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Entenda por que algumas doenças afetam bem mais mulheres que homens

Chris Bueno

Do UOL, em São Paulo

08/03/2014 07h00

Elas vivem mais tempo, adoecem menos e lidam melhor com a dor. Realmente, o estereótipo de sexo frágil para as mulheres está mais do que ultrapassado. Mas isso não significa que elas não devam ter cuidado: existe uma série de doenças que afetam mais as mulheres, ou que são exclusivamente femininas, e que merecem atenção especial.

No mundo todo as mulheres têm uma vida mais longa do que os homens: cerca de sete anos a mais. As explicações para isso são várias, mas a principal é que elas se cuidam mais do que eles e buscam mais os serviços de saúde.

As mulheres também possuem um sistema imunológico mais forte, o que faz com que adoeçam menos do que os homens. Cientistas da Universidade de Gante, na Bélgica, apontaram que isso se deve ao fato de as mulheres terem dois cromossomos X (que contém 10% de todos os microARNs do genoma, partículas responsáveis por importantes funções no sistema imunológico e por proteger o corpo contra cânceres).

E, além disso, elas lidam melhor com a dor. Porém, mesmo se expressando mais em relação à dor e buscando mais ajuda para superá-la, as mulheres geralmente continuam realizando suas tarefas rotineiras com mais naturalidade que os homens.

“Como as mulheres acumulam múltiplas tarefas, entre o trabalho fora e as obrigações com a casa e família, elas seguem suas atividades e responsabilidades com mais naturalidade que os homens, que costumam se esmorecer mais frente aos processos dolorosos”, aponta o neurocirurgião funcional especialista em dor Cláudio Fernandes Corrêa, coordenador do Centro de Dor e Neurocirurgia Funcional do Hospital 9 de Julho.

Na mira

No entanto, existem várias doenças que são muito mais frequentes entre as mulheres do que no sexo masculino. Uma delas é a fibromialgia, que afeta sete mulheres para cada homem. Trata-se de uma síndrome que causa dores por todo o corpo por longos períodos, além de sensibilidade nas articulações, nos músculos, nos tendões e em outros tecidos moles.

Outra doença bem mais frequente entre as mulheres é o câncer de mama. Apesar de muita gente achar que essa doença é exclusivamente feminina, ela acomete também os homens – só que em proporção esmagadoramente menor: apenas 1% dos casos. O câncer de mama é o segundo tipo mais frequente no mundo e o mais comum entre as mulheres, respondendo por 22% dos novos casos a cada ano, de acordo com o Inca (Instituto Nacional de Câncer).

“Infelizmente houve um grande aumento na incidência, por isso que a prevenção é o melhor remédio, pois diagnosticado no início, tem 90% de chance de cura”, alerta a ginecologista e obstetra Daniela Gouveia, diretora médica da Clínica Vivid – Saúde e Bem Estar.

A enxaqueca não poderia ficar de fora desta lista: ela afeta três mulheres para cada homem. Diferente da dor de cabeça, a enxaqueca costuma ser latejante e vem acompanhada por náusea, vômito e sensibilidade à luz.

Outra doença tipicamente feminina que pode afetar homens, mas em uma escala bem menor, é a cardiomiopatia de Takotsubo, também conhecida como síndrome do coração partido – doença rara que acomete principalmente mulheres na meia idade.  Ela acontece depois que o paciente sofre uma forte emoção, que pode ser positiva ou negativa – geralmente uma situação de estresse emocional forte.

Os sintomas são os mesmo do infarto: dor no peito,  queda de pressão  e até desmaio. O coração pode mesmo chegar a parar, mas volta ao normal. O que dá a chave para o diagnóstico é que a ventriculografia mostra o coração com a ponta dilatada e inativa enquanto o restante continua se contraindo normalmente, provocando a impressão de "coração partido".

Combate interno

Ter um sistema imunológico mais forte, por incrível que pareça, também tem algumas desvantagens. Artigos científicos recentes apontam que os mesmos mecanismos que garantem que as mulheres fiquem doentes com menos frequência são os causadores da suscetibilidade às doenças autoimunes, aquelas que em que o sistema imunológico afeta o organismo do próprio paciente.

Nas mulheres, as mais comuns são a artrite reumatoide, o lúpus eritematoso e a esclerose múltipla. A primeira é caracterizada pela inflamação das articulações, podendo levar à incapacitação funcional, e acomete quatro mulheres para cada homem, de acordo com a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR).

Já o lúpus eritematoso ataca as próprias células e tecidos do corpo, podendo acarretar problemas musculares, renais, cardíacos, sanguíneos e dermatológicos, e afeta nove mulheres para cada homem, segundo a SBR. E a esclerose múltipla afeta o sistema nervoso devido à destruição das bainhas de mielina, que fazem parte da célula nervosa, provocando dificuldades motoras e sensitivas, e atinge quatro vezes mais as mulheres, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Mas não são só fatores biológicos que favorecem a predominância dessas doenças entre o público feminino. Fatores externos, como o estresse, também contribuem para a deterioração da saúde e para a exposição a doenças. A correria do dia a dia, a vida atribulada e a jornada dupla  -  às vezes tripla - de muitas mulheres faz com que elas tenham uma sobrecarga maior e acabem se descuidando.

