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Acuado por pandemia, Bolsonaro ganha fôlego se vencer eleição no Congresso

Jair Bolsonaro (PSL), faz "arminha" com os dedos, no plenário da Câmara dos Deputados, durante sessão solene do Congresso Nacional em homenagem aos 30 anos da Promulgação da Constituição Federal de 88 - Pedro Ladeira/Folhapress
Jair Bolsonaro (PSL), faz "arminha" com os dedos, no plenário da Câmara dos Deputados, durante sessão solene do Congresso Nacional em homenagem aos 30 anos da Promulgação da Constituição Federal de 88 Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress

Kelli Kadanus

Colaboração para o UOL, em Brasília

01/02/2021 04h00

O resultado das eleições para presidência da Câmara e do Senado pode garantir a sobrevivência do mandato do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e até virar um trunfo em uma tentativa de reeleição em 2022. Mesmo sem ter uma base sólida de apoio no Congresso, o presidente decidiu influenciar a eleição nas duas Casas, principalmente na Câmara, onde tenta emplacar o nome do líder do centrão, Arthur Lira (PP-AL).

A disputa na Câmara ainda está incerta. O principal adversário de Lira é Baleia Rossi (MDB-SP), candidato indicado pelo presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ). No Senado, tudo indica a eleição de Rodrigo Pacheco (DEM-MG), candidato que une o apoio do Planalto e da oposição.

Os presidentes das duas Casas são decisivos na definição da pauta de votações do Congresso. A eleição de aliados pode dar mais tranquilidade ao Planalto em relação aos temas que vão a plenário num momento conturbado do mandato de Bolsonaro.

O governo federal se vê cada vez mais acuado pelos erros que cometeu na gestão da pandemia do coronavírus. No Congresso, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), já disse que é "inevitável" uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para investigar possíveis crimes na Saúde. Já há, inclusive, movimentos de coleta de assinaturas para abertura da CPI.

A PGR (Procuradoria-Geral da República) pediu ao STF (Supremo Tribunal Federal) para investigar a atuação do ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello. A investigação, aberta pela Polícia Federal, pode acabar respingando no presidente.

Além disso, os pedidos de impeachment de Bolsonaro se acumulam na gaveta da Presidência da Câmara. Até agora, 64 pedidos já foram protocolados - apenas cinco foram arquivados, por questões regimentais.

A popularidade de Bolsonaro também caiu, segundo a última pesquisa Datafolha. A rejeição ao presidente saiu de 32% em dezembro para 40% em janeiro. A aprovação, por sua vez, caiu de 37% para 31%.

"Ter as duas Casas na mão dá ao governo sobrevida", explica o cientista político Leonardo Barbosa e Silva, da Universidade Federal de Uberlândia. "A presidência da Câmara tem não só a capacidade de pautar, de dirigir a agenda, como também segurar as ações de impeachment", completa.

Além de ser importante para a manutenção do mandato, ter aliados no comando da Câmara e do Senado também pode ajudar Bolsonaro em seu projeto de reeleição em 2022.

Segundo Silva, se Lira e Pacheco vencerem, Bolsonaro terá condições de reorganizar parte do centrão e inaugurar uma nova agenda política para os próximos dois anos. "Até agora ele não conseguiu ter uma marca do governo no campo da economia, dos costumes. O que tem são ações esparsas. Mas se conseguir imprimir sua marca, é provável até que ganhe apoio de partidos maiores que, de fato, ainda não tem hoje em dia", explica.

"O Bolsonaro tem falado muito no Aliança pelo Brasil, mas se não conseguir as assinaturas [para criação do partido] até março ele vai se aliar a algum outro partido", diz a analista política da Ética Inteligência Política, Hannah Souza. Segundo ela, os partidos aliados a Lira podem receber o presidente para a disputa pela reeleição. " Pode ser um reflexo grande para 2022", diz.

Interferência gera reclamações

A interferência do Palácio do Planalto na disputa na Câmara tem irritado Maia. Na última quarta-feira (27), ele ironizou a tentativa de interferência e disse que o governo não vai conseguir cumprir as promessas feitas de liberação de emendas em troca de apoio

"Pela conta que eu fiz e pelo orçamento que teremos para 2021, pelo que eu já vi que o governo está prometendo, vai dar pelo menos R$ 20 bilhões de emendas extra orçamentárias. Só quero saber com que orçamento eles poderão cumprir essa promessa", disse o presidente da Câmara

"A cada dia que passa as pessoas vão vendo que serão enganadas nesse toma lá dá cá", completou Maia

Na quinta-feira (28), foi a vez de Baleia criticar a interferência de Bolsonaro. "Acho que a interferência excessiva do Executivo no Legislativo não é boa para o Parlamento, não é boa para o Brasil", disse. "Esta interferência apequena nosso Parlamento. Quero ser presidente da Câmara dos Deputados, de uma Câmara que não se vende por 30 moedas", completou o candidato

Bolsonaro admitiu a tentativa de influência na Câmara a apoiadores no Palácio Alvorado na última quarta-feira (27). "Viemos fazer uma reunião com 30 parlamentares do PSL e vamos, se Deus quiser, participar, influir na presidência da Câmara com esses parlamentares, de modo que possamos ter um relacionamento pacífico e produtivo para o nosso Brasil", afirmou o presidente

Lira, por sua vez, negou na última quinta-feira (28) a interferência do Planalto. "Não estou vendo nenhum deputado publicamente assumir que está tendo interferência", afirmou

"Na presidência da Câmara ninguém influi", disse o candidato.

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