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Lula perdeu eleitores onde jornalista flagrou suposta compra de votos em MS

Do UOL, em São Paulo

04/11/2022 12h01

Após ficar empatado com o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno em Coronel Sapucaia (MS), o presidente Jair Bolsonaro (PL) venceu na cidade no segundo turno, onde o jornalista Caco Barcellos, da TV Globo, flagrou suposta compra de votos. A ação ocorreu a menos de 48 horas do pleito e será investigada pela Procuradoria Regional Eleitoral.

No primeiro turno, Lula e Bolsonaro tiveram o mesmo número de votos no município: 4.254. No segundo turno, Bolsonaro ficou à frente, com 4.530 votos, e Lula teve 4.090. Ou seja, enquanto Bolsonaro obteve mais votos, Lula encolheu.

O que mostrou o jornalista? Reportagem exibida no programa Profissão Repórter na terça-feira (1) mostrou Barcellos indo até o centro cultural de Coronel Sapucaia, onde havia uma reunião de moradores beneficiários do Auxílio Brasil. Quando a reportagem chega ao local, nenhum dos presentes quer falar com o jornalista —os poucos que aceitam dar entrevista desconversam sobre o motivo do encontro.

Questionada por Barcellos se a reunião tem ligação com a eleição, uma mulher que se identifica como assessora diz que "tem a ver de demonstrar o que o presidente e o governador estão fazendo pelas pessoas".

Poucos minutos após a equipe de TV entrar no centro cultural, a reunião é encerrada abruptamente e um homem tenta impedir que Barcellos converse com os presentes.

Uma mulher que mora perto do local onde ocorreu o encontro relata que as reuniões começaram na semana do segundo turno e que, no encerramento, o prefeito da cidade, Rudi Paetzold, dá R$ 50 a cada um.

O jornalista procurou o prefeito pessoalmente, mas ele não falou sobre o assunto. Paetzold alega que não estava na cidade e é levado para longe do jornalista por uma assessora.

'Votar no 22'. Uma entrevistada que participou da reunião diz que os moradores foram orientados a "votar no 22", número usado por Bolsonaro nas urnas.

Eles sinceramente falaram sobre o Auxílio Brasil, porém a parte foi só sobre política. (...) que teria que votar no 22 porque senão no caso não teria mais verba para vir para cá, né? Aí pararia com tudo, pararia de fazer asfalto, as escolas. Você chega lá e se você está precisando? vamos supor você precisa para sobreviver o auxílio e o vale renda, você muda seu voto na hora com medo de perder o benefício

Ela também relatou que foi pedido para que escrevesse seus dados em um papel — nome, número do documento, celular. "Para mim aquilo foi uma pressão sobre as pessoas." A mulher também afirma que a ação é promoção do prefeito.

Ameaça. Horas depois, o jornalista recebeu uma ligação de uma pessoa da cidade dizendo ser perigoso continuar a reportagem na região. "Fiquei preocupado, extremamente preocupado. Eu sugiro terminar a pauta o quanto antes. Se você continuar aqui na cidade, trabalhando, é o teu trabalho, é assim, sua conta e risco. Eu conheço bem aqui a cidade. É complicado", diz o homem.

O que dizem as autoridades sobre o caso de Coronel Sapucaia? Em nota, a Procuradoria Regional Eleitoral informou estar "ciente da situação e instaurará procedimento investigatório. Foi solicitado apoio da promotoria eleitoral responsável por Coronel Sapucaia para instruir o feito".

O que é assédio eleitoral? "O assédio eleitoral é uma prática proibida em que uma pessoa constrange ou coage uma outra para manipular o voto. Pode ser uma promessa de benefício financeiro para que a pessoa vote de acordo com o assediador. Não é uma conversa, um diálogo, mas uma imposição ou promessa de benefício ao funcionário", explicou o chefe do MPT (Ministério Público do Trabalho), o procurador-geral José de Lima Ramos Pereira, em entrevista ao UOL Notícias.

A Constituição Brasileira, em seu artigo 14, determina que "a soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos".

Segundo o Artigo 300 do Código Eleitoral (Lei nº 4.737, de 1965), é crime o servidor público valer-se de sua autoridade para coagir alguém a votar ou não votar em determinado candidato ou partido. A pena é de até seis meses de detenção, mais multa. Da mesma forma, é crime usar de violência ou ameaçar alguém, coagindo-o a votar em determinado candidato.