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6 perguntas sobre o avanço da febre amarela e a vacinação contra a doença

Folhapress
Imagem: Folhapress

Camilla Costa

Da BBC Brasil, em São Paulo

09/01/2018 18h59

O avanço da febre amarela silvestre (transmitida em áreas de mata) no país volta a assustar a população e as autoridades, depois que o Brasil viveu o maior surto já registrado da doença. Nesta terça-feira, o Ministério da Saúde anunciou uma nova campanha de vacinação como medida emergencial, para evitar a expansão da doença em locais que até então não tinham recomendação para a imunização.

Cerca de 19,7 milhões de pessoas deverão ser vacinadas contra a doença a partir de fevereiro em São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. O anúncio, no entanto, traz uma novidade: a vacina será fracionada em alguns municípios, para garantir que uma quantidade maior de pessoas seja imunizada.

"Fracionaremos a vacina para garantir cobertura rápida em curto período de tempo", disse o ministro da Saúde, Ricardo Barros. "Não sabemos a extensão do que vai acontecer com febre amarela neste ano e, por precaução, estamos regulando nosso estoque para eventual necessidade. Se surgirem outros focos em outros Estados, teremos condições de cobrir".

Na prática, isso significa que nem todas as pessoas vacinadas poderão ficar o resto da vida sem se vacinar novamente - atualmente, o Brasil segue a recomendação da OMS de apenas uma dose da imunização completa.

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Entenda as mudanças na vacinação e a situação da febre amarela no país:

1. Ainda há surto da doença no Brasil?

O Ministério da Saúde considera que o surto de febre amarela que atingiu o Brasil em 2017 - o maior com número de casos em humanos desde 1980 - acabou no último mês de julho.

De dezembro de 2016 a junho do ano passado, foram confirmados 777 casos e 261 mortes pela doença no país. Em agosto, o governo federal deu o surto como encerrado.

Desde então, 11 novos casos foram confirmados - oito em São Paulo, um em Minas Gerais, um no Rio de Janeiro e um no Distrito Federal. Quatro pessoas morreram e outros 92 casos estão em investigação. Também foram confirmados 358 epizootias (casos em animais).

Desde outubro, 26 parques municipais e estaduais foram fechados nas zonas norte, sul e oeste da capital e na Grande São Paulo por causa do alto índice de mortes de macacos infectados pelo vírus.

O governo paulista considera que ainda não há situação de surto na capital - a maior cidade do país - já que não há casos autóctones em humanos, mas apenas casos importados, ou seja, de pessoas que contraíram o vírus em outros municípios ou Estados.

2. A febre amarela chegou às áreas urbanas?

A febre amarela silvestre, que ocorre em áreas rurais, transmitida pelos mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes, é a variedade que ainda provoca surtos no Brasil. O país não registra casos de febre amarela urbana, transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, desde 1942.

Mas a volta do vírus para as grandes metrópoles é a principal preocupação para os especialistas e para o governo, segundo o pediatra e especialista em vacinas Juarez Cunha, um dos diretores da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

"Estamos muito suscetíveis a doenças transmitidas por mosquitos, ainda não sabemos se por causa da mudança climática, do avanço das cidades. E se temos muita dificuldade de controlar essas doenças na área urbana, como dengue, chikungunya e zika, imagine na área rural", disse à BBC Brasil.

3. Macacos transmitem febre amarela?

Os macacos não transmitem o vírus diretamente - eles apenas são o principal hospedeiro no ciclo da febre amarela silvestre.

O contágio só acontece se um mosquito picar o macaco infectado e, na sequência, picar uma pessoa.

Por isso, as mortes de primatas em áreas rurais e parques são o principal alerta para os agentes de saúde de que o vírus pode estar se espalhando com mais rapidez e de que a população pode estar em risco.

4. O que mudou na vacinação?

Nesta terça-feira, o Ministério da Saúde afirmou que entre fevereiro e março deste ano, 75 municípios dos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia terão campanhas de vacinação com doses-padrão e doses fracionadas contra a febre amarela.

De acordo com Juarez Cunha, da SBIm, a vacina continua sendo exatamente a mesma - um soro que utiliza o vírus atenuado para fazer com que o organismo crie anticorpos contra ele.

A diferença é que a dose fracionada contém 0,1 mL do soro, o que representa um quinto da dose padrão. Quem receber esse tipo de vacina fica imunizado por menos tempo - pelo menos oito anos, segundo estudo realizado pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Biomanguinhos/Fiocruz).

Já quem recebe a dose padrão fica imunizado pela vida inteira, e só precisa ser vacinado uma única vez.

A frequência da imunização ainda causa confusão entre os brasileiros porque o país alterou recentemente o seu protocolo contra a febre amarela, por causa do surto de 2017.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda, desde 2014, apenas uma dose da vacina. Somente em abril de 2017, no entanto, o governo brasileiro decidiu adotar a norma. Até então, o protocolo brasileiro recomendava duas doses, com intervalo de 10 anos, para a proteção contra a doença.

