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Documento revela treino do Exército para barrar ameaça 'marxista', diz site

Segundo documento obtido pelo Intercept Brasil, o Exército teria simulado a defesa de um país fictício ameaçado por organizações de esquerda - iStock
Segundo documento obtido pelo Intercept Brasil, o Exército teria simulado a defesa de um país fictício ameaçado por organizações de esquerda Imagem: iStock

Colaboração para o UOL, em Brasília

08/12/2021 11h44

Um documento obtido pelo site The Intercept Brasilmostra que o Exército, a maior Força Armada do país, realizou em 2020 um treinamento para ensinar a combater ameaças de esquerda, militantes e organização "marxista".

Segundo especialistas consultados pela publicação, o documento é verídico. Procurado pelo Intercept Brasil, o Exército preferiu não responder, mas também não colocou em dúvida a veracidade do texto que explica o treinamento.

Ameaças da esquerda em "Brasânia"

De acordo com documento obtido pelo Intercept, o treinamento foi proposto a alunos do CIOpEsp (Centro de Instrução de Operações Especiais) durante uma simulação de um país fictício chamado "Brasânia".

Na descrição da história da nação, é possível encontrar vários paralelos com a trajetória brasileira, passando pela Guerrilha do Araguaia, as chamadas "ameaças comunistas", popularizadas nas décadas de 1960 e 1970, e manifestações marcadas pelo uso de mídias sociais.

"O Exército de Libertação do Povo Brasaniano (ELPB)" foi "criado a partir de um projeto de partido político de caráter marxista e com uma organização armada clandestina, nascido de uma dissidência do Partido dos Operários e que recruta e treina militantes do MLT (Movimento de Luta pela Terra)", diz o documento.

O nome MLT é de uma organização real. "As cores do ELPB são defendidas em diversos tipos de protestos pelo país, logo o ELPB não é apenas um grupo criminal, mas um movimento que assume contornos de irregularidade com objetivos políticos", afirma.

Manifestações do ELPB

No exercício, a primeira frente do ELPB teria sido organizada em 2012, em um momento de grande insatisfação popular e "infiltrando elementos violentos em diversos protestos", causando "clima de desordem e ineficiência do aparato de segurança do estado".

Além disso, os grupos de Brasânia estariam usando mídias sociais e a Deep Web, um mecanismo de buscas fora do padrão, para compartilhar vídeos e fotos das manifestações. "Essa prática ficou conhecida como 'Mídia Samurai'", descreveria o documento, numa possível referência à Mídia Ninja, popularizada nos atos reais de 2013, movidos por insatisfação popular no governo de Dilma Rousseff (PT).

Exercício "ilegal"

Juliano Cortinhas, professor do Instituto de Relações Internacionais da UnB (Universidade de Brasília), falou ao Intercept Brasil que "uma operação como essa, de Forças Especiais, seria completamente ilegal".

Não haveria, segundo ele, nenhum respaldo legal ou constitucional para uma ação como a simulada no exercício: "Ele está desconectado de qualquer respeito ao estado de direito brasileiro."

Segundo Cortinhas, é comum entre os militares a ideia de que eles "são solucionadores de quaisquer problemas" do Brasil. No entanto, isso "gera situações como o que vivemos na atualidade, com militares da ativa e da reserva em todos os ambientes políticos e estratégicos do país", afirmou.

O UOL entrou em contato com a assessoria de imprensa do Exército e aguarda resposta.

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