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Como a TV Câmara virou uma ferramenta na mão de deputados em busca de likes

Deputados do PSL fazem lives em redes sociais durante a votação do destaque que retirou o Coaf do Ministério da Justiça - Pedro Ladeira - 22.mai.2019/Folhapress
Deputados do PSL fazem lives em redes sociais durante a votação do destaque que retirou o Coaf do Ministério da Justiça Imagem: Pedro Ladeira - 22.mai.2019/Folhapress

Gabriel Garcia

Colaboração para o UOL, em Brasília

02/06/2019 04h00

A tecnologia mudou a forma de os políticos se relacionarem com os eleitores. Antes admiradores de discursos pomposos, hoje posam em frente às câmeras dos celulares com linguagem bem menos erudita.

É a era do caça-clique, segundo o professor Silvado Pereira da Silva, da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB): "A indústria de dados trabalha com a ideia de manter o indivíduo monetizado. A maioria das estratégias funciona para manter o usuário conectado e gerar dados, que serão vendidos para anunciantes".

O cientista político Cristiano Noronha, vice-presidente da empresa Arko Advice, concorda que as redes sociais chegaram com força no Congresso. "É muito comum que logo ao chegarem às comissões, os parlamentares liguem seus celulares", afirma.

Além de selfies nos corredores e vídeos gravados por assessores no Salão Verde, os deputados exploram recortes das transmissões da TV Câmara, que se tornou ferramenta de auxílio na busca por maior número de curtidas nas redes sociais.

O líder do Cidadania, Daniel Coelho (PE), cunhou a expressão "caçadores de Pokémons", em referência aos monstrinhos de um desenho que virou jogo para celular. "Sem desconsiderar honrosas exceções, parte da renovação política trouxe caçadores de Pokémons para o Congresso", critica. "Passam o dia fazendo selfies e comentando os fatos como se nada tivessem para fazer."

A Câmara passou recentemente por um processo de reestruturação, com a criação da Secretaria de Interação, Participação e Mídias Digitais. O novo órgão concentra as redes sociais da TV, da rádio e da agência da instituição.

A TV Câmara, por sua vez, está vinculada à Secretaria de Comunicação, comandada pelo deputado Fabio Schiochet (PSL-SC). Ele compõe a bancada com maior presença na internet, com destaque para os deputados Carla Zambelli (PSL-SP), Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), Joice Hasselmann (PSL-SP) e Alexandre Frota (PSL-SP), todos do partido governista.

Como os parlamentares usam conteúdo da TV Câmara

O material da emissora pode ser reproduzido livremente por qualquer "cidadão, instituição ou empresa". Os deputados contam ainda com vasto material no canal do YouTube, onde estão inseridas as sessões plenárias e reuniões de comissões.

Frota e Bolsonaro - Reprodução/TV Câmara - Reprodução/TV Câmara
Carlos Alberto de Nobrega recebe homenagem na Câmara em sessão comandada por Alexandre Frota e com a presença de Bolsonaro
Imagem: Reprodução/TV Câmara

Fiel escudeiro do governo, Frota lança mão de recortes do veículo institucional nas redes. Publicou vídeo da TV Câmara gravado em audiência da comissão especial da reforma da Previdência para rebater críticas aos índices de desemprego no Brasil, além de divulgar trecho em que preside a sessão do plenário quando anuncia a chegada do presidente Bolsonaro. "De surpresa, ele veio caminhando do Palácio do Planalto para participar da nossa homenagem ao ilustre Carlos Alberto de Nóbrega", comemorou.

De acordo com sua assessoria, a TV Câmara é importante na interação com o público. "Usamos o material transmitido como forma de comunicação multimídia. Ou seja, o broadcasting, cada vez mais, vem dividindo audiência com as redes sociais, e integrar conteúdo entre as diferentes plataformas é importante para informar a população não só do trabalho do deputado, mas dos temas de suma importância para o país", disse.

Outro político frequente nas redes sociais, o presidente da Comissão de Relações Exteriores, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), divulgou no Facebook reunião em que sabatinou o professor Rodrigo Fernandes More como candidato do Brasil ao Tribunal Internacional de Direito do Mar.

