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Internacional

Igreja Universal tirava ilegalmente US$ 120 milhões de Angola, dizem bispos

Fiéis durante culto da Igreja Universal de Angola - Reprodução/Facebook
Fiéis durante culto da Igreja Universal de Angola Imagem: Reprodução/Facebook

Gilberto Nascimento*

Colaboração para o UOL, em São Paulo

18/11/2021 04h00Atualizada em 18/11/2021 18h24

A Igreja Universal do Reino de Deus, liderada pelo bispo brasileiro Edir Macedo, levou ilegalmente de Angola para a África do Sul, a cada três meses, US$ 30 milhões, segundo denúncias de bispos angolanos às autoridades do país. Os valores somados chegam a US$ 120 milhões por ano.

O pastor e ex-diretor da TV Record África Fernando Henriques Teixeira foi apontado como o responsável por essa tarefa. A operação teria se repetido nos últimos 11 anos, desde quando o religioso brasileiro chegou ao país.

A denúncia foi feita à polícia angolana por bispos e pastores locais que se rebelaram contra a direção brasileira da Igreja Universal do Reino de Deus, no final de 2019. Eles confirmaram suas alegações ao UOL.

"A imagem para representar o que acontecia em Angola era a de um saco sem fundo: tudo o que entrava saía", diz o ex-pastor angolano Tavares Armando.

igreja universal angola - Arte UOL - Arte UOL
Imagem: Arte UOL

A assessoria de imprensa da Universal em Angola, em nota, desmentiu as acusações.

"É totalmente falsa esta questão. É totalmente sem fundamento. Isto é uma versão levantada por estes ex-pastores e pastores de dissidências com o objetivo de tomar a igreja. Eles criaram a sua versão a fim de tomar a igreja, uma vez que é um crime. Todas as ofertas da igreja são totalmente declaradas aqui para o Estado e a esta versão que os dissidentes levantaram é totalmente infundada".

Por sua vez, a Igreja Universal no Brasil afirma que a liberdade religiosa está em risco em Angola. Também procurada, a TV Record não respondeu aos questionamentos da reportagem.

Dólares escondidos em malas

Fernando Henriques Teixeira atuava nos últimos anos apenas como executivo da TV Record África nos últimos anos. Mas ele teria obtido o visto e a autorização para entrar e trabalhar em Angola como pastor, segundo os bispos angolanos ouvidos pela reportagem.

A maior parte do dinheiro ilegal seguia de carro para Johannesburgo, na África do Sul, via estradas da Namíbia, de acordo com os denunciantes. Os dólares estariam escondidos em malas, no forro dos veículos e até em pneus.

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Bandeira de Angola é exibida durante cerimônia da Igreja Universal do país
Imagem: Reprodução/Facebook

Teixeira partia de avião, na sequência, para a África do Sul. Instalava-se em um hotel. Depois, recolhia o dinheiro e o encaminhava para o líder da Universal no país, o bispo brasileiro Marcelo Pires, conforme os relatos.

Dali, o dinheiro seria levado a Portugal, muitas vezes pelo próprio bispo Edir Macedo, em seu jato particular, segundo as denúncias encaminhadas à polícia angolana. Macedo costumava viajar de Portugal à África do Sul, sempre após a realização da campanha da "Fogueira Santa", momento em que as arrecadações de oferta na Universal atingem o seu ápice.

Altas somas em dinheiro da igreja também seriam repassadas para a Record África, sediada em Luanda, e dali para a Europa ou o Brasil.

Fernando Henriques Teixeira virou réu em maio na Justiça de Angola por lavagem de dinheiro e associação criminosa, ao lado do poderoso bispo Honorilton Gonçalves, ex-vice-presidente da TV Record no Brasil e até o ano passado líder da Universal no país africano; do pastor brasileiro Valdir de Sousa dos Santos; e do bispo angolano Antônio Pedro Correia da Silva, ex-representante legal da igreja e da Record no país.

O julgamento do caso Igreja Universal do Reino de Deus está previsto para começar hoje em Luanda. Os advogados ainda tentam adiar o começo do julgamento.

A "Reforma" da Universal em Angola

O bispo João Bartolomeu —um dos membros mais atuantes na "Reforma", como passou a ser chamado o movimento desencadeado por 330 religiosos em Angola contra a direção brasileira da Universal— foi um dos responsáveis pelas denúncias contra Teixeira e os outros três membros da igreja.

Os angolanos divulgaram um manifesto acusando o comando da Universal de supostos crimes, entre eles lavagem de dinheiro, evasão de divisas e expatriação ilícita de capital, além de práticas de racismo, discriminação, abuso de autoridade, imposição de vasectomia aos pastores e intromissão na vida conjugal dos religiosos.

