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"A gente é bicho": vídeo mostra enfermeiros no chão em hospital do Maracanã

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

14/05/2020 16h18

Resumo da notícia

  • Profissionais de saúde denunciam falta de luz, de água e mofo
  • Unidade para pacientes com covid foi inaugurada há cinco dias
  • Caso está sendo investigado pelo Ministério Público do Trabalho
  • Em nota, governo do RJ disse que irá exibir providências

Um vídeo registrado ontem (13) à noite mostra sete pessoas deitadas em colchões em um corredor. As imagens, gravadas pelos próprios profissionais de enfermagem, revelam a precariedade das instalações oferecidas para quem está na linha de frente do Hospital de Campanha do Maracanã, na zona norte do Rio, apenas cinco dias após a inauguração da unidade destinada a pacientes com covid-19, doença causada pelo novo coronavírus.

Na gravação, os profissionais de saúde denunciam falta de luz, de água e mofo. O caso foi encaminhado ao MPT-RJ (Ministério Público do Trabalho do Rio de Janeiro), que abriu inquérito para investigar a denúncia. A unidade foi inaugurada com nove dias de atraso e com obras incompletas.

O vídeo começa com um desabafo. "Isso é uma falta de consideração com o pessoal da enfermagem. Olha só, desumano", diz uma enfermeira, ao mostrar os colchões no corredor da unidade. A imagem, então, registra sete pessoas deitadas em corredor — duas delas dividem o mesmo colchão. Uma profissional faz a primeira denúncia, ao revelar a diferença de tratamento entre profissionais de enfermagem e médicos.

Tem que ver como é que ele [possivelmente, alguém encarregado pela administração] tratou a gente. Parecia que a gente era cocô. "Isso aqui é do médico, eu tô cumprindo ordem". Eu falei: "eu só quero saber onde a gente deita

Profissional de enfermagem, em vídeo no Hospital de Campanha do Maracanã

"A gente é bicho", responde uma outra profissional. Em seguida, a responsável pela gravação entra em um dormitório e puxa conversa. "Tô filmando, se quiser falar, pode falar". Uma mulher respondeu: "Eu tô com a alergia atacada, com o chão cheio de poeira".

Outra profissional prossegue. "Depois, vai ter um monte de afastamento de profissionais por pneumonia, por covid. Aí, vão falar que foi porque a gente não se paramentou corretamente. Olha a porta, cheia de mofo. Sem luz, mosquito. Gente... Não tem colchão suficiente pra todo mundo". A conversa termina com relatos de falta de água.

MPT e Coren-RJ investigam o caso

Após ter acesso às imagens, o MPT-RJ abriu inquérito para apurar as denúncias. "Um alojamento desse tipo ainda pode facilitar a propagação do vírus entre os profissionais de saúde. O nosso desafio é lidar com esse tipo de situação para que o governo ofereça uma garantia mínima de trabalho e de saúde aos profissionais", argumenta a procuradora Juliane Mombelli.

O Coren-RJ (Conselho Regional de Enfermagem do Rio de Janeiro) irá fazer uma nova inspeção no local. "O departamento jurídico do Coren-RJ já está preparado para agir, após a comprovação dos fatos em relatório emergencial da fiscalização", informou, em nota.

Procurada pelo UOL, a Secretaria de Estado de Saúde (SES) afirma que a situação mostrada nas imagens é inadmissível e que enviou uma equipe de inspeção ao local. "A SES ordenará para que qualquer inadequação seja resolvida imediatamente", disse a pasta.

O governo do RJ informou, ainda, que irá notificar a Iabas, organização social contratada para construir e administrar a unidade, e exigirá esclarecimentos.

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