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6 meses

'Nem médicos se entendem', diz Mourão sobre uso de cloroquina contra covid

Andréia Martins, Ana Carla Bermúdez, Gabriel Toueg e Letícia Lázaro

Do UOL, em São Paulo, e colaboração para o UOL

10/05/2021 10h25Atualizada em 10/05/2021 13h09

O vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) disse hoje que "nem os médicos se entendem" na questão sobre uso da cloroquina no tratamento de pacientes com covid-19.

"Essa é uma discussão em que nem os médicos se entendem. Óbvio que há diversas opiniões a esse respeito. Eu por exemplo tive covid, tomei a cloroquina e comigo funcionou. Com outras pessoas não funciona. Por isso ela não é de uma eficácia comprovada, mas ela tem um certo nível de eficácia", disse Mourão ao participar do UOL Entrevista, conduzido pela jornalista Fabíola Cidral, apresentadora do UOL, e pelos colunistas Carla Araújo e Josias de Souza.

Ainda segundo vice, "não dá para entrar numa discussão técnica" sobre o tema. "Leigo não deve entrar numa discussão técnica, essa é minha visão", completou.

O uso de medicamentos como cloroquina e ivermectina vem sendo defendido pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para pacientes com covid-19 desde o início da pandemia. Nenhum dos dois tem eficácia comprovada no tratamento por autoridades médicas. No final de semana, Bolsonaro afirmou que fará um vídeo com todos os ministros que tomaram cloroquina.

Na primeira semana de trabalho da CPI, o uso do medicamento contra covid-19 foi um dos temas mais abordados durante os depoimentos dos ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta, Nelson Teich e, do atual ministro da pasta, Marcelo Queiroga. Nenhum deles afirmou ter autorizado o uso do medicamento contra covid-19.

Mandetta e Teich relataram a pressão do chefe do Executivo para que o Ministério da Saúde defendesse o tratamento. Teich declarou que a divergência com o presidente sobre o assunto o levou a pedir demissão do cargo, por perceber que não teria autonomia na pasta. Já Queiroga evitou se comprometer com a defesa pública que o presidente faz da cloroquina.

Medicamento não recomendado

Um painel de especialistas internacionais da OMS (Organização Mundial da Saúde) confirmou que a hidroxicloroquina não deve ser usada para tratamento da covid-19. Os cientistas do Grupo de Desenvolvimento de Diretrizes do órgão analisaram os resultados de seis ensaios clínicos com mais de 6.000 participantes. Os resultados publicados pelo painel apontaram que o medicamento "não influencia a taxa de infecção e provavelmente aumenta o risco de efeitos adversos".

Em seu site, a Anvisa também admite que não há comprovação científica sobre o tratamento com cloroquina contra a covid-19 e afirma que não recomenda a utilização do medicamento em pacientes infectados ou mesmo como forma de prevenção à contaminação pelo novo coronavírus.

O Boletim de Farmacovigilância nº 14 da Anvisa, de janeiro de 2021, reúne diversos estudos que apontam riscos de efeitos adversos no uso da cloroquina e da hidroxicloroquina, especialmente quando somadas à ingestão da azitromicina, outro medicamento do "kit covid".

Mourão reconheceu que faltou uma ação coordenada do governo federal no combate à pandemia. "Faltou realmente [...] um discurso mais homogêneo, procurando tranquilizar e orientar a população", disse o vice-presidente. "O Brasil é um país muito desigual, desigual socialmente, economicamente, desigual regionalmente. É preciso que haja uma orientação, sobre formas simples de a população se proteger mais."

Ele disse ainda que o que chamou de "partidarização da doença" não foi "a melhor linha de ação", mas defendeu a atuação "em três frentes" do governo. Segundo ele, houve investimentos no SUS, "para que se aumentasse a capacidade hospitalar, principalmente leitos de UTI", distribuição de insumos e de pessoal, atuação na área econômica "no intuito de preservar os empregos formais" e "a questão social, com o auxílio emergencial".

O vice-presidente afirmou que o governo "é responsável por tudo o que acontece ou deixa de acontecer [na condução da pandemia]. Isso aí eu, que vim do Exército, sei: o comandante sempre é o responsável, jamais deixará de ser responsável".