Estudos científicos utilizados como base pela OMS demonstraram que apenas uma dose é suficiente para que o organismo continue tendo anticorpos para o resto da vida. No entanto, o Brasil manteve a segunda dose como reforço da primeira, já que é um país onde a doença é endêmica.

"Qualquer vacina que a gente faça pode ter uma falha primária - ou seja, uma resposta individual em cerca de 2% das pessoas em quem a vacina não funciona. Então se mantinha uma segunda dose para diminuir ainda mais os pouquíssimos casos de falha primária. O Brasil fazia isso justamente por ter passado por vários surtos de febre amarela. Não podíamos correr riscos", explica.

O surto de 2017 atingiu Estados onde a vacinação não era obrigatória, como o Espírito Santo e o Rio de Janeiro, e fez com que o Brasil precisasse utilizar parte do estoque estratégico de vacinas da OMS, por não ter o suficiente para ampliar a vacinação imediatamente.

Agora, vale a seguinte regra, segundo o ministério: quem já recebeu a dose padrão da vacina uma vez não precisará recebê-la novamente.

Mas quem receber a dose fracionada - que só será administrada durante 15 dias em alguns municípios de SP, RJ e BA - terá um selo diferente em sua carteira de vacinação e precisará renovar a vacina em alguns anos, um período a ser determinado pelos estudos em andamento.

5. Por que o Ministério da Saúde decidiu fracionar a vacina?

A estratégia de fracionamento da vacina já foi utilizada em Angola e no Congo durante um surto de febre amarela silvestre em 2016. De acordo com o Ministério da Saúde, ela é recomendada pela OMS "quando há casos de febre amarela silvestre de forma intensa, com risco de expansão da doença em cidades com elevado índice populacional e que não tinham recomendação para vacinação anteriormente".

Em entrevista coletiva nesta terça-feira, a coordenadora do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde, Carla Domingues, disse que o objetivo é evitar que o surto de 2017 se repita.

"Para evitar que isso aconteça, estamos antecipando essa vacinação porque o vírus entrou em uma área com elevada densidade populacional", afirmou.

As notícias do surto recente e o pânico da população causaram uma explosão na demanda pela vacina. Especialmente porque muitas pessoas não têm comprovação de que já haviam sido imunizadas, segundo Juarez Cunha.

"Muita gente não tem mais o comprovante. Então quando há óbito em região com baixa cobertura vacinal, todo mundo resolve procurar vacina ao mesmo tempo e aí não tem vacina disponível para atender a demanda."

Ao longo dos anos, o mapa das regiões recomendadas de vacinação no Brasil foi se ampliando. Em 1997, segundo dados do ministério, a maior parte dos Estados do Nordeste, do Sudeste e do Sul ainda era considerada "indene", ou seja, não afetada pelo vírus.

Em 2017, toda a região Sul e quase todo o Sudeste têm recomendação permanente de vacinação, além de partes dos Estados da Bahia e do Piauí. Desde o último surto, o Espírito Santo tornou-se área de recomendação temporária.

Atualmente, a vacinação para febre amarela é recomendada e oferecida em 21 Estados: Acre, Amazonas, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins, Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Bahia, Maranhão, Piauí, Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

6. Quem deve se vacinar?

A dose fracionada da vacina de febre amarela é recomendada apenas para pessoas a partir dos dois anos de idade.

Segundo o ministério, crianças com idade entre 9 meses e dois anos, pessoas com condições clínicas especiais (que têm HIV/Aids, que estão em fase final do tratamento de quimioterapia, entre outras, mas só após a avaliação dos serviços de saúde), gestantes e viajantes para outros países deverão receber a dose padrão da imunização.

Normalmente, a dose padrão é indicada para crianças a partir de 9 meses de idade (ou 6 meses em áreas de risco) e para adultos não vacinados.

A vacina é contraindicada para pacientes em tratamento de câncer, pessoas com imunossupressão e pessoas com reação alérgica grave à proteína do ovo.

Segundo a pasta, 19,7 milhões de pessoas em São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro deverão ser vacinadas na campanha - 15 milhões com a dose fracionada e outras 4,7 milhões com a dose padrão.

Em São Paulo, ela será aplicada em 52 municípios, no Rio, em 15 e na Bahia, em oito. Saiba aqui se o seu município é um deles: http://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2018/janeiro/09/09.01.2017.Campanha%20Fracionamento%20Febre%20Amarela.pdf.

A febre amarela causa sintomas como dor de cabeça, febre baixa, fraqueza e vômitos, dores musculares e nas articulações. Em sua fase mais grave, pode causar inflamação no fígado e nos rins, sangramentos na pele e levar à morte.

Para evitar a doença, o ministério recomenda usar repelente em crianças a partir de 2 meses de idade, evitar usar perfume em áreas de mata e, caso seja necessário viajar a áreas com registros da doença, tomar a vacina pelo menos dez dias antes da viagem.