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Caso de bebê que teve "cura funcional" da Aids é muito difícil de ser replicado em adultos

Do UOL

Em São Paulo

04/03/2013 13h00Atualizada em 04/03/2013 13h53

Uma equipe de virologistas dos Estados Unidos anunciou neste domingo (3) o primeiro caso de cura funcional da Aids, envolvendo uma criança que nasceu com o HIV transmitido pela mãe. A pergunta que se faz agora é se esse caso abre caminho para a cura da Aids em adultos. Infelizmente, as respostas não são muito animadoras.

Em primeiro lugar, ainda é cedo para tirar conclusões sobre a eficácia do tratamento usado. "Ainda não se sabe se foi o coquetel que funcionou, se o sistema de defesa do bebê funcionava tão bem, ou se o vírus que a contaminou era menos agressivo", comenta Esper Kallás, médico imunologista e infectologista da Disciplina de Imunologia Clínica e Alergia da USP e do Hospital Sírio Libanês. Além disso, ele ressalta que o estudo sobre o caso ainda não foi publicado.

Outra questão é que, com adultos, é muito difícil agir tão cedo. No caso anunciado, a criança recebeu antirretrovirais menos de 30 horas após o parto, momento em que um bebê pode se contaminar se a mãe for soropositiva. Mas, na maioria dos casos, as pessoas levam meses ou anos até descobrirem que estão contaminadas. 

Também é preciso levar em conta que o sistema imunológico de bebês é diferente, por estar em formação. O leite materno também oferece uma proteção extra nessa fase.

Por último, ainda existe a chance de que a criança em questão seja uma privilegiada. "Cerca de 1% das pessoas são o que chamamos de 'controladores de elite', cujo sistema imunológico impede a reprodução do HIV", aponta Kallás. "Ainda não sabemos ao certo o que essas pessoas têm de especial e se isso poderá, um dia, ser replicado em outros pacientes."

Médicos pedem cautela

"Se esse resultado for confirmado, vai ser realmente uma coisa incrível. Mas ainda é cedo para tirar qualquer conclusão. Só o tempo é que vai dizer, com essa criança vai reagir, se ela vai ficar indefinidamente sem manifestação laboratorial e clínica do HIV", avalia o infectologista Caio Rosenthal, do Hospital Emílio Ribas.

No Brasil, o Ministério da Saúde garante o tratamento de mulheres com HIV durante o pré-Natal, o que reduz para menos de 1% a chance de transmissão para o bebê.

A abordagem adotada nos EUA pode ser extremamente útil, no entanto, em países em que o acesso aos medicamentos é limitado, e nem todas as gestantes recebem tratamento.

Linhas de pesquisa

Especialistas hoje são mais otimistas em relação à cura da Aids. “Não podemos mais dizer que isso é impossível”, comenta John Frater, médico da Universidade de Oxford.

Ele explica que, depois que o HIV infecta uma pessoa, ele se espalha rapidamente e, então, esconde-se no DNA. É por isso que é tão difícil combatê-lo. Algumas drogas contra o câncer usadas experimentalmente já se mostraram capazes de tornar o vírus mais vulnerável e, então, permitir o ataque de uma vacina. No entanto, Frater explica que tanto o remédio quanto a suposta vacina ainda vão levar tempo para serem desenvolvidos.

Outra linha de tratamento envolve a mutação que torna algumas pessoas resistentes à infecção, como cita Kallás.

Cura “funcional”

  • AFP/Brendan Smialowski

    O americano Timothy Brown, o único homem do mundo que deixou de ter o HIV, após transplante de medula óssea. Em palestra no ano passado, ele anunciou uma fundação com o seu nome, cujo objetivo é estimular esforços para a cura da Aids

A única cura completa de pessoa contaminada com o vírus HIV é a do norte-americano Timothy Brown. Ele foi declarado oficialmente curado depois de receber o transplante de medula óssea de um doador que tinha uma mutação genética rara, que impedia o vírus de penetrar nas células.

O transplante foi concebido para tratar a leucemia - o tratamento envolve riscos, por isso não pode ser considerado para qualquer paciente. "Cerca de 10% dos pacientes submetidos ao transplante morrem", explica Kallás. Por isso, cientistas do mundo inteiro têm tentado reproduzir o que aconteceu de outras maneiras.

No caso anunciado neste domingo (4), não se trata de uma erradicação do vírus, mas de uma presença tão débil que o sistema imunitário do organismo pode controlá-lo sem qualquer tratamento antirretroviral, explicaram os pesquisadores.

O bebê foi tratado com antirretrovirais até seus 18 meses de idade, quando o tratamento foi suspenso. Dez meses depois, os exames não detectaram qualquer presença do HIV no sangue. "Apenas testes mais sofisticados são capazes de detectá-lo", diz o professor da USP.

A criança ainda precisa ser acompanhada por mais tempo para que os cientistas tenham certeza de que a situação se manterá.

(Com agências internacionais)

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