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É fato que presidente prevaricou, diz Omar Aziz sobre caso Covaxin

Omar Aziz comentou ainda sobre as críticas feitas pelo presidente aos trabalhos da CPI - Jefferson Rudy/Agência Senado
Omar Aziz comentou ainda sobre as críticas feitas pelo presidente aos trabalhos da CPI Imagem: Jefferson Rudy/Agência Senado

Do UOL, em São Paulo

02/07/2021 18h55

"É fato" que o presidente Jair Bolsonaro cometeu prevaricação, acredita o presidente da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Covid, Omar Aziz (PSD-AM), sobre o caso da compra das vacinas da Covaxin. A afirmação do senador foi feita em uma entrevista ao Jornal O Globo.

Aziz foi perguntado pelas repórteres se havia indícios de prevaricação por parte do presidente no caso da denúncia de irregularidades na negociação de compra da vacina contra covid-19 Covaxin, ao que respondeu: "Isso não é indício. Isso é um fato. Ele não desmente".

Prevaricação é um crime cometido quando um funcionário público propositalmente atrasa, deixa de fazer ou faz algo indevido em benefício próprio.

O deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) afirmou em depoimento na CPI que informou Jair Bolsonaro em março sobre as irregularidades identificadas por seu irmão, Luis Ricardo Miranda, que é funcionário de carreira do Ministério da Saúde e atua na área de importações. Bolsonaro teria dito a ele que iria pedir que a Polícia Federal investigasse, no entanto, a PF aponta que nunca foi notificada sobre o caso.

Omar Aziz comentou ainda sobre as críticas feitas pelo presidente aos trabalhos da CPI. Bolsonaro chegou até mesmo a dizer que a comissão tem sete bandidos, em referência aos sete senadores que a compõem e não fazem parte da base aliada do governo.

Ele [Bolsonaro] precisa dar uma resposta para o eleitorado dele. E a resposta é desqualificar os membros da CPI", disse. E foi além: "O presidente está incomodado porque a CPI mostrou a ineficiência da administração dele. (...) Uma coisa que deixa o presidente com urticária é a gente mostrar que o governo dele é corrupto também (...) Ele fica louco. E ele não consegue debater... Ele vai debater com a ema? Não vai, né?".

O senador acredita que a comissão teve efeitos práticos na postura do governo, que tem adquirido mais doses de vacinas e evitado insistir em teses que não têm eficácia contra a doença, mas que foram defendidas exaustivamente desde o começo da pandemia.

Mesmo assim, Bolsonaro continua divulgando desinformação acerca da covid-19 e voltou a dizer recentemente, contrariando as evidências científicas, que é melhor contrair a doença e se curar do que se vacinar. "Não me peça para fazer uma análise sobre esse tipo de coisa, porque para mim o que não tem lógica a gente não perde o tempo. Então, eu não vou mais perder tempo com ele. O povo brasileiro todo sabe que isso não é verdade. Cada vez mais, ele fala pra menos gente", opinou Aziz.

Dominguetti foi usado, acredita Aziz

O presidente da CPI da Covid comentou ainda o depoimento de ontem de Luiz Paulo Dominguetti, policial militar que se apresentou como representante da Davati Medical Supply no Brasil e acusou representantes do governo federal de pedir um dólar de propina por dose de vacina em uma negociação para compra do imunizante da AstraZeneca.

Na sessão de ontem da CPI, Dominguetti reafirmou as acusações, que haviam sido feitas em reportagem da Folha de S.Paulo, e insinuou que o deputado Luis Miranda também pudesse estar envolvido no esquema de corrupção por causa de um áudio que mostrava Miranda negociando a compra de um produto. No entanto, o áudio, que não menciona a palavra "vacina" ou nada relacionado em nenhum momento, era do ano passado e sobre a compra de luvas, segundo Miranda.

Ao perceber a inconsistência da acusação, os senadores presentes na sessão da CPI questionaram Dominguetti e chegaram a pedir sua prisão, que foi negada por Aziz. A isso, soma-se a desconfiança sobre seu papel na negociação de vacinas, uma vez que a Davati não o reconhece como representante comercial.

Ele não mentiu. Ele foi usado. O Cristiano (Carvalho, representante da empresa americana Davati no Brasil) usou ele. Ele ganha um dinheirinho vendendo ali alguns medicamentos do representante da Davati no Brasil. Aí, surge uma oportunidade dessas...Como é que o governo senta com um cara desses para conversar sobre vacina sem nunca ter visto ele na vida? Um negócio incrível. Para você ver como é que o governo trabalha."

Ontem, o vice-presidente da comissão, Randolfe Rodrigues (Rede-AP) também comentou a situação e chamou o áudio de "Cavalo de Troia", afirmando que tratava-se de uma tentativa de desviar o foco da CPI que, segundo ele, encontrou um esquema "monstruoso" de corrupção.

Para Aziz, os senadores governistas que participam da comissão ainda tentam tirar o foco da CPI da Covid provocando confusões durante as sessões. "A estratégia é a gente perder a cabeça. Quanto mais bate boca, menos se investiga, se tira o foco. Tem dia que a gente aguenta, outros não. Eu respeito cada pensamento. É um direito que eles têm."

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.