Cálcio em cérebros de microcéfalos se aloja em cicatriz e é denso como osso

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

  • AP Photo/Felipe Dana

A neurorradiologista Fátima Aragão coordenou um estudo que avaliou exames de imagens em 23 crianças com microcefalia associadas ao vírus do zika em Pernambuco. O principal achado do estudo, publicado no British Medical Journal, é a presença de cicatrizes no cérebro, onde se aloja indevidamente cálcio. Isso ocorre em uma parte periférica do cérebro --algo que nunca foi predominante em outros tipos de microcefalia-- e são indicadores de lesão grave no cérebro.

Quando a gente faz uma tomografia, vê os pontinhos brancos como se fosse osso, na mesma densidade, porque tem cálcio. Essas cicatrizes são consequência da ação do vírus."

Ao lado de um grupo de médicos, que também assinam o artigo, Aragão teve como referência bebês que nasceram em Pernambuco entre julho e dezembro de 2015 e são atendidos pela AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente) no Recife.

Para ela, ainda é cedo para decretar problemas de desenvolvimento nesses pacientes, mas a análise mostrou que 70% dos casos têm lesões graves no cérebro.

Leia os principais trechos da entrevista:

UOL - O estudo fala em cicatrizes que se forma no cérebro. Como elas surgiriam?

Fátima Aragão - O que a gente imagina é que o vírus da zika vai e destrói células e formam a cicatriz. E nessas cicatrizes o cálcio é depositado por conta da cicatriz, que é antiga. Quando a gente faz uma tomografia, vê os pontinhos brancos como se fosse osso, na mesma densidade, porque tem cálcio. Essas cicatrizes são consequência da ação do vírus, e podem também ser a causa das más-formações, é tudo junto. Não se sabe, é tudo muito novo para ciência e para medicina. O fator causal que a gente está associando o lesou o cérebro de tal forma que formou a calcificações que impediu o cérebro de desenvolver.

UOL - O que foi achado de mais relevante no estudo?

Detectamos calcificações em 100% das crianças, e elas estavam localizadas na junção entre o córtex e a substância branca subcortical. O córtex fica na superfície do cérebro, é uma camada cinzenta, fininha, e logo abaixo tem uma substância branca maior. Ou seja, a calcificação fica quase na periferia do cérebro. 

UOL - Essas calcificações causam problemas graves?

Não é bom ter calcificação no cérebro; é um indicador de uma lesão grave no cérebro, e pode ser a causa da malformação. As calcificações são indicadores de que, provavelmente, muitas dessas crianças vão ter retardo.

UOL - Elas são a marca desses bebês com problemas associados ao vírus da zika?

Todos apresentaram malformação do córtex na ressonância --que dá mais detalhes que a tomografia. Eram um córtex espeçado na parte da frente do cérebro. Além disso, tem um corpo caloso --que é um feixe de fibras que conecta o hemisfério direito com o esquerdo do cérebro-- e pouco bebês tiveram ele completo. Ele se forma de frente para trás, e ele parava de desenvolver ou se formava bem fininho. Ou seja, a virose da mãe foi em uma fase onde o cérebro estava se desenvolvendo, por isso muitas estruturaram pararam de desenvolver.

UOL - Seriam cérebros incompletos?

As mães citam que foram infectadas antes dos seis meses [de gestação], ou sejam exatamente no período e que o cérebro está formando. É como se na fase em que estivesse desenvolvendo, o cérebro parasse de desenvolver. Houve uma parada em algum ponto, alguns mais graves, outros mais sutis. Varia de criança para criança.

UOL - Esse estudo pode ajudar a fazer um prognóstico do futuro dessas crianças?

Nós não podemos, por imagem, dar prognóstico. O cérebro da criança surpreende, e alguns podem ter um desenvolvimento bom. Porém, mais de 70% das crianças que avaliamos tiveram alterações muito graves, e pode ser que essa criança tenha problema desenvolvimento. As que têm muita malformação podem ter convulsões, epilepsia.

UOL - Foram avaliadas só crianças com microcefalia, ou temos crianças com perímetro cefálico normal?

Tem pacientes que não tem uma microcefalia tão acentuada, mas que foram incluídas porque havia um ponto de corte de 33 cm do início do protocolo. Tem crianças que estavam no limite, mas que a mãe referiu manchas durante a gravidez, e aí tem todo um histórico: são feitos exames para excluir outras causa. A maioria tem microcefalia grave ou moderada, mas outras têm tamanhos de cabeça que passam por normal.

UOL - Qual o sentimento que a senhora tem sobre esses achados?

A gente ficou surpreso porque tinham algumas diferenças quando comparado com literaturas das outras causas de microcefalia. Tudo pode ser encontrado em todas as doenças, mas a gente encontrou essas lesões e, pelo que a gente comparou na literatura, esse achado está mais associado ao vírus da zika. 
 

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