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Livro relata sumiços e chantagens emocionais de Carlos com o pai, Bolsonaro

Carlos e Jair Bolsonaro - Arquivo Pessoal/Reprodução/Instagram
Carlos e Jair Bolsonaro Imagem: Arquivo Pessoal/Reprodução/Instagram

Marco Britto

Do UOL, em São Paulo

16/01/2020 16h06

Carlos Bolsonaro, ou "Zero Dois", como já configura na cultura popular, é homem de temperamento errático. O pai, hoje presidente da República, fala publicamente que dá uma atenção especial a ele.

Essa atenção muitas vezes se transformou em angústia, como mostra o livro "Tormenta - O governo Bolsonaro: Crises, intrigas e segredos", da jornalista Thaís Oyama.

A pesquisa, baseada em depoimentos de interlocutores do presidente, mostra os bastidores da campanha e do cotidiano conturbado do presidente eleito — descrito como alguém que, ou age de supetão, ou prefere uma demorada análise para enfim tomar uma atitude inesperada.

Tanto pai quanto filho, neste caso, sofrem de mania de perseguição — Carlos, segundo conta a obra, usa remédios para controle do humor.

Bolsonaro, quando residente em seu apartamento no setor Sudoeste de Brasília, evitava água da geladeira quando chegava em casa. Tomava da torneira por medo de ser envenenado.

O costume lembra seu colega e ídolo, Donald Trump. Em "Fogo e Fúria", livro que retratou o norte-americano da mesma forma que agora Bolsonaro é retratado, consta que o presidente dos Estados Unidos prefere comer no McDonald's e não permite que troquem seus lençóis para evitar um envenenamento.

O Zero Dois tem como gatilho de suas preocupações a imensa admiração pelo pai. Ao ver uma chance de conspiração, ao menos em sua leitura da situação, parte para o ataque como um "pitbull", com afiadas mordidas virtuais via Twitter.

Um filho sumido e um pai "transtornado"

Segundo os relatos do livro no capítulo "Zero Dois", em algumas situações, ao ser contrariado pelo pai, Carlos some. Isso deixa Bolsonaro transtornado, preocupado que o filho "faça besteira".

Quando o vice-presidente e general Hamilton Mourão esteve na panela de fritura bolsonarista, por exemplo, por ter emitido opiniões que divergiam do chefe, Carlos era o mestre-cuca. Tuítes, ataques, insinuações... Tudo valeu para colocar o "conspirador" em maus lençóis, a ponto de um pedido de impeachment ter sido oficializado pelo deputado federal Marcos Feliciano na Câmara.

Porém, quando Zero Dois teve de apagar do perfil oficial do presidente no Twitter um vídeo em que Olavo de Carvalho criticava os militares, numa indireta a Mourão, ele desapareceu. Deixou como recado ao pai, autor da ordem, o mesmo vídeo, só que em seu perfil pessoal.

Segundo o relato, o presidente ficou "transtornado" e "mal conseguiu despachar" naquele dia, sem notícias do filho.

Ir "para nunca mais voltar"

Ainda durante a campanha eleitoral, Carlos já havia ameaçado sumir do mapa. Na ocasião o alerta feito ao pai foi um ultimato contra a nomeação do advogado Gustavo Bebianno para a Secretaria-Geral da Presidência.

Zero Dois desapareceu e cortou comunicação com Bolsonaro, que ficou "fora de si". Deu sinal ao final do dia, no Twitter. Soube-se depois que havia viajado a Florianópolis para um curso de tiro de dois dias.

Mais tarde, a queda do ministro seria precipitada por um tuíte de Carlos. Em entrevista sobre o caso dos candidatos "laranjas" do PSL em Minas Gerais, Bebianno afirmou que estava tudo bem, que havia falado com o presidente três vezes naquele dia.

O filho do meio do presidente desmentiu o ministro na rede social, o que levou a uma discussão interna, também narrada no livro de Oyama, que culminou na demissão de Bebianno. Zero Dois enfim afastou mais um desafeto.

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