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Policial, segurança e consultor: obrigados a trabalhar relatam medo

Imagem ilustrativa, pois o policial entrevistado pediu para não ser identificado - ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO
Imagem ilustrativa, pois o policial entrevistado pediu para não ser identificado Imagem: ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO

Arthur Sandes

Do UOL, em São Paulo

25/03/2020 04h00

Resumo da notícia

  • O UOL ouviu um policial militar, um segurança particular e um consultor de atendimento que relataram mudanças de rotina e o temor da covid-19
  • "A preocupação é imensa", diz um agente da força tática da Polícia Militar de SP. Ele explica que a orientação é evitar contato com não suspeitos
  • "A minha família não sai de casa. Eu lavo as mãos toda hora e fico sempre dentro do carro", afirma um segurança
  • No Rio de Janeiro, um funcionário de uma empresa de laboratórios revela temer tanto o coronavírus como o aumento da violência

Mesmo que Rio de Janeiro, São Paulo e outros estados do Brasil tenham iniciado quarentena obrigatória, ainda há muitos trabalhadores saindo de casa em meio à pandemia do novo coronavírus. O UOL ouviu um policial militar, um segurança particular e um consultor de atendimento que relataram mudanças de rotina e temor de uma possível contaminação pela covid-19.

"A preocupação é imensa", diz um agente da força tática da Polícia Militar de São Paulo que não quis se identificar. Trabalhando na rua, ele afirma ser impossível não correr riscos de contrair o vírus. "Ontem mesmo nós tivemos que prender um cara e, nesses casos, não tem jeito. Ele tentou fugir, estava todo suado, a gente obviamente teve que encostar nele, foi algemado e tudo", conta.

Segundo o agente, a orientação é evitar contato com quem não for suspeito. "Só se a pessoa estiver cometendo algum ato ilícito. Aí, não tem como [ficar à distância], mas depois passamos álcool em gel", afirma o policial.

Ele teme a possibilidade de transmitir o vírus para familiares. "Eu parei de ir à casa da minha mãe, por exemplo, onde eu ia quase todos os dias. Quando vou, sempre tem um ritual de não encostar em ninguém."

"Lavo as mãos toda hora"

A segurança privada também segue em funcionamento em São Paulo. Um segurança que acompanha uma família moradora do bairro dos Jardins, em São Paulo, relata as mudanças na rotina dele. "Com certeza [há o medo]. A minha família não sai de casa. Eu lavo as mãos toda hora, evito contato com os outros seguranças e fico sempre dentro do carro", explica ele, que também não quis se identificar.

O segurança diz que seus empregadores diminuíram a quantidade de funcionários que permanecem trabalhando, mas não abriram mão de todos. Só foram liberados os que têm mais de 50 anos, enquanto os demais trabalham em esquema de rodízio.

"O que diminuiu foi a carga e a quantidade de pessoas: antes eram quatro seguranças para cada membro da família, e agora são dois. Eu trabalhava todos os dias, e agora tenho mais folgas. Mas parar totalmente não vai, é muito difícil", observa.

"Medo de assaltos e coisas piores"

No Rio de Janeiro, um funcionário da empresa de laboratórios Dasa afirma que teme tanto o coronavírus como o aumento de violência.

"Tenho muito medo da contaminação, de trazer para alguém de casa ou até levar para alguém do trabalho", afirma o consultor de atendimento, que acredita ser possível exercer a sua função de casa. "O trabalho praticamente inteiro é no computador, em um sistema da empresa. Seria apenas instalar este mesmo sistema no computador da minha casa", diz.

Ele mora na periferia da cidade e demora até uma hora e 40 minutos para chegar ao trabalho, no centro do Rio de Janeiro. Nesse trajeto, diz que o temor não é só pela covid-19. "Outro medo é estar vulnerável a assaltos ou coisas piores. No Rio, as coisas já costumam ser perigosas, e dá mais medo ainda na hora de voltar e ver tudo vazio, sem ninguém. Volto para casa correndo."

Procurada, a Dasa afirmou, por meio de nota, que 450 das 800 unidades que detêm no Brasil seguem em funcionamento "porque prestam serviço essencial para a população". A empresa de diagnóstico médico disse que "os decretos estaduais autorizam o funcionamento desses serviços", que serão mantidos.

Procurada, a Polícia Militar de São Paulo não informou, até a publicação desta reportagem, as mudanças de procedimento na abordagem policial devido ao coronavírus.

Há quem não se incomode

Se há trabalhadores com temor de sair de casa, também há quem não se veja em risco, mesmo saindo todos os dias para trabalhar.

"Como é algo que está no ar, acho que é indiferente eu estar em casa ou na rua", diz um funcionário da Prefeitura de Guarulhos, na Grande São Paulo, que não quis se identificar. "Eu não estou no grupo de risco, então prefiro estar no meu serviço. Por um lado, é ruim porque estou um pouco mais exposto, mas, por outro, estou em contato com poucas pessoas", afirma.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) ainda estuda a transmissão da covid-19, mas dá como certa a disseminação de pessoa para pessoa, ou seja, a contaminação por gotículas respiratórias ou por contato. No entanto, não há indício de que o vírus fique no ar — uma das precauções é justamente manter distância de quem apresenta sintomas respiratórios.

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