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Mortes diárias no Rio caem 53% em quase 1 mês: o que dizem especialistas

11.jul.2020 - Movimentação na orla da Praia de Ipanema, na zona sul do Rio, em meio às medidas de flexibilização - Wilton Junior/Estadão Conteúdo
11.jul.2020 - Movimentação na orla da Praia de Ipanema, na zona sul do Rio, em meio às medidas de flexibilização Imagem: Wilton Junior/Estadão Conteúdo

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

18/07/2020 04h00

Resumo da notícia

  • É preciso rastrear doença com testes na reabertura, alertam especialistas
  • No pico da doença, ocupação de UTIs era de 92%; hoje, é de 35%
  • Uso de máscaras pode ter contribuído para queda de mortes
  • Especialistas projetam nova alta em meio à flexibilização da quarentena
  • Número de internações caiu de 2,2 mil para 700 pacientes com covid-19

A média diária de mortes por covid-19 caiu pela metade em quase um mês na cidade do Rio de Janeiro, mesmo em meio a medidas de flexibilização. No estado, a redução foi de 36%, segundo estudo feito pela Fiocruz com dados do governo estadual. Especialistas ouvidos pelo UOL apontam diferentes motivos para a queda e, apesar de a tendência se mostrar agora mais sustentada sobretudo na capital, usam expressões como "efeito sanfona" e "bolhas" ao prever os próximos meses.

O uso de máscaras por grande parte da população e a maior oferta de leitos na rede pública de saúde —que aumentou após sobrecarga durante o pico da doença nos meses anteriores— estão entre as hipóteses para a curva descendente. Mas também há quem olhe os números com ceticismo e defenda que a redução não esteja relacionada a uma ação de controle, mas à comparação com um patamar elevado de óbitos.

Médicos alertam contudo que o afrouxamento da quarentena pode fazer com que os óbitos voltem a crescer rapidamente nos próximos dias e pedem testes para rastrear a doença.

O que a curva diz sobre a epidemia no Rio

A média móvel diária, calculada com base nos óbitos registrados em uma semana, está em queda desde 20 de junho, quando o índice indicou 114 mortes na capital fluminense. Apesar de pequenas oscilações na curva, a queda se manteve desde então.

Na última terça-feira (14), a média móvel diária na cidade do Rio foi de 54 óbitos —queda de 53% em comparação com o índice relativo há quase um mês (veja na infografia). No estado, o número caiu de 176 para 112 mortes (queda de 36%).

O indicador é o mais adequado para observar a tendência da epidemia, por equilibrar as variações abruptas dos números ao longo da semana.

Com base no cruzamento de dados entre as vagas no sistema de saúde no estado do Rio e a média móvel diária de mortes por covid-19, é possível constatar que os períodos com os mais altos índices de óbitos coincidem com maiores taxas de ocupação de leitos.

Entre o fim de maio e o começo de junho, um dos picos da doença, havia mais de 2.200 pacientes internados com covid-19 no Rio. Hoje, são cerca de 700 pessoas hospitalizadas em decorrência da pandemia nas unidades federais, estaduais e municipais, com média de 40 altas por dia.

No dia 4 de junho, foi registrada a maior média móvel de óbitos desde o começo da pandemia no estado, com 210 casos a cada 24 horas —uma morte a cada 7 minutos. Naquele dia, havia ocupação de 92% dos leitos de UTIs.

Em 28 de maio, primeiro pico de acordo com a média móvel, a ocupação de leitos de UTIs era de 86%, com fila de 220 pessoas com sintomas da doença à espera de transferência. Para se ter uma ideia, a taxa de ocupação hoje é de 35% dos leitos de UTIs, com 41 pacientes à espera de transferência.

O risco da flexibilização

Especialistas veem relação entre os índices de internações no sistema de saúde e óbitos. O médico Daniel Soranz, pesquisador da Escola Nacional de Saúde da Fiocruz, diz que maio foi o período crítico da doença no estado, em meio ao caos no sistema de saúde.

O Rio enfrentou um cenário catastrófico. Muita gente morreu ao mesmo tempo e ainda não tinha hospital de campanha pronto. Agora, vejo um declínio constante no número de casos e de pacientes internados por covid. Já houve a flexibilização há mais de 30 dias e nada aconteceu. Mas isso não significa que não devemos mais nos preocupar com possíveis surtos

Daniel Soranz, pesquisador da Fiocruz

Ele diz que houve um índice de mortes acima do esperado em maio e no começo de junho e, por isso, a queda verificada nas últimas semanas estaria mais relacionada a uma comparação com esse índice elevado do que a uma ação capaz de reduzir os índices.

O infectologista André Siqueira, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz, diz acreditar que a queda de busca por leitos para pacientes com covid-19 pode estar relacionada à maior incidência de casos leves de pessoas fora dos grupos de risco. Ele ainda atribui a redução dos índices à adesão ao uso de máscara por parte da população. Mas não descarta a possibilidade de um novo aumento de mortes nas próximas três semanas em decorrência das medidas de afrouxamento.

"Não podemos achar que a tempestade já passou. A flexibilização ocorreu de forma rápida, causando aglomerações. Não podemos descartar um novo aumento de mortes", alerta.

'O período é de queda. Mas vamos manter?'

O cientista Domingos Alves, professor de Medicina da USP, questiona a queda na média móvel diária no Rio. Segundo o especialista, que integra o Covid-19 Brasil, grupo de pesquisadores que monitora dados sobre a pandemia no país, os índices voltarão a aumentar nos próximos dias em decorrência da flexibilização.

"O Rio abriu igrejas e causou novas aglomerações. Teve ainda esse caso do Leblon, com bares lotados no começo do mês. Nos próximos dias, vamos ver as consequências disso. Estamos em um período de queda. A questão é: vamos manter?", pergunta.

Segundo ele, a flexibilização cria o que ele chama de "novas bolhas", com pessoas que estavam em isolamento saindo para as ruas. "Com as aglomerações, as pessoas que já não cumpriam o isolamento agora se misturam com aquelas que estão saindo agora de casa. O problema é que essas 'bolhas' vão começar a estourar", projeta.

O cientista também critica a falta de unidade nas medidas adotadas pelos governos federal, estadual e municipal, o que gera instabilidade nas tentativas de controle da pandemia.

Os governantes falam que tem leito, que tem respirador. Mas é preciso fazer testes, isolar os infectados e rastrear os casos

Domingos Alves, professor de Medicina da USP

Em meio a medidas de flexibilização, Diego Ricardo Xavier, epidemiologista da Fiocruz, alerta para a necessidade de fazer o exame PCR, tipo de testagem com coleta no nariz e garganta do paciente que permite detectar o RNA do vírus. Ele ainda alerta para o erro da aposta nos testes rápidos, os mais usuais, que não auxiliam no rastreamento da epidemia.

O teste rápido só serve para saber quem já teve a doença. Mas não tem importância para a cadeia de transmissão. O caminho para uma reabertura segura é fazer teste e rastreamento. Algumas pessoas pensam que a doença passou. Esse é o perigo

Diego Ricardo Xavier, epidemiologista da Fiocruz

Ele acredita que a saída de pessoas que permaneceram em isolamento pode ser um dos fatores capazes de causar um novo pico da pandemia no Rio, criando uma espécie de efeito sanfona.

"É provável que a doença volte a aumentar quando essa população que permaneceu em quarentena volte a sair de casa. Quanto mais pessoas estiverem nas ruas, maior será o número de óbitos."

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