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SP: Comerciantes tentam abrir lojas, e ambulantes trabalham escondidos

16.03.2021 - Fiscais da prefeitura dentro do Mercado Municipal de São Miguel Paulista - Luís Adorno/UOL
16.03.2021 - Fiscais da prefeitura dentro do Mercado Municipal de São Miguel Paulista Imagem: Luís Adorno/UOL

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

16/03/2021 12h45

No entorno do Mercado Municipal de São Miguel Paulista, na zona leste da capital, há um calçadão com lojas físicas e boxes de vendedores autônomos. Na região, normalmente, com grande movimentação de pessoas, é possível comprar desde um item básico de higiene, como uma máscara, até um eletrodoméstico em uma das megaempresas que existem no país.

Hoje, com fiscais da prefeitura identificados com coletes cor laranja e com apoio de guardas civis metropolitanos e de policiais militares, comerciantes que tentaram burlar a fase mais restritiva do Plano São Paulo e abrir suas lojas tiveram seus estabelecimentos interditados. O UOL acompanhou a interditação de uma perfumaria e de duas lojas de brinquedos.

Um dos fiscais, jovem, negro e morador do bairro, que pediu para não ser identificado, disse à reportagem que pediu desculpas para a gerente de uma das lojas de brinquedos ao ajudar a interditar o local. "É claro que eu não quero atrasar o lado de ninguém, muito menos o de um trabalhador. Ninguém tem muito certo o que é o ideal, se é fechar tudo ou abrir os serviços, mas tive que cumprir meu trabalho. Ela também entendeu meu lado", afirmou.

A gerente da loja de brinquedos não quis falar com a reportagem. Próximo dali, momentos antes, os fiscais da prefeitura baixaram a porta de uma perfumaria. Os servidores disseram que aparentemente a loja estava funcionando apenas com delivery, no entanto, notaram uma movimentação suspeita em frente ao local. Ao pedirem para entrar, encontraram clientes.

16.03.2021- Loja de brinquedo interditada em São Miguel Paulista. - Luís Adorno/UOL - Luís Adorno/UOL
16.03.2021- Loja de brinquedo interditada em São Miguel Paulista.
Imagem: Luís Adorno/UOL

"Olha o rapa!"

No calçadão de São Miguel, havia menos pessoas do que o comum transitando. Mas continuava havendo pessoas. As filas se formavam em frente à Caixa Econômica, com distanciamento sendo orientado por um funcionário do banco. Farmácias e óticas também funcionavam, igualmente com menos gente.

Os pontos de ônibus, principalmente os do terminal de São Miguel e o da avenida Marechal Tito, em frente ao Mercado Municipal, continuavam cheios. Os coletivos que passavam, principalmente os que tinham como destino estações do Metrô, também estavam lotados.

No vão entre o ponto da Marechal Tito e a entrada do Mercado Municipal, fiscais da prefeitura descansavam por volta das 11h e ouviam um sermão dado por um pastor com a bíblia em mãos. O pastor só parava quando uma pessoa com sacolas dizia para outras pessoas com sacolas, num tom baixo: "Olha o rapa! Olha o rapa!". Na sequência, havia uma movimentação abrupta, mas sem alarde

Os fiscais notavam essas movimentações dos ambulantes, mas disseram para a reportagem que, sem o flagrante, não havia desrespeito detectado. "Olha para aquela mulher ali. Parece minha mãe, mano. Nessa condição, não vou ser responsável por tomar a mercadoria dela, não é meu papel. Se um dia eu tiver esse papel, eu paro de trampar e vou arrumar outra coisa pra fazer, entendeu?", disse um dos fiscais.

16.03.2021 - Boxes de vendedores autônomo fechados no calçadão de São Miguel Paulista - Luís Adorno/UOL - Luís Adorno/UOL
16.03.2021 - Boxes de vendedores autônomo fechados no calçadão de São Miguel Paulista
Imagem: Luís Adorno/UOL

Calças na picadilha e desabafo

"E aí, jovem, quer dar uma olhadinha numa calça, num tênis, numa meia?", ofereceu uma vendedora autônoma de 56 anos escorada em um box com portões fechados. Ao ouvir uma resposta positiva da reportagem, a vendedora se dirigiu a outro box próximo, olhou com preocupação para todos os lados possíveis e abriu uma fresta do seu comércio dizendo: "Aqui tem que ser na picadilha [com cautela]". Depois, pegou uma sacola preta e exibiu os produtos.

Ao ser avisada que se tratava de uma reportagem, ela desabafou, mas pediu para não ser identificada para continuar trabalhando desviando dos fiscais. "Meu marido morreu de covid, meu filho está com covid, eu já tive covid. Eu não aguento mais viver, moço. Todas as noites eu peço a Deus pra me levar. Olha a vida que a gente tem aqui. Deus que me perdoe, mas eu comecei a duvidar da existência dele. Olha o que estamos passando", afirmou com os olhos lacrimejados.

A vendedora apresentou à reportagem outro vendedor, mais novo, que também pediu para não ser identificado pelos mesmos motivos. O rapaz, branco, de 25 anos, morador do bairro dos Pimentas, em Guarulhos, diz que saiu da prisão há pouco tempo. "Eu fui pego assaltando uma farmácia, senhor, entendeu? Minha filha nasceu, tava desempregado, bateu desespero e fui pelo caminho mais fácil. Errei. Lógico que errei. Cumpri o que tive de cumprir. E tô aqui tentando não errar de novo", afirmou.

Fiscais almoçando, lojas reabrindo

Quando o ponteiro do relógio estava próximo de 12h, os fiscais entraram em uma perua com logotipo da prefeitura estampado e saíram para almoçar. Pouco depois, portões de algumas lojas físicas e de alguns boxes abriram frestas. A reportagem acompanhou essa reabertura momentânea em uma loja de artigos de skate e surf, em uma de mochilas e bolsas, em outra de alumínio, outra de xerox e outras três de conserto e itens de celulares.

16.03.2021 - No horário do almoço dos fiscais da prefeitura, gerente reabre loja de skate e surf em São Miguel Paulista - Luís Adorno/UOL - Luís Adorno/UOL
16.03.2021 - No horário do almoço dos fiscais da prefeitura, gerente reabre loja de skate e surf em São Miguel Paulista
Imagem: Luís Adorno/UOL

Sentado em um banquinho de madeira colocado em frente à loja que administra, um rapaz dizia ao telefone: "Por enquanto sem novidades". Questionado se a loja estava aberta, o rapaz disse que a reportagem "poderia dar uma olhadinha rápida" ou pedir o catálogo de itens diretamente a ele por meio do WhatsApp.

Já na loja de celular, uma garota menor de idade, que esperava a mãe dona do local chegar, disse que sabia que elas estavam se arriscando. "Olha a lotérica, os bancos, o trem. Ta tudo cheio, tudo com espaço pra covid. Ou fecha tudo ou não fecha nada", afirmou.

O que diz a Prefeitura de São Paulo

Por meio de nota, a Prefeitura de São Paulo disse que as ações de fiscalização nesta fase do Plano São Paulo têm seguido com a parceria de secretarias e órgãos municipais e estaduais.

"Durante este final de semana, as equipes municipais realizaram vistoria em 33 estabelecimentos, dos quais 11 foram fechados, dois foram interditados e um teve a função de delivery retirada. Participaram das ações duas autoridades sanitárias e 30 GCMs, na sexta; e 12 autoridades sanitárias, mais cerda de 80 GCMs, no sábado", afirