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Com cutucadas em Lula e Bolsonaro, Moro treina tom político em evento em SP

Sergio Moro durante lançamento de livro em São Paulo - Lucas Borges Teixeira/UOL
Sergio Moro durante lançamento de livro em São Paulo Imagem: Lucas Borges Teixeira/UOL

Lucas Borges Teixeira

Do UOL, em São Paulo

07/12/2021 22h20

Microfone em riste, o ex-ministro Sergio Moro (Podemos) anda de um lado para o outro sobre o palco sem muita confiança. À frente, uma plateia lotada ouve suas piadas e comentários políticos. Ele dá sua visão sobre a história do país nos últimos anos, em um tom que cada vez mais se assemelha ao de um político profissional.

Ao longo das duas horas do evento de lançamento do livro "Contra o Sistema da Corrupção" no hotel Renaissance, em São Paulo, o ex-juiz e hoje presidenciável, que já negou que entraria para a política, focou o discurso na defesa de seu período à frente da Lava Jato, com indiretas ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e do Ministério da Justiça e Segurança Pública, com citações diretas ao presidente Jair Bolsonaro (PL), seu ex-chefe e atual desafeto.

Moro se filiou ao Podemos no mês passado e, pré-candidato assumido, tem como principal bandeira o combate à corrupção.

Lançamento de livro com contorno eleitoral

"Quando ele entrar, vamos gritar 'presidente!'", instruíam algumas pessoas à plateia enquanto as cadeiras iam enchendo. Alguns se denominavam "ativistas do Moro".

A entrada do autor, por volta das 19h10, foi animada. Foram 400 ingressos vendidos, segundo a assessoria, com poucos locais vagos. Havia dois pacotes disponíveis. Um garantia entrada, livro autografado e bloco de notas por R$ 95. Outro, só a entrada, por R$ 80. O livro avulso tem o preço sugerido de R$ 49,90 nas livrarias.

Este é o terceiro evento da chamada "turnê de lançamento" do livro, depois de Curitiba e Recife. O último será no Rio de Janeiro, na próxima quinta (9).

Moro negou que se tratasse de um evento eleitoreiro. "Não tem a ver com o outro projeto que eu acabei me envolvendo", disse, na abertura. Mas sua postura era de candidato.

Até o meio deste ano, o ex-juiz rechaçou por diversas vezes a possibilidade de entrar para a política. À medida que se consolida como pré-candidato, os modos vacilantes vão ficando, aos poucos, mais firmes, e ele se vê à vontade com uma plateia receptiva.

Como tem feito em outras exposições, Moro não respondeu perguntas da imprensa ou do público.

O mote anticorrupção. como de costume, dominou as falas. Este é o tema central do ex-magistrado, que chegou a sugerir a criação de uma corte nacional anticorrupção, caso seja eleito, algo considerado ilegal por juristas ouvidos pelo UOL.

Ao variar o assunto, disse ter voltado dos Estados Unidos, onde estava trabalhando para a iniciativa privada porque foi convocado. "Parece que os brasileiros estão indo em 2022 para um funeral, só falta escolher a cor do caixão. E as pessoas falavam: volta, volta", disse.

"Como ministro, nunca me vi como político porque é um cargo técnico. Tem um jogo político, mas não é partidário. Agora, eu não vou ficar falando que não sou político. Voltei principalmente por vocês."

Contra Lula e Bolsonaro

Durante todo momento, Moro defendeu seu legado anticorrupção e, sempre que pode, cutucou Lula e Bolsonaro, os dois candidatos mais bem posicionados na disputa ao Planalto em 2022.

"O pessoal fica reclamando dos ataques do presidente contra o Judiciário — com razão — e reclamando dos ataques do presidente à imprensa — com razão —, mas não lembra que na época do PT era a mesma coisa, mas os alvos eram outros", declarou Moro, que ironizou a condução coercitiva expedida contra Lula, alegando risco aos policiais.

"No fundo, ambos [Lula e Bolsonaro] são ruins, ambos são errados", disse.

Moro foi ministro de janeiro de 2019 a abril de 2020, quando saiu após acusar Bolsonaro de interferir na PF (Polícia Federal) durante a investigação dos esquemas da rachadinha envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seu filho mais velho.

"Se filho meu faz coisa errada, eu vou repreender ele", disse. "Se você contraria o governo, está fora do jogo ou é agente comunista."

Moro também teceu críticas a outras áreas do governo atual. "Eu via o Brasil com muita preocupação. Todo mundo perdeu alguém querido nessa pandemia e a gente foi vendo também uma crise da situação econômica. Preço alto, salário baixo e juros subindo", declarou.

No mesmo dia da prescrição do tríplex

No livro, Moro narra também bastidores e histórias da Lava Jato e do ministério, chamadas por ele não de "versões" mas de "fatos".
"É sua versão dos fatos? Não, são os fatos. Tem uma história, o que aconteceu. Esses são os fatos", disse o ex-ministro.

O evento ocorre no mesmo dia em que o MPF (Ministério Público Federal) reconheceu a prescrição do processo contra Lula no caso do tríplex do Guarujá (SP), em que o ex-presidente havia sido condenado por Moro.

A prescrição foi consentida pelo MPF com a argumentação de que o STF (Supremo Tribunal Federal) já havia anulado as condenações de Lula em abril desde ano, declarando Moro suspeito.

Questionado, ele lamentou a decisão. "Quando vê os tribunais anulando condenação por corrupção… Tem alguma coisa errada em um sistema que permite isso. E a Lava Jato permanece como prova de que o sistema pode funcionar", defendeu.

O evento acabou 21h20. Com pouco mais de 2 horas de duração, diversas pessoas já abandonavam o auditório durante as últimas respostas do ex-ministro.

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