mário Gordilho, superintendente da Sudene Imagem: Sudene

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

23/05/2019 04h00

À frente da Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste) desde setembro de 2018, Mário Gordilho será o anfitrião da primeira visita do presidente Jair Bolsonaro (PSL) ao Nordeste. Amanhã, às 10h, ele comanda no Recife uma reunião do conselho deliberativo do órgão que vai discutir e aprovar o Plano Regional de Desenvolvimento do Nordeste, documento que reúne 880 propostas dos governos estaduais.

Em entrevista ao UOL, o superintendente antecipou detalhes do plano e falou que a "guerra" política dos governadores da região com o presidente terá um final em breve. "Essa guerra vai deixar de existir no momento em que a gente conseguir implantar e mostrar que efetivamente há uma intenção [do governo federal]. A prova é o presidente estar vindo aqui", disse.

Gordilho se reuniu previamente com todos os governadores e disse que Bolsonaro deve encontrar um clima favorável. A mesma reciprocidade será dada pelo governo federal. "Ou se concentra os esforços, une os esforço de União, estados e municípios, ou vai continuar mantendo esse status quo. Há 60 anos a Sudene existe, e há 60 anos a renda per capita nordestina é metade da brasileira", aponta.

O superintendente ainda afirmou que o plano apresentado será o instrumento para acabar com a grande diferença regional de renda do Nordeste para outras regiões. Para isso, começaram reuniões no final do governo Michel Temer (MDB): "É algo que vem se trabalhando desde o final do ano passado". Confira os principais pontos da entrevista.

UOL - O presidente faz sua primeira viagem ao Nordeste em cinco meses de mandato. Por que ele escolheu este momento com a Sudene?

Mário Gordilho - A reunião do conselho é algo que realizamos duas, três vezes por ano. Esta [a acontecer na sexta] tem o objetivo de aprovar o Plano Regional de Desenvolvimento do Nordeste, que é uma obrigação legal da Sudene, mas é o primeiro plano levado a fim com a participação de todos os estados. Foram mais de 800 propostas entregue pelos estados para serem acopladas aos seis eixos principais das agendas do PPA (Plano Plurianual). Há uma agenda do governo federal e, dentro dela, trabalhamos com os estados.

Eu visitei todos os governadores, tive reunião com todos os secretários. O fato raro é o presidente estar em uma reunião do conselho, mas esta tem uma importância muito grande, é um plano plurianual, com visão de 12 anos do Nordeste, que pode ser ajustado anualmente. É um trabalho que tem fôlego, de mais de 300 páginas.

A disputa política entre governadores do Nordeste e o presidente já se tornou conhecida. Isso vai atrapalhar a região?

Não percebi isso nem no Planalto, nem nos ministérios, nem tampouco nos estados, onde fui muito bem recebido por todos os governadores.

Depois que acontece a disputa política, quando o presidente e os governadores saem do palanque, a conversa é outra.

Estou vendo o governador da Bahia [Rui Costa, do PT] dando declarações de que temos que unir os esforços. Essa guerra vai deixar de existir no momento em que a gente conseguir implantar e mostrar que efetivamente há uma intenção [do governo federal]. A prova é o presidente estar vindo aqui [numa reunião do órgão], nunca aconteceu isso! A não ser no início da Sudene, lá nos anos 1960 e 1970, nunca ocorreu isso em um evento de conselho deliberativo. E os governadores mandaram 880 projetos, estão acreditando [na união].

Pelas propostas apresentadas, qual é o foco do trabalho para desenvolver o Nordeste?

O foco é segurança hídrica e conservação ambiental, inovação, diversificação produtiva na parte agrícola, pecuária, desenvolvimento das capacidades humanas --no caso a educação. Os recursos para essas operações podem ser privados, dos fundos FNE [Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste] e FNDE [Fundo de Desenvolvimento do Nordeste], do Orçamento da União e de instituições internacionais.

Como esse plano pode ser colocado em prática?

Nós distribuímos o Nordeste em 41 cidades intermediárias, mais as nove capitais. A base do trabalho é na agregação, para dar foco aos investimentos. Essas cidades são a base do trabalho, com seus municípios no entorno.

Mário Gordilho, superintendente da Sudene - Sudene
Mário Gordilho, superintendente da Sudene
Imagem: Sudene

Você ficar com calçamento de rua, resolvendo um problema ou outro nunca resolveu o problema do Nordeste. Ou se concentra os esforços, une os esforço de União, estados e municípios, ou vai continuar mantendo esse status quo.