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Fiéis durante cerimônia relgiosa da Igreja Universal em Angola
Imagem: Reprodução/Facebook

Bartolomeu e seus colegas deram seus testemunhos e repassaram documentos que comprovariam as denúncias ao Serviço de Investigação Criminal (SIC), a polícia federal de Angola. Após investigações, as conclusões foram encaminhadas à Procuradoria Geral de Justiça local e daí para a Justiça.

O grupo de bispos e pastores da "Reforma" assumiu, em julho do ano passado, o controle de mais de 300 templos da Universal em Angola. Em abril deste ano, o bispo Edir Macedo viu a sua TV Record África ser retirada do ar no país e os pastores brasileiros contrários à nova liderança colocados em um avião e mandados de volta ao Brasil.

Lista de delitos

Além do envio de dinheiro em carros pelas estradas da África e das transferências para a Record, haveria ainda —de acordo com bispos e pastores angolanos—, uma lista imensa de supostos delitos a serem investigados: o superfaturamento de obras em contratos com construtoras portuguesas e brasileiras; a organização de caravanas para fiéis saírem do país carregando dinheiro; a simulação de ao menos um assalto (sem registro de ocorrência policial) para justificar a saída de US$ 5 milhões da contabilidade da igreja; e um "descaminho" (desvio) de US$ 20 milhões vindos de ofertas, depositados em uma conta do antigo banco português Espírito Santo (hoje Novo Banco).

"Fomos chamados para depor nos serviços de investigação na fase de instrução. E declaramos tudo o que devíamos declarar", disse Bartolomeu, bispo da Igreja Universal desde 2007 e um dos primeiros fiéis desde que a instituição chegou a Angola, em 1991. "E o dinheiro da igreja saía daqui de Angola desde sempre".

"Fizemos as denúncias para que as autoridades investigassem. No caso dos US$ 20 milhões, por exemplo, eles [dirigentes] abriram uma conta e desviaram esse valor da igreja para o banco. Acredito que a investigação tem mecanismos próprios no sentido de chegar à realidade dos fatos."

Os bispos e pastores denunciaram ainda à polícia que Teixeira estaria mantendo em seu poder, em casa —até pouco antes de ser denunciado—, ao menos US$ 60 mil em espécie, fruto de dízimos e ofertas. Os pastores Teixeira e Santos e os bispos Gonçalves e Silva estão prestes a ser julgados e podem ser presos. A Procuradoria-Geral da República informou existir "fortes indícios de crimes".

As provas colhidas foram consideradas "fartas e contundentes", e "nos levam à conclusão que, de fato, há branqueamento de capitais [lavagem de dinheiro] ou crimes conexos", afirmou o porta-voz do órgão, Álvaro João. "Quando você retira dinheiro de um Estado de forma não lícita, você já está a branquear e a violar a lei", diz.

"Para eles [a Procuradoria] afirmarem que há indícios graves de crimes é porque têm certeza. Eles citam apenas dois crimes, mas existem outros. Sobre muitos fatos, ouvíamos as orientações dadas pelos líderes. Existem as provas testemunhais, que são os pastores, e também provas documentais. A Procuradoria da República recolheu todas", disse Bartolomeu.

No final de agosto, a Justiça angolana iniciou a fase de instrução contraditória do processo-crime. Outras ações seguem na Justiça por supostas violações de direitos humanos, como racismo, coação e imposição de vasectomia a pastores.

O pastor e executivo da Record Fernando Teixeira teria sido o escolhido para coordenar o esquema de evasão de divisas no país, de acordo com Bartolomeu, porque um executivo à frente dessa missão "chamava menos a atenção". Teixeira se encarregava pessoalmente de "aparelhar" os carros que levariam o dinheiro para a África do Sul, segundo o bispo.

Essa operação de evasão do dinheiro era preparada nos escritórios da TV Record, segundo os ex-bispos angolanos.

"Os valores eram retirados da tesouraria da igreja e levado para a TV Record. Era mais fácil para um diretor da emissora fazer essas operações do que um pastor normal. O pastor tem uma visibilidade mais ampla no púlpito. Muita gente conhece o pastor. Mas não conhece os diretores da Record", disse.

Teixeira estava à frente da Record África desde 2010. Depois de ser denunciado à Justiça, ele teria, segundo informações espalhadas em redes sociais em Angola, "fugido" para Moçambique. A Procuradoria-Geral da República, no entanto, esclareceu que, ao menos por enquanto, não há impedimento para Teixeira e os outros acusados deixarem o país.

