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Números mostram Brasil com 1° mês pior que Itália; comparação exige cautela

25.mar.2020 - Pouca movimentação nas ruas da cidade de São Paulo (SP) durante quarentena por causa do coronavírus - DANILO M YOSHIOKA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
25.mar.2020 - Pouca movimentação nas ruas da cidade de São Paulo (SP) durante quarentena por causa do coronavírus Imagem: DANILO M YOSHIOKA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Do UOL, em São Paulo

27/03/2020 13h00

O Brasil completou ontem 30 dias desde o primeiro caso de contaminação por coronavírus reportado no país. Desde então, temos 77 mortes e quase 3 mil casos confirmados da doença.

Olhando friamente os números, eles podem indicar uma situação preocupante quando comparamos com outros países que agora são o foco da crise. Especialistas ouvidos pelo UOL, porém, dizem que fatores locais e metodologia diferentes inviabilizam esse tipo de análise, sendo impossível estimar como o país estará no futuro com base em outros casos.

O Brasil está repetindo a curva de contaminação de Espanha e Itália, dois países europeus que hoje se encontram em situação dramática.

Em seus 30 primeiros dias após o primeiro caso, a Itália registrava apenas cerca de 1.700 casos e 21 mortes. A Espanha, no mesmo período de tempo, tinha 45 casos e nenhuma morte.

Acontece que essa comparação leva apenas em conta os casos oficialmente confirmados, ignorando a subnotificação quem ocorre em todos os países, em menor ou maior grau.

Olhando o número de mortes, o Brasil registrou um crescimento menor do que o italiano, mas maior do que o espanhol.

O Brasil reportou a sua primeira morte no dia 17 de março. Menos de dez dias depois, já foram 77 óbitos devido à covid-19, segundo dados do Ministério da Saúde.

Na Espanha, a primeira morte foi reportada no dia 3. Em dez dias, o país já tinha 133 óbitos. Na Itália a primeira morte aconteceu em 21 de fevereiro. Dez dias depois, o país tinha 52 casos.

Ambos os países vivem agora situações dramáticas, com a Itália somando mais de 80 mil casos e mais de 8.000 mortes e a Espanha com mais de 64 mil casos e quase 5.000 mortes.

Infectologistas ouvidos pelo UOL alertam que comparações entre países precisam ser feitas de maneira cuidadosa.

Segundo o infectologista da Universidade de São Paulo (USP), Eliseu Waldman, observar os números de outros países pode ajudar a tomar decisões sobre que medidas adotar, mas não contribui para prever o futuro.

Em um evento como esse, a gente tem que ir aprendendo. Evidentemente esses países têm muito o que nos ensinar. Muita coisa que nós estamos fazendo é em cima dos resultados obtidos em outros países. Agora, fazer previsão, pegar duas curvas e dizer que são semelhantes, é muito difícil, porque o comportamento de disseminação das doenças de transmissão respiratória varia muito com o contexto
Eliseu Waldman, infectologista da USP

Segundo ele, o Brasil tem realidades sociais muito diferentes em relação a países da Europa, e por isso a comparação pode não ser justa.

"A gente tem coisas que a Europa não tem, que são parcelas importantes da população vivendo em comunidades, em condições habitacionais subnormais, em condições adversas, com uma grande aglomeração dentro do domicílio. Isso na Europa pode existir, mas não é tão expressivo como aqui. Isso provavelmente terá impacto."

Por mais que a curva de casos do Brasil seja mais acentuada que a de outros países, como mostra o gráfico abaixo, e pareça indicar um cenário pior, esses países tiveram a primeira contaminação quase um mês antes do Brasil, portanto, em um momento distinto da pandemia.

Brasil no começo da aceleração da curva

O infectologista especializado pelo Instituto Emílio Ribas, Natanael Adiwardana, explica que o ideal é fazer análises a partir do momento da aceleração do número de casos e mortes

"Não adianta contar só do Dia 0, do primeiro caso, ou a partir de uma velocidade linear de progressão. Temos que ver o momento em que a curva acelera."

O Brasil ainda está no começo desta aceleração da curva. De acordo com os especialistas, a expectativa é que nas próximas duas semanas os casos cresçam ainda mais, até o Brasil atingir o seu pico de contaminação.

A discrepância de números também pode apontar subnotificação nesses países. Os Estados Unidos também vivem hoje uma situação alarmante a assumiu o topo da lista de casos, com mais de 86 mil e 1.300 mortes.

Porém, o país terminou o seu primeiro mês de contaminação com apenas 35 casos e nenhuma morte. O crescimento rápido dos casos confirmados ocorreu após o país começar a fazer testes em massa.

Mais tarde se percebeu que, na verdade, as pessoas não estavam reportando seus casos devido ao custo financeiro que isso lhes acarretaria, já que o sistema de saúde lá não é público.

"As pessoas não pagavam para fazer o teste ou ir ao hospital, porque isso pode custar a renda do mês inteiro", diz Adiwardana. "Os EUA no começo foram subnotificados em todos os aspectos."

No gráfico abaixo, é possível ver o número elevado de mortes no Brasil dentro de um período de 10 dias frente a Itália, Espanha e Estados Unidos. Os dados, porém, são afetados por subnotificação e realidade social, portanto, não concluem um cenário dos piores no Brasil.

Os atuais números brasileiros, apesar de altos e reportados em um curto período de tempo, estão conforme o que se projetava para a epidemia no país.

"O crescimento global está dentro do esperado", comenta o infectologista Waldman. "A gente deve entrar na próxima semana num crescimento mais acelerado, e até lá precisamos estar com as portas do sistema de saúde mais ou menos bem sincronizadas, para conseguir dar conta do recado."

Segundo os especialistas, o futuro do Brasil nesta pandemia vai depender de como será a resposta frente ao crescimento de casos nestas próximas semanas, tanto em questão de políticas oficiais, quanto no comportamento da população

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