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Coronavírus

Em abril, mortes em casa saltam 80% nas capitais com hospitais já lotados

Em abril de 2020, foram registradas 3.816 mortes "em domicílio", contra 2.119 no mesmo período do ano passado - Antonio Molina/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Em abril de 2020, foram registradas 3.816 mortes "em domicílio", contra 2.119 no mesmo período do ano passado Imagem: Antonio Molina/Fotoarena/Estadão Conteúdo

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

13/05/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Oito capitais tiveram alta de 80% no número de mortes registradas em casa em abril, em comparação ao mesmo mês em 2019
  • São cidades que registram as maiores taxas de ocupação de leitos hospitalares em decorrência da pandemia da covid-19
  • Para especialistas, esse aumento é reflexo do avanço do coronavírus e da sobrecarga dos serviços de atendimento
  • Há ainda relatos de doentes que demoram a buscar um hospital por medo de contaminação

As oito capitais de estados, incluindo Rio de Janeiro e São Paulo, que registram as maiores taxas de ocupação de leitos hospitalares em decorrência da pandemia da covid-19 tiveram uma alta de 80% no número de mortes ocorridas em casa em abril, em comparação ao mesmo mês em 2019.

No mês passado, foram registradas 3.816 mortes "em domicílio", contra 2.119 no mesmo período no ano passado. Os dados constam no Portal da Transparência da Arpen Brasil (Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais) e têm como fonte as certidões de óbito emitidas pelos cartórios de todo o país.

Muitas são as situações que levam a uma morte em casa. Boa parte é causada por um problema agudo, o que impede o socorro a tempo, como um infarto. Outra causa comum são os doentes terminais que optam pelo falecimento em domicílio.

Para especialistas consultadas pelo UOL, essa alta ocorrida em abril de 2020 é reflexo direto do novo coronavírus, seja pelo avanço da doença covid-19 — muitas vezes de forma silenciosa —, mas também pela sobrecarga de serviços de saúde, situação que afeta todo tipo de atendimento.

Há ainda relatos de doentes que demoram a buscar um hospital justamente por medo de contaminação. E também a suspeita, ainda em investigação científica, de que o novo coronavírus seja causador de problemas como infarto e AVC (acidente vascular cerebral).

Avanço silencioso do vírus

Para a doutora em Doenças Infecciosas e Parasitárias e professora aposentada da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), Vera Magalhães, o novo coronavírus tem como característica uma evolução rápida e muitas vezes despercebida e letal.

"A covid-19 pode causar o que se chama de pneumonia silenciosa. Muitas pessoas não têm sintomas claros de falta de ar, mas na verdade estão com o pulmão acometido. Muitos chegam aos hospitais, inclusive, com a saturação baixíssima de 80% [de oxigênio], já para ser intubado. E isso leva as pessoas a ficarem em casa até o último momento, porque não estão se sentindo mal, até o problema pulmonar ficar extremamente grave. E muitos morrem em casa por isso também", explica Magalhães.

Além disso, a doutora em Doenças Infecciosas e Parasitárias suspeita que o novo coronavírus esteja por trás de outros problemas de saúde graves e que causam mortes. "As manifestações da covid não estão necessariamente ligadas ao sistema respiratório, como muitos pensam. Ela aumenta o número de infarto — inclusive em pessoas mais jovens, que podem ter infarto ou outras doenças tromboembólicas", relata.

"E é lógico que as outras causas de morte seguem ocorrendo, como o AVC [Acidente Vascular Cerebral] e o infarto. Com o colapso do sistema de saúde nessas cidades, as pessoas passam também a não conseguir ser atendidas nos hospitais por falta de condições, ou evitam ir porque têm medo de se contaminar com o coronavírus", acrescenta a pesquisadora aposentada da UFPE.

Saúde primária

A sanitarista, doutora em Saúde Social e vice-presidente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) Bernadete Perez Coelho pontua que o aumento das mortes em casa já era uma situação prevista desde o início da chegada do novo coronavírus. "Já está acontecendo, e a tendência é aumentar mais", diz.

Segundo a sanitarista, um dos fatores que pode ajudar a entender essa quantidade de mortes é a deficiência nos serviços de vigilância e acompanhamento de pacientes com sintomas leves.

"As pessoas em casa não estão com monitoramento. São pessoas sintomáticas, mas sem testagem ou acompanhamento. E elas não estão livres de um agravamento rápido", afirma.

Perez Coelho avalia que a melhor medida seria fortalecer a atenção primária, com investimento em unidades básicas de saúde. "As unidades básicas de saúde têm um papel fundamental no acompanhamento dessas pessoas, e isso precisa ficar claro. Tratamos hoje como se a epidemia fosse só de caso grave, mas não é. Tem os casos leves e moderados que estão em casa, mas precisam de acompanhamento e monitoramento — inclusive, em alguns casos, com medição de oximetria [nível de oxigênio no sangue], que tem sido um sinal importante de alerta."

A doutora em Saúde Social defende um isolamento específico dos idosos. "É preciso o isolamento radical, mas tem que ter monitoramento dos grupos considerados de risco. As pessoas não morrem da mesma forma na epidemia: os idosos têm sido muito atingidos; as pessoas com comorbidade e as que têm baixa imunidade são grupos que necessitam de uma consideração específica", afirma.

Por fim, Perez Coelho relata que parte dessas mortes pode ser justificada pela sobrecarga em serviços auxiliares de saúde, como o transporte de pacientes. Cidades com lotação de leitos de UTI (ou próximas desse estágio) relatam, por exemplo, demora maior no atendimento pelo Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência).

"O sistema de saúde acontece em rede, com transporte adequado, resgate, atenção primária, serviço de referência, tudo funcionando com articulação. A junção dos pontos da rede também é fundamental para evitar que isso aconteça", finaliza.

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