“Desde que as mulheres iniciaram as múltiplas jornadas, o alcoolismo, a ansiedade, a depressão, as incidências de câncer, os problemas cardíacos, entre outras doenças, vêm sendo diagnosticados cada vez mais frequentemente entre elas. Podemos comparar, atualmente, a vida da mulher com um carro que fica 24 horas ligado: ou seja, vai parar de funcionar precocemente, sim”, explica a psicóloga Adriana de Castro Ruocco Sartori, do Espaço Agir - Psicologia e Bem Estar.

Doença de mulher

As doenças do sistema reprodutor feminino são outra ameaça constante na vida da mulher. Entre as mais comuns estão a vulvovaginite (inflamação ou infecção da vulva e vagina), a síndrome dos ovários policísticos (presença de pequenos cistos nos ovários), a fibrose uterina ou mioma uterino (pequenos tumores benignos no útero) e a endometriose (presença de células do endométrio - camada interna do útero que é expelida durante a menstruação – fora da cavidade uterina, desencadeando um processo inflamatório).

Como a endometriose ainda é tida como uma doença misteriosa e muitas mulheres nem sabem que têm este problema, foi criado, em 2009, o Gapendi (Grupo de Apoio às Portadoras de Endometriose e Infertilidade) com o objetivo de ajudar outras mulheres a descobrirem mais sobre esse mal. Além do Blog Eu Tenho Endometriose, há dois grupos no Facebook que contam com mais de 7 mil membros e uma fan page, Endometriose Online.

DSTs

O órgão feminino também é o responsável pelas mulheres serem mais suscetíveis às doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). “A mucosa vaginal é um epitélio muito fino. Durante as relações sexuais, praticamente sempre há algum grau de fissura da mucosa, o que facilita a entrada de diversos vírus. Além disso, o epitélio vaginal e do colo uterino ficam ‘escondidos’, ou seja, só há acesso a eles durante o exame ginecológico, e qualquer lesão escondida fica mais fácil de progredir”, explica a ginecologista Alessandra Bedin, do Hospital Israelita Albert Einstein. Por isso as mulheres devem ficar mais atentas às DSTs, especialmente ao HIV e ao HPV.  

A atenção especial ao público feminino no caso do HPV é que, nas mulheres, as lesões causadas pelo vírus podem espalhar-se por todo o trato genital e alcançar o colo do útero, podendo causar câncer. E o câncer de colo do útero é o terceiro tipo de câncer mais comum entre as mulheres, sendo responsável pelo óbito de 275 mil mulheres por ano, de acordo com o Inca.

“Os homens também têm infecção, mas pelas características da pele do pênis as lesões são menores e com menor potencial de gravidade. Portanto, a prevalência é igual nos dois sexos. Mas o local principal e potencialmente de maior risco é o colo uterino”, aponta o ginecologista Fabio Laginha, coordenador da Clínica da Mulher do Hospital 9 de Julho.

Para evitar problemas causados pelas DSTs, o principal é se prevenir. E para se prevenir, a melhor atitude é usar proteção. “Usar sempre camisinha, do começo ao fim da relação sexual, e também fazer exames periodicamente”, alerta Bedin.

Aspectos psicológicos

As mulheres também estão mais suscetíveis a alguns transtornos mentais - ansiedade e depressão são mais comuns entre elas. “Isso acontece devido a fatores biológicos (genéticos, hormonais); psicológicos (maneira de se enfrentar as situações que tenham impacto negativo na vida); e psicossociais (jornadas duplas de trabalho, incluindo cuidado dos filhos e da casa, e competitividade do mercado de trabalho)”, explica a psicóloga Ana Merzel Kernkraut, coordenadora do serviço de Psicologia do Hospital Israelita Albert Einstein.

Mas essas podem não ser as únicas razões para que a ansiedade e a depressão afetem mais as mulheres. A prevalência entre elas também pode decorrer do simples fato de que elas buscam mais assistência médica do que os homens. “Não podemos dizer que alguns transtornos são mais prevalentes em mulheres. O que sabemos é que mais mulheres do que homens buscam tratamento”, afirma Sartori.

Por outro lado, existem transtornos mentais tipicamente femininos. Este é o caso da síndrome do ninho vazio.  Ela acontece quando os filhos saem de casa e a mulher perde o objeto de seu cuidado, gerando tristeza e solidão. “As mulheres então se sentem sós, com sensação de inutilidade, perdem a vontade de fazer coisas que antes eram prazerosas, ficam mais ranzinzas e passam mais tempo no sofá, principalmente aquelas cuja vida foi dedicada exclusivamente à criação das crianças”, aponta Sartori.