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Com medo e sem estimativas, médicos e enfermeiros contam colegas infectados

10.mar.2020 - Enfermeira usa máscara para se proteger contra o coronavírus no Hospital Regional da Asa Norte, em Brasília - Adriano Machado/Reuters
10.mar.2020 - Enfermeira usa máscara para se proteger contra o coronavírus no Hospital Regional da Asa Norte, em Brasília Imagem: Adriano Machado/Reuters

Cleber Souza e Luisa Picanço

Do UOL, em São Paulo, e colaboração para o UOL, no Rio

27/03/2020 04h03

"Ontem morreu um agente de saúde suspeito de coronavírus no Hospital Getúlio Vargas. Digo suspeito porque não tem teste para os profissionais de saúde."

Nos hospitais do Rio e de São Paulo, há medo, cansaço e súplica por materiais de proteção, segundo retratam os sindicatos de médicos e enfermeiros entrevistados pelo UOL.

Apesar da imprecisão na contagem, começam a surgir casos de profissionais da saúde infectados.

"Pelas nossas contas, já temos 80 profissionais em quarentena", afirma Mônica Armada, presidente do Sindenfrj (Sindicato dos Enfermeiros do RJ) e autora da frase que abre a reportagem.

Em São Paulo, os sindicatos da classe já denunciaram instalações precárias ao Ministério Público e ao Ministério do Trabalho, além de entrar com ação contra o governo do estado no Tribunal de Justiça pedindo melhores condições de proteção dos profissionais.

A reportagem do UOL tem entrado em contato com as secretarias estaduais, que afirmam estar usando todo o recurso disponível e atendendo às demandas, mas têm dificuldade em passar dados precisos sobre a demanda atual em relação aos leitos disponíveis.

"Governo e município não vão passar dados sobre falta de EPIs [Equipamento de Proteção Individual, traje médico], pois realmente estão em falta", afirma Solange Caetano, presidente do Seesp (Sindicato dos Enfermeiros do Estado de São Paulo).

No Rio, a Justiça do Trabalho concedeu liminar ao sindicato dos médicos sob pena de multa às organizações sociais e empresas públicas que prestam serviço ao estado e ao município do Rio. A determinação é de que se garanta o fornecimento de EPIs e insumos como álcool 70%, sabão e papel toalha.

"Sabemos que tem hospital quem não tem sabão. Os profissionais estão expostos. O trabalhador tem de ser resguardado. Temos recebido muitas denúncias.", diz Alexandre Telles, presidente do Sinmed (Sindicato dos Médicos do RJ).

Falta mão de obra

Limitações de estrutura e pessoal já se colocam como barreira à vista para enfrentar a pandemia, com número de contágios que deve crescer ainda no Brasil. Os sindicatos pedem contratações.

"Não tem gente para trabalhar. Precisamos de contratação imediata. A prefeitura fez um chamado para 200 pessoas em enfermagem, mas só no [hospital] Souza Aguiar precisa de 111 pessoas", diz Monica, do Sindenfrj.

De acordo com dados do CFM (Conselho Federal de Medicina), em 2018, o Rio de Janeiro tinha 59.366 médicos e uma razão médico por 1.000 habitantes de 3,55.

No mesmo ano, São Paulo tinha 126.687 profissionais e uma razão médico por 1.000 habitantes de 2,81.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda a proporção de um médico para cada mil habitantes.

O Seesp afirma que a falta de profissionais nos hospitais está esticando a jornada dos contratados. Além do cansaço, é um maior tempo de exposição ao coronavírus em meio à falta de material de proteção. Máscaras que deveriam ser descartadas estão sendo utilizadas muito além do recomendável, revelam os profissionais de saúde.

Segundo dados do Seesp, atualmente são mais de 137 mil enfermeiros no estado de São Paulo.

Para o diretor do Sinmesp (Sindicato dos Médicos de São Paulo), o infectologista Gerson Salvador, o número de leitos de UTIs pode ser insuficiente caso a pandemia confirme uma evolução agressiva no estado.

Para Solange, mesmo com as adversidades, o pânico ainda não começou.

"Se isso se agravar, pode haver uma dificuldade quanto ao acesso à materiais de proteção. Principalmente para profissionais de saúde."

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