Há 60 anos a Sudene existe, e há 60 anos a renda per capita nordestina é metade da brasileira. Poderia ter piorado não fosse os incentivos fiscais nos anos 1970 e 80, quando veio a grande industrialização do Nordeste. Tudo isso veio com recursos e incentivos fiscais que existem até hoje. Isso tudo ajuda muito, mas não conseguiu tirar essa diferença existente. Queremos buscar essa melhoria da qualidade de vida. Hoje você não vê mais ninguém morrer de sede, tem operação de carro-pipa coordenada pelo Exército, tem essa quantidade enorme de barragens realizadas e temos praticamente uma Itaipu de geração de energia eólica e solar no Nordeste.

A gente não se apercebe disso, mas são fatos muito importantes, muito em cima dos recursos fiscais. Já estamos dominando a energia do Nordeste, eólica e solar. Precisamos dominar os recursos hídricos. Quando a gente conseguir água --ou em quantidade, ou em qualidade--, a gente consegue tirar essa diferença.

Falta muito para o Nordeste deixar para trás essa diferença regional?

A demanda que tem reprimida, com necessidade de recurso, impressiona. Aí tem projetos em andamento, parados, que não têm ainda o projeto de engenharia executiva. Foram muitas sugestões, como recuperar ferrovias que fazem o acompanhamento da costa do Nordeste, estradas, o plano de requalificação do rio São Francisco --que vai desde a melhoria das nascentes até a distribuição de água dos canais. Tudo isso está andando, mas tem que concluir, tem chegar água, distribuir, irrigar. Desses estudos com os consultores vamos descobrindo soluções, sugestões. Me surpreendeu a dimensão que isso poderá ter.

Já há um número previsto de investimento necessário a curto e longo prazo?

Não existe uma definição. O que existem são recursos como os do FNE, que tem mais de R$ 25 bilhões que serão destinados neste ano ao Nordeste; o FDNE tem mais entre R$ 700 milhões e R$ 800 milhões. Outras linhas de crédito terão de ser buscadas, como o próprio Orçamento da União. Mas para isso tem de aprovar a [reforma da] Previdência, tem que ter uma série de reformas, senão não tem dinheiro.

O que o senhor vê como mais importante para começar?

Energia, que está sendo feito, e água. Lógico que temos que fazer uma junção de recursos federais e estaduais, financiamentos, PPP [parceria público-privado]. O que for possível também para incentivar a parte de agricultura. E nós contamos --e é muito importante-- que os deputados e senadores, que comandam o orçamento, concentrem emendas em assuntos fundamentais, e não ficar despistando com uma rua aqui e outra pracinha acolá. Precisamos mudar isso. Sem água e sem energia não se faz nada.

Algo será anunciado de imediato com a presença do presidente?

As cidades intermediárias serão interligadas de imediato por uma rede de fibra ótica. Já está certo isso pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, e deve ser anunciado pelo presidente aqui na sexta. As outras cidades serão paulatinamente interligadas.

Com a crise econômica, teríamos recursos para tantas coisas?

Energia, por exemplo, tem toda a parte de financiamento pelo FNE e FNDE, com bilhões [de reais] por ano que estão aplicados, que tem um resultado mais imediato. A água é mais problemática, tem perfurar poço, são recursos a fundo perdido. Mas estamos buscando os casos de sucesso na região. O Ceará tem uma rede de informatização das escolas --não à toa tem o melhor índice [de avaliação na educação] do país. Essa interação entre as regiões é muito importante. A função da Sudene primordial é fazer o protagonismo das ações no Nordeste, e estamos buscando isso.

O governo Bolsonaro deu apoio e fortaleceu a Sudene?

Com certeza, ele deu todo o apoio. O ministro [Gustavo] Canuto, do Desenvolvimento Regional, deu todo o apoio à estruturação do plano, a Presidência da República também. Estamos trabalhando a quatro mãos, é um trabalho integrado, não é algo desta semana ou da passada. É algo que vem se trabalhando desde o final do ano passado. Foram 880 projetos. E ainda tenho recebido ligações de governos estaduais. Uma nova reunião já está marcada para o dia 12, no Ceará, com todos os secretários para rever essa estrutura do que está planejado.

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