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Witzel oferece 3 secretarias e institutos por votos contra impeachment

Wilson Witzel, governador do Rio de Janeiro - Fabio Teixeira/NurPhoto via Getty Images
Wilson Witzel, governador do Rio de Janeiro Imagem: Fabio Teixeira/NurPhoto via Getty Images

Gabriel Sabóia

Do UOL, no Rio

31/07/2020 04h00

O governo Wilson Witzel vai usar cargos de três secretarias que se encontram vagas, assim como de suas respectivas subsecretarias (7) e institutos (3), em troca de votos de deputados estaduais do Rio de Janeiro que o livrem do impeachment. As pastas do Turismo, Trabalho e Desenvolvimento Social —consideradas secretarias técnicas— serão oferecidas a parlamentares que ainda se mostram indecisos.

Após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que interrompeu nesta semana o processo de impeachment na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), o governador fluminense ganhou ao menos um mês para conseguir votos contra eventual afastamento —para isso, precisa do apoio mínimo de 35 parlamentares. Nas contas da cúpula do Palácio Guanabara, 42 deputados ainda podem se colocar contra o impeachment. Apesar de considerar a missão quase impossível, o governo corre contra o tempo para converter esses votos.

A volta de André Moura para a Secretaria de Casa Civil, na última semana, fez com que a interlocução junto a parlamentares fosse acelerada —seu afastamento acirrou a crise da Alerj com o governo Witzel, e agora ele retorna com a missão de evitar o impeachment do governador. Entre a última sexta (24) e segunda-feira (27), 26 deputados "bateram ponto" no Palácio Guanabara —o secretário chegou a atender dois deputados simultaneamente.

Sete subsecretarias estão subordinadas às três pastas, que têm ao todo três institutos vinculados —a Secretaria de Desenvolvimento Social mantém a Fundação para a Infância e Adolescência; a Secretaria do Turismo, a TurisRio, e a pasta do Trabalho, a Fundação Santa Cabrini.

A peregrinação de deputados ao Palácio Guanabara também carrega outro simbolismo: após relação turbulenta, o Executivo e o Legislativo voltam a ter um canal de diálogo. O ponto de atrito era Lucas Tristão. Braço direito de Witzel, o advogado foi afastado em junho da Secretaria de Desenvolvimento Econômico.

Os antigos titulares das três secretarias deixaram seus cargos em meio à crise do governo Witzel. Ex-secretário de Trabalho, Jorge Gonçalves pediu exoneração em maio após seu partido (Republicanos) romper com a base governista. Otávio Leite (PSDB) deixou o Turismo em junho e Fernanda Titonel entregou a Secretaria de Desenvolvimento Social neste mês —ambos alegaram questões pessoais.

A reportagem procurou o governador Wilson Witzel, por meio de sua assessoria de imprensa, sobre a estratégia de distribuição de cargos para evitar um impeachment. Ele foi questionado sobre o tema através de e-mail enviado na tarde de ontem, mas não houve retorno.

Conversão de votos em partidos já com cargos no governo

Em paralelo, o governo negocia conversões de votos pela manutenção de partidos em sua base. É o caso do DEM, que mantém Bruno Kazuhiro na Secretaria de Infraestrutura e Obras, além de contar com nomeações na Imprensa Oficial do Estado.

Com quatro deputados na Alerj, essas nomeações do DEM podem ser usadas como barganha para mudança de votos desses parlamentares.

Em situação parecida, Witzel conta com Altineu Côrtes (PL) como secretário de Meio Ambiente e Sustentabilidade.

A nomeação de Danielle Barros (Solidariedade) na Secretaria de Cultura deve ser citada em conversas com os três deputados do partido que ocupam cadeiras na Alerj. O partido também tem influência em órgãos públicos como o Proderj, que gere tecnologia da informação no governo, e o Ipem (Instituto de Pesos e Medidas).

O PP, que conta com o voto do deputado Dionísio Lins no plenário da Alerj, possui influência em nomeações da Ceasa (central de abastecimento de alimentos), além de ter entre os seus filiados, o secretário de Agricultura, Marcelo Queiroz.

O Pros, do deputado Subtenente Bernardo, é representado pelo secretário de Esportes, Felipe Bornier. A deputada Marina Rocha (PMB) também seria um "voto reversível", diante da sua influência na Secretaria de Meio Ambiente.

Para o governo, a influência do MDB no Detran seria suficiente para convencer os cinco deputados do partido a "mudar de ideia".

Bivaristas "na mira" de Witzel

Apesar da procura por André Moura, deputados disseram ao UOL que não houve pedidos tampouco ofertas de cargos.

"Eu e os demais viemos dar um abraço no Moura. É um sujeito de bem, que faz um trabalho sério", disse um parlamentar do PSL ligado à ala "bivarista" do partido, mais próxima da base do governo Witzel. O racha na legenda se deu após o rompimento do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e do deputado federal Luciano Bivar (PE), presidente nacional do PSL.

Os seis deputados do PSL mais distantes dos ideais de Bolsonaro são vistos pelo governo como alvos para a conversão de votos.

O jogo do painel e o risco do efeito boiada

Embora tente dialogar, a cúpula do Palácio Guanabara conta com outro obstáculo: o chamado "jogo do painel" na votação que marcará o recebimento da denúncia contra Witzel. O nome é uma alusão ao painel eletrônico da Alerj que contabiliza os votos contra e a favor do governador.

"Não adianta distribuir cargos aleatoriamente. Os votos são feitos em ordem alfabética. Caso os primeiros 20 votos sejam contrários ao governador, os demais também serão. Ocorre o 'efeito boiada'. Ninguém vai querer votar sozinho, agarrado ao Witzel", explica um deputado do PSC.

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