Ele descartou, entretanto, que a CPI da Covid tenha como desfecho o impeachment de Bolsonaro. "Acho muito difícil que ocorra o impeachment do presidente Bolsonaro porque ele não cometeu crime de responsabilidade. São questões de interpretações sempre. Não existe uma pressão popular para isso". "Não estou aqui pra fazer uma campanha favorável a retirada dele", declarou.

Vacinas

Ao falar sobre as vacinas contra a covid-19, o vice-presidente disse que "o mundo inteiro está se debatendo com isso". "Acho que estamos sofrendo uma crítica talvez um pouco além daquilo que é a realidade", disse Mourão. "A União Europeia está com problemas, não consegue avançar numa velocidade de vacinação, tanto que hoje nós temos a notícia da ruptura do contrato com a AstraZeneca, porque ela não cumpriu os prazos."

Segundo o militar, "quem vacinou para valer mesmo são os Estados Unidos, donos da vacina". "Não julgo que o governo lavou as mãos nessa questão da vacina, ele buscou aquilo que se julgou importante naquele momento".

"A maior discussão que pode ser colocada em relação a essa questão da vacina é o termo dos contatos com a Pfizer", disse Mourão. "Desde agosto do ano passado se buscou negociar, e julgo eu que a gente poderia ter buscado isso antes."

Mesmo com a crítica, o vice disse acreditar que o país terminará 2021 com 160 milhões de brasileiros vacinados. "Naquilo que a gente espera, eu julgo plenamente [possível] que nós chegaremos ao final do ano com 150, 160 milhões de pessoas vacinadas aqui no Brasil, e consequentemente atingindo aqueles grupos todos que são prioritários e são necessários que sejam vacinados", afirmou.

CPI da Covid

Mourão comentou ainda o esperado depoimento do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello à CPI da Covid, adiado por ele ter supostamente tido contato com dois assessores contaminados. Segundo o vice-presidente, será o depoimento mais difícil.

"Esse depoimento dele será o mais difícil, é óbvio, ele tem que se preparar porque vão fazer um interrogatório bem duro em cima das ações que ele fez ou deixou de fazer", disse. "Ele terá que ter dados bem consistentes para apresentar."

Operação no Jacarezinho

Na semana passada, após operação policial na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, Mourão se referiu aos mortos como "tudo bandido". Hoje, ao falar do assunto, o vice-presidente manteve a narrativa. "Os dados que eu tenho [mostram] que a polícia se preparou para aquilo ali. No primeiro minuto um policial é abatido com um tiro na cabeça, que não é um tiro aleatório, é um tiro de um camarada que estava muito bem posicionado", afirmou.

"É uma situação complicada", avaliou. Para Mourão, a polícia "tinha duas linhas de ação ali: a partir do momento em que houve o enfrentamento, ou ela caía fora ou agia como polícia". O vice reconheceu, entretanto, que o combate ao crime organizado no Rio "não passa única e exclusivamente pela repressão". "Enquanto não encaramos a situação das favelas, colocar rua, esgoto, casa com número, escola decente, atendimento de saúde decente, estaremos nesse combate eterno", afirmou.

O estado brasileiro não pode permitir que áreas de uma cidade estejam dominadas por facções criminosas, sejam narcoguerrilhas ou milícias. Hamilton Mourão, vice-presidente da República

Aumento salarial

O vice-presidente comentou, ainda, uma portaria do Ministério da Economia que permite a reservistas e servidores públicos aposentados que exercem também determinados cargos públicos receber acima do teto constitucional. "É legal, mas eu não considero ético no momento que isso aconteça", disse o vice-presidente, que poderá ser beneficiado pela nova norma.

Mourão anunciou que poderá doar parte do valor do aumento para "uma instituição ou para meu partido", mas não detalhou valores. "Quando aparecer [na conta] eu vejo o que fazer", afirmou. Mesmo após descontos, o valor do salário do vice-presidente chegará a cerca de R$ 40 mil, acima do teto de R$ 39 mil.

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