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Relatos do primeiro dia da quarentena em SP: "O patrão mandou abrir a loja"

Caminhão de fiscalização da Prefeitura estacionado no Largo Treze, em Santo Amaro, em meio à quarentena - Alex Tajra/ UOL
Caminhão de fiscalização da Prefeitura estacionado no Largo Treze, em Santo Amaro, em meio à quarentena Imagem: Alex Tajra/ UOL

Alex Tajra

Do UOL, em São Paulo

24/03/2020 18h41

Resumo da notícia

  • Quarentena decretada pelo governador João Doria em todo estado de São Paulo por conta da pandemia do novo coronavírus começou hoje
  • A reportagem do UOL saiu às ruas da zona sul da capital paulista para acompanhar o movimento e ouvir histórias de quem foi trabalhar
  • "O patrão mandou abrir", diz a funcionária da loja de bolos, adereçada com luvas e máscara cirúrgica
  • É predominante o aspecto de um lugar abandonado às pressas. Em ruas menores, é possível ver alguns comércios tentando a sorte, à revelia da lei

Em frente a um prédio no centro de São Paulo, o zelador Antonio Malaquias da Silva, com mais de 80 anos, orienta cinco homens que trabalham na revitalização do edifício. Eles deixaram suas casas em Santo Amaro, na zona sul da capital, e em Itapevi, na zona oeste, a 35 km dali, para passar produtos químicos, lixar e pintar a escadaria na entrada o prédio.

"Se pudesse, estaria em casa", diz um dos operários, enquanto descansa após o almoço. Para ele, assim como para seus quatro companheiros, a quarentena decretada pelo governador João Doria (PSDB) em todo estado de São Paulo por conta da pandemia do novo coronavírus não fez diferença alguma.

Ao lado do edifício na República, uma franquia que vende bolos caseiros resiste aberta em meio aos portões baixados. Estabelecimentos como esse deveriam estar fechados, segundo a determinação do governo, mas alguns proprietários se escoram na brecha de que as "padarias de abastecimento que funcionam como mercadinho" podem ficar abertas. "O patrão mandou abrir", diz a funcionária da loja de bolos, adereçada com luvas e máscara cirúrgica.

Em entrevista coletiva no último sábado, quando anunciou as medidas restritivas, Doria afirmou que esse tipo de estabelecimento estaria proibido de vender alimentos que sejam preparados em seus interiores. "Esses estabelecimentos poderão funcionar como delivery para manter alguma receita e preservar o emprego dos seus funcionários", disse o governador.

Nas ruas da cidade, é predominante o aspecto de um lugar abandonado às pressas, onde tudo foi fechado para evitar o pior. Em ruas menores, é possível ver alguns comércios tentando a sorte, à revelia da lei. Um mecânico trabalha em sua oficina com o portão entreaberto; um homem aguarda para ser atendido em um salão de cabeleireiro duas ruas para baixo, próximo ao terminal Santo Amaro.

Procurada, a prefeitura informou que colocou dois mil fiscais nas ruas hoje para verificar os comércios. Os estabelecimentos que permanecerem abertos "estão sujeitos a interdição imediata de suas atividades e, em caso de resistência, cassação do alvará de funcionamento".

Na Vila Clementino, também na zona sul, uma padaria de luxo funcionava em meio à quarentena. Os alimentos, no entanto, estavam sendo vendidos para viagem e não era permitido permanecer no local. Funcionária lá há um ano e meio, Keyla Barros, 25, diz que está trabalhando hoje por uma questão de "força maior".

"Foi uma decisão, né? Se dependesse de mim, estaria me protegendo em casa", diz Keyla, que deixou sua residência no Grajaú e demorou cerca de uma hora no transporte público até chegar ao trabalho. Além dela, outros cinco funcionários tiveram de se deslocar para a padaria, que vende croissants a R$ 10 e sucos naturais a R$ 11.

"Se prender, já era"

O vendedor Eri Bueno, 40, passou os últimos 20 anos oferecendo seus produtos nas travessas da Avenida Padre José Maria, em Santo Amaro. Já vendeu roupas, gorros, meias e agora tem um carrinho com verduras e algumas frutas. Hoje, ele manteve sua rotina para "conseguir comprar o frango do dia", se arriscando a poucos metros dos fiscais da Prefeitura que faziam uma varredura no bairro.

"Se prender, já era, mas eu preciso trabalhar", diz, relatando que o movimento nunca esteve tão fraco. "O que saiu aqui foi a pimenta e o cheiro verde, é o que o povo compra mais, não é? É o que não pode faltar."

As verduras do vendedor Eri Bueno em uma esquina de Santo Amaro - Alex Tajra/ UOL
As verduras do vendedor Eri Bueno em uma esquina de Santo Amaro
Imagem: Alex Tajra/ UOL

Bueno diz que foi o último dia de trabalho na esquina em que estacionou seu carrinho de madeira hoje. Vai passar a vender suas verduras de porta em porta, como outros ambulantes do bairro. "Onde vai sair isso aí?", questiona Bueno, pedindo uma folha de papel com o endereço do UOL anotado.

Poucos passageiros

"Fiquei esperando uma hora e meia por uma viagem", conta Ricardo Couto, motorista de aplicativos há três anos. "Até estava trocando ideia com um outro amigo, que também é Uber, e ele me falando: 'você está na sorte ainda, eu demorei quase três horas para conseguir uma viagem'", diz.

"Eu vou até onde minhas pernas tiverem energia. Se eu conseguir R$ 60 limpos hoje, já estou feliz", afirma o motorista.

No lado oposto do de Couto, hoje será o último dia em que o também motorista de aplicativos João Paulo (seu nome verdadeiro foi preservado pela reportagem), 31, vai colocar seu carro na rua para tentar alguma renda. Ele já decidiu que vai deixar o veículo parado para tentar amenizar os prejuízos.

Entre as 6 horas e o meio-dia, ele havia feito apenas três corridas. "Já percebi que não vai dar", conta. "Vou te falar, hoje é o dia mais cruel desde que começou isso tudo."

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