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Coronavírus e cloroquina: 3 verdades e 3 mentiras sobre teste contra doença

Lucas Borges Teixeira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

24/03/2020 13h48

Endossadas pelo presidente norte-americano Donald Trump e por Jair Bolsonaro (sem partido), a cloroquina e a hidroxicloroquina são esperanças — e portanto, ainda não são soluções — no combate à covid-19, doença causada pelo novo coronavírus.

Usados no tratamento de malária e lúpus, os medicamentos viraram alvo de correntes nas redes sociais, que atestam de maneira precipitada sua eficácia no combate ao vírus. Ainda não há comprovação definitiva que as substâncias curem a doença, o presidente do hospital Einstein nega ter gravado áudio sobre o tema e o aumento da demanda tem prejudicado quem realmente precisa.

Veja a seguir o que é verdadeiro e o que é falso entre o que tem circulado na internet sobre cloroquina e também sobre hidroxocloroquina — drogas da mesma família e lembre-se: antes de compartilhar informação, confere no UOL Confere se ela é verdadeira.

Cloroquina cura o Covid-19? Meia verdade

Esta é uma meia verdade. Ainda não há nenhuma evidência comprovada do uso de cloroquina ou hidroxocloroquina como cura do novo coronavírus. Mas existem estudos e experimentos que dão sinais positivos, mas é preciso ampliar o teste com mais pacientes.

Depois da corrida às farmácias em busca do medicamento, cujo uso pode ter efeitos colaterais, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) restringiu o acesso à droga nas farmácias, que passaram a exigir receita especial para vendê-los.

"Até então, temos dados de estudos pequenos. Promissores, de fato, mas a eficácia real é uma coisa que ainda deverá ser estudada a fundo", afirma o infectologista Evaldo Stanislau, do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

"Seu uso pode ser feito como estudo clínico para pacientes graves, como tem feito o [Hospital] Albert Einstein, mas para o paciente comum, de maneira nenhuma", garante o infectologista. "Justo porque ele traz efeitos colaterais cardíacos graves. Não endosso seu uso pelas pessoas de jeito nenhum."

Estudo de Stanford mostra que cloroquina cura covid-19? Falso

Pelos aplicativos de mensagem circula um áudio atribuído ao presidente do Hospital Albert Einstein que afirma que "acabou de ser divulgado em Stanford um estudo que 100% dos 40 casos testados com hidroxicloroquina e azitromicina associados zeraram o PCR para Covid-19, ou seja, curaram a doença".

Mas o hospital Albert Einstein nega a autoria do áudio, e a universidade Stanford, da Califórnia, nos EUA, também diz que esse estudo não existe.

"A Stanford Medicine não está envolvida com o documento amplamente divulgado pelo Google ou com o estudo que sugere um potencial tratamento para o Covid-19. As afirmações que atestam nosso envolvimento são falsas", declarou a universidade.

Áudio do presidente do Einstein? Falso

Embora o Einstein esteja fazendo estudos clínicos com azitromicina e hidroxicloroquina, o áudio da corrente não foi gravado pelo médico-cirurgião Sidney Klajner, presidente da instituição.

Ao UOL, o Einstein negou a informação.

O áudio é verdadeiro, no entanto, quando diz que a Prevent Senior elabora protocolo de teste da combinação em pacientes com a covid-19. Mas, de novo, são testes.

Einstein usa e cura pacientes com a hidroxicloroquina? Meia verdade

O Hospital Einstein, em São Paulo, confirmou que tem feito, junto a outros hospitais, estudos clínicos com azitromicina, um antibiótico, e hidroxicloroquina com pacientes em casos leve, moderado e grave, mas não fala em cura em momento algum. São feitos testes controlados, em ambiente hospitalar, com estrutura para atenuar possíveis efeitos colaterais.

EUA declararam eficácia de cloroquina contra a Covid-19? Falso

Uma das correntes que circula pela internet afirma que os Estados Unidos encontraram a cura da covid-19 por meio da cloroquina. Mas a afirmação é falsa.

Apesar de Trump ter aprovado o uso de cloroquina para tratamento do novo coronavírus, não é verdade que o país já tenha atestado sua eficácia.

Em nota publicada na última quinta (19), a agência de vigilância sanitária dos Estados Unidos, FDA, informou que tem trabalhado com agências do governo e centros de pesquisa "para determinar se a droga pode ser usada para tratar pacientes leves e moderados para potencialmente reduzir a duração dos sintomas da covid-19".

Sem dar nenhuma certeza, a FDA afirmou que "os estudos estão se encaminhando para determinar a eficácia de usar cloroquina para tratar o Covid-19".

Estudos mostram melhora de pacientes? Verdade

É verdade, por outro lado, que há estudos indicando melhoras de pacientes com o uso da cloroquina. A droga é alvo de mais de 20 pesquisas ao redor do mundo, que têm indicado eficácia no combate ao Covid-19.

Em um recente estudo do Instituto Mediterrâneo de Marselha, na França, por exemplo, o uso da hidroxicloroquina foi capaz de eliminar o novo coronavírus do organismo de 70% dos pacientes após seis dias de tratamento.

Mas Stanislau, do Hospital das Clínicas de São Paulo, lembra que o vírus ainda está sendo amplamente estudado e seu combate, debatido. "Não há verdade absoluta, não se pode falar em cura de maneira nenhuma", afirma.

Falta cloroquina? Verdade

Embora tenha resultados promissores em alguns casos, não é correto correr para a farmácia. Além de haver contraindicações do uso não monitorado, a alta demanda causa um efeito colateral perverso: pessoas que precisam dele estão ficando sem.

Eficiente para tratar malária, a cloroquina também é muito usada nos tratamentos de lúpus e artrite reumatoide. Conforme VivaBem, do UOL, apurou, já há pacientes com estas doenças sofrendo porque não encontram o medicamento nas farmácias por causa da procura antecipada para combater o coronavírus.

Cloroquina pode causar intoxicação? Verdade

O uso indiscriminado da cloroquina também pode causar intoxicação. No final de semana, Lagos, maior cidade da Nigéria, registrou dois casos de intoxicação causados pela cloroquina.

Stanislau diz que não se deve fazer uso do medicamento sem acompanhamento médico para tratamentos específicos, como malária, lúpus e artrite reumatoide.

Além disso, manuais de farmacologia indicam que a intoxicação por cloroquina ou hidroxicloroquina pode causar, dentre outros problemas, convulsões, arritmia cardíaca, visão borrada, visão dupla e erupções na pele

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