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Brasil teve 2 fases de contágio da covid-19 antes do isolamento, diz estudo

10.jun.2020 - Movimentação no metrô da cidade de São Paulo durante a pandemia do novo coronavírus - Bruno Escolastico / Estadão Conteúdo
10.jun.2020 - Movimentação no metrô da cidade de São Paulo durante a pandemia do novo coronavírus Imagem: Bruno Escolastico / Estadão Conteúdo

Do UOL, em São Paulo*

16/06/2020 08h22

O Brasil teve duas fases de contágio do novo coronavírus antes das autoridades adotarem as medidas de isolamento e distanciamento social. É o que mostra um estudo apoiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de S. Paulo), que apontou que mais de 100 diferentes linhagens do novo coronavírus chegaram ao Brasil entre fevereiro e março deste ano, mas apenas três delas, originárias da Europa, se expandiram pelo país aumentando o número de casos da doença.

De acordo com a pesquisa, essas três linhagens iniciaram as transmissões a curta distância nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro entre os dias 22 e 27 de fevereiro. Em março, teve início a segunda fase de transmissões, de longa distância. Ambas ocorreram antes das medidas de restrições serem adotadas pelas autoridades.

"As pessoas contaminadas nesses dois estados já estavam levando o vírus para as demais regiões do país quando foram adotadas as NPIs (sigla em inglês para "intervenções não farmacológicas")", diz a pesquisadora Ester Sabino, do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (IMT-USP), uma das coordenadoras da pesquisa. O estudo foi divulgado na plataforma medRxiv, ainda sem revisão por pares.

O Ministério da Saúde regulamentou em 13 de março os critérios de isolamento social e quarentena, implementados por governadores e prefeitos cerca de uma semana depois. As fronteiras terrestres só foram fechadas em 19 de março e a entrada de estrangeiros por voos internacionais só foi restringida no dia 27 do mesmo mês. O primeiro caso da doença no Brasil foi confirmado no dia 26 de fevereiro, em um homem que havia chegado de viagem da Itália.

Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores avaliaram uma forma de transmissão pela mobilidade da população, cruzando dados, entre fevereiro e abril, de viagens, mortes e com dados genômicos do SARS-CoV-2 obtidos pelo sequenciamento de quase 500 isolados virais de pacientes diagnosticados em 21 dos 27 estados brasileiros. O trabalho foi conduzido no âmbito do Centro Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (CADDE).

Do total de genomas sequenciados no Brasil, 75% pertencem a três linhagens ou clados de origem europeia: 186 genomas (38%) correspondem ao "clado1"; 161 (33%) são do "clado 2"; e 19 (4%) se inserem no "clado 3".

"É possível que as outras linhagens que identificamos não tenham conseguido se expandir porque quando elas entraram no Brasil já haviam sido implementadas as medidas de isolamento social. Mas é bem provável que, à medida que mais isolados virais forem sequenciados no país, clados diferentes sejam identificados. No Reino Unido, onde já foi feito o sequenciamento de mais de 20 mil amostras de pacientes com COVID-19, já foram identificadas mais de mil entradas do novo coronavírus", conta Sabino.

Segundo a pesquisadora, ainda será preciso sequenciar mais amostras da região Norte do país para determinar, por exemplo, a origem da linhagem que se disseminou fortemente por estados como Amazonas e Pará. "O que já sabemos é que os deslocamentos fluviais entre as cidades amazônicas contribuíram muito para espalhar o vírus", diz.

O estudo aponta também que a quarentena ajudou a reduzir a taxa de contágio em um primeiro momento. Antes do isolamento social, a taxa de contágio do SARS-CoV-2 no Brasil estava em torno de 3. Ou seja, cada infectado transmitia o vírus, em média, para três outras pessoas. Com a quarentena, esse índice chegou a ficar abaixo de 1 nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. No entanto, a queda na adesão ao isolamento permitiu que a taxa voltasse a subir.

"Nossos resultados lançam luz sobre o papel de grandes centros populacionais altamente conectados na ignição rápida e no estabelecimento do SARS-CoV-2 e fornecem evidências de que as atuais intervenções permanecem insuficientes para manter a transmissão do vírus sob controle no Brasil", afirmam no texto.

*Com informações da Agência Fapesp

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