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Referência em SP, Adolfo Lutz só concluiu 24% dos exames para covid-19

Analista de laboratório estuda amostra de teste de covid-19, o novo coronavírus - Carl de Souza/AFP
Analista de laboratório estuda amostra de teste de covid-19, o novo coronavírus Imagem: Carl de Souza/AFP

Marcelo Oliveira

Do UOL, em São Paulo

09/04/2020 04h00

Resumo da notícia

  • O Instituto Adolfo Lutz, principal laboratório público de SP, entregou apenas 24% dos exames de covid-19 que recebeu
  • Demanda do laboratório cresceu e porcentagem de exames concluídos diminuiu à medida que a epidemia avançou
  • Exames atrasados prejudicam análise da epidemia e famílias enterram seus mortos sem saber ao certo causa da morte
  • Instituto tem 21 mil exames represados; 9000 deles já foram distribuídos para outros laboratórios

Das 41.399 amostras de exames para testar covid-19 que recebeu, o IAL (Instituto Adolfo Lutz), laboratório de referência da rede pública paulista, entregou apenas 9.401 resultados, 24% do total, segundo os critérios da instituição, que exclui da conta exames não realizados e cancelados.

Os dados estão nas duas últimas edições do boletim epidemiológico da covid-19 em São Paulo, divulgado pelo Centro de Vigilância Epidemiológica Alexandre Vranjac, da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, com informações da epidemia atualizadas até 7 de abril, quando o estado anunciou 5.682 casos da doença e 371 mortes.

O primeiro boletim a trazer os dados dos exames represados no Adolfo Lutz foi o de 6 de abril. Na ocasião, o IAL tinha entregue 8.010 resultados, de uma demanda de 39.918 amostras, o que representa 20% do total. Entre 6 e 7 de abril, 1.391 exames foram entregues.

Laboratório de referência

Como laboratório de referência, o Adolfo Lutz foi o primeiro do estado de SP a realizar exames para diagnosticar a covid-19, antes mesmo de o primeiro caso da doença ser identificado no estado, em 25 de fevereiro, na rede privada, pelo Hospital Albert Einstein.

O Einstein foi o primeiro laboratório particular a se credenciar no IAL — responsável por cuidar do credenciamento de outros laboratórios. Foi o IAL que fez a contraprova do exame que confirmou o primeiro caso da doença.

No início da epidemia, o IAL era o único laboratório público a fazer o exame de covid-19. Depois, o Laboratório Central do Hospital das Clínicas passou a fazer exames para atender a sua própria rede.

Exames represados

Apesar dos quase 1.400 novos diagnósticos entre 6 e 7 de abril, a fila de exames represados (em análise pelo IAL), segundo os dados divulgados, continua na casa de 21 mil. No dia 6, eram 21.168 (53% da demanda) e no dia 7 baixou para 21.147 (51% da demanda).

Segundo a assessoria de imprensa do Instituto Butantan — cujo diretor, Dimas Tadeu Covas, assumiu na semana passada a coordenação da plataforma de laboratórios para diagnóstico da covid-19 no estado de São Paulo —, o total de exames represados atualmente é de 17 mil, dos quais 9 mil foram priorizados e distribuídos para outros laboratórios da rede pública para agilizar os resultados.

Foram definidos como prioritários os exames represados de pessoas que morreram com suspeita de covid-19, os casos de pacientes que estão ou estiveram internados em UTI e outros casos graves.

Dados envelhecidos

A falta de sincronia entre os exames realizados e o momento em que a amostra foi colhida dificulta a análise em tempo real da epidemia de covid-19 no estado de São Paulo. Os dados mostram que há exames em análise que são de fevereiro, mas a maior parte dos exames represados foram colhidos entre 15 de março e 4 de abril. Enquanto isso, pessoas adoecem e morrem, e suas famílias ficam sem saber ao certo a causa.

"Os dados que vêm sendo divulgados são de duas, três semanas atrás. Não representam o que está acontecendo na epidemia agora", explica o professor de Medicina Social Domingos Alves, da Faculdade de Medicina da USP Ribeirão Preto.

Demanda aumenta, e resultados diminuem

Os números mostram também que, à medida que a epidemia foi avançando, o número de resultados liberados foi diminuindo, mas a demanda também cresceu assustadoramente.

Na semana do primeiro diagnóstico de covid-19 no Brasil, o IAL recebeu 339 amostras e entregou 95% dos resultados. Há três semanas, entre 15 e 21 de março, o IAL recebeu 14.142 amostras para análise, o recorde na epidemia, e entregou apenas 29% dos resultados.

Meta é entregar resultados em 48 horas

Covas assumiu a função de cuidar dos diagnósticos de covid-19 em São Paulo na semana passada, com o propósito de reduzir os exames represados, e estipulou como meta que os resultados sejam entregues em 48 horas.

Suas primeiras providências incluíram aumentar a rede de laboratórios credenciados e a capacidade das filiais do Adolfo Lutz no interior. Por exemplo, a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) passou a integrar a rede.

Além disso, 44 mil kits para testes devem chegar esta semana da Fiocruz, e o governo estadual comprou 1,2 milhão de kits da Coreia do Sul para, numa nova etapa, iniciar a testagem em massa. O país asiático foi o mais bem-sucedido na testagem em massa para covid-19, e a isso atribui o sucesso de sua resposta à doença.

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