A relação entre a Igreja Universal e a TV Record África foi considerada "promíscua" pelos bispos angolanos, devido a alguns religiosos e executivos ocuparem, simultaneamente, cargos de direção nas duas instituições. Eram os casos, por exemplo, do bispo Antônio Pedro da Silva, acionista da Record e então presidente do conselho de direção da igreja, e da angolana Fatima dos Santos, acionista da emissora e tesoureira da igreja.

A exemplo de procedimentos já adotados no Brasil, a Universal de Edir Macedo comprava horários na TV Record África, também pertencente a Macedo, para transmitir seus cultos. Assim, em Angola, o bispo Silva e a tesoureira Fátima, dirigentes da igreja, autorizavam e liberavam pagamentos para uma empresa na qual eram acionistas, denunciaram os religiosos locais.

universal - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
Culto da Igreja Universal de Angola
Imagem: Reprodução/Facebook

"Havia tráfico de influência. Tudo leva a crer que as faturas que a Record emitia para a igreja eram superfaturadas", apontou João Bartolomeu. "Se for feito um levantamento profundo, vai se ver que o preço dos programas da Universal é muito elevado, caros. E são caros por quê?", questionou o bispo da Reforma.

"A Record era usada para fazer evasão de divisas. Esse procedimento pode ser enquadrado como enriquecimento ilícito. E isso também em Angola é crime. São recursos de uma instituição coletiva desviados para fins pessoais. A TV Record é patrimônio do bispo Macedo", acusou.

As peregrinações de fiéis seriam um outro recurso para possibilitar a evasão. Grupos de 100 e até 300 pessoas seguiam em caravanas ao Brasil, África do Sul, Moçambique e Israel, cada uma transportando US$ 15 mil (permitido por lei em viagens, para cidadãos angolanos), ou US$ 10 mil (no caso de estrangeiros). Esses limites em Angola, mais tarde, cairiam para US$ 10 mil (a angolanos) e US$ 5.000 (estrangeiros).

As caravanas eram formadas, quase sempre, por casais de pastores e fiéis.

"Existem várias maneiras de fazer sair o dinheiro. Dependendo das regras de limite em cada um, eles mandam viajar para vários países. Se precisassem levar US$ 200 mil para a África do Sul, cada fiel saía com US$ 15 mil. Imaginem 50 pastores e 50 esposas viajando cada um com US$ 15 mil", detalhou Bartolomeu. "Podia ser simulada uma caravana, uma conferência na África do Sul ou uma inauguração na catedral de Soweto, por exemplo".

Aviões fretados

Aviões de companhias aéreas israelenses eram fretados para voos diretos de Tel Aviv a Luanda, de volta para Tel Aviv e daí para Luanda novamente. "Na história da aviação em Angola, nunca vi um caso de alguém que tenha alugado avião de companhia israelense para fazer voos diretos como esses, salvo a Presidência da República.

Em Luanda, o avião carregou 200 e poucos peregrinos. Não foram todos que levaram dinheiro, mas principalmente os pastores e pessoas ligadas à igreja", contou Bartolomeu.

Na chegada desse voo em Israel, havia representantes da igreja aguardando os fiéis, segundo Bartolomeu. "Uma hipótese lá era o dinheiro ser entregue a brasileiros. E daí ser levado para o Brasil. Ou ir para a mão de uma pessoa já indicada para receber o dinheiro da África e de outros lugares do mundo. Em Israel, inicialmente, o dinheiro era depositado na conta da Igreja Universal, como se fosse de oferta dos fiéis que vieram na peregrinação. Assim, o dinheiro podia ser declarado em Israel. Era lavado."

O sucesso dessas caravanas teria sido um dos motivos a levar o bispo Edir Macedo a erguer em São Paulo, no bairro do Brás, o seu monumental Templo de Salomão, um centro religioso de 98 mil metros quadrados de área construída e capacidade para dez mil pessoas, a um custo total de R$ 680 milhões.

Os pedidos dos fiéis —que eram escritos em pedaços de papel que os pastores se comprometiam a levar ao Monte Sinai, o lugar sagrado em Israel, pois lá estariam mais perto de Deus— agora podem ser atendidos no Templo de Salomão, em São Paulo.

Na campanha, ao fazer o seu sacrifício espiritual e material, muitos chegam a doar o seu salário, o carro e até a própria casa, como prova inequívoca de sua fé. A ideia é que quanto mais doar, mais o fiel irá receber.

*Colaborou Saulo Pereira Guimarães, do Rio

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