Dos partidos de esquerda, a presidente nacional do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), publicou encontros, gravados pela emissora, da reforma da Previdência. Em um deles, acusa o ministro da Economia, Paulo Guedes, de prejudicar as mulheres e levar o país para o buraco. O PT é o maior opositor às mudanças nas regras de aposentadoria.

A TV Câmara justifica que promove a transparência e divulga a atividade parlamentar, facilitando o acesso da sociedade às informações legislativas com linguagem clara e de forma inclusiva.

Excesso de fake news e falta de tolerância

As redes sociais, meios práticos e acessíveis para divulgação de dados e informações, são usadas também para transmitir as chamadas "fake news", expressões do fenômeno da desinformação, de acordo com o professor Silva.

Segundo ele, há um problema cultural. "As pessoas não entenderam a importância e o impacto de notícias falsas. Compartilham algo porque se identificam ou querem acreditar como se a desinformação fosse real", critica.

O professor lamenta o avanço acelerado das campanhas negativas. "Democracia funciona bem com pessoas bem informadas, que respeitam certos princípios éticos. Quando se quebra esse pacto, se quebra a democracia".

Noronha diz que falta tolerância. "Nem todo mundo está preparado para fazer política nas redes sociais. Existem muitas pessoas que atacam de forma muito dura adversários e aqueles que pensam contrário", conclui.

Carla Zambelli - Pablo Raphael/UOL - Pablo Raphael/UOL
A deputada Carla Zambelli
Imagem: Pablo Raphael/UOL

Além de modificarem a relação dos parlamentares com os eleitores, as redes sociais criaram fenômenos de audiência. É o caso de Carla Zambelli, considerada a deputada federal mais influente nesta semana pelo índice FSB Influência Congresso. Ela atribui o sucesso à forma "coerente" de se comunicar com seu público.

"O povo percebe quando não existe coerência, o que se diz na rede social e como se age aqui [na Câmara]. A mesma coisa que eu falo nas minhas redes sociais eu falo em público", afirma. Segundo ela, o parlamentar que adota um discurso diferente da prática ganha curtidas em um primeiro momento, mas perderá seguidores depois.

Uma das maiores apoiadoras dos atos em defesa do presidente Jair Bolsonaro, que aconteceram no domingo, Zambelli relata que busca interação conforme o interesse dos seus eleitores. "Como eu fui a parlamentar que mais puxou a questão da manifestação, e as manifestações foram grandes, foi por isso que eu passei [para a liderança no ranking de mais influentes]. Não tem mágica", diz.

O índice é calculado levando-se em consideração o número de seguidores, o alcance, os posts, a eficiência, as interações e o engajamento registrados no Facebook, no Instagram e no Twitter durante o período de análise.

Veja a lista dos dez deputados mais influentes nas redes sociais:

  1. Carla Zambelli (PSL-SP)
  2. Joice Hasselmann (PSL-SP)
  3. Pastor Marco Feliciano (Podemos-SP)
  4. Eduardo Bolsonaro (PSL-SP)
  5. Kim Kataguiri (DEM-SP)
  6. Tiririca (PR-SP)
  7. Jandira Feghali (PCdoB-RJ)
  8. Marcelo Freixo (PSOL-RJ)
  9. Filipe Barros (PSL-PR)
  10. Gleisi Hoffmann (PT-PR)

Despesas altas, mas audiência baixa

Criada em janeiro de 1988, a TV Câmara gasta, por ano, R$ 39 milhões entre contratos de terceirização de mão de obra, suporte técnico, locação de satélite, entre outras despesas. O dinheiro cobre o custo de levar sinal aberto e digital da TV Câmara para cerca de 300 cidades. A emissora conta atualmente com 38 concursados e 227 terceirizados.

Na lista de emissoras relevantes, nem aparece nos dados mensais consolidados do PNT (Painel Nacional de Televisão), medição feita pela empresa Kantar Ibope Media. Essa medição inclui todo o tipo de canais: os pagos e os abertos em VHF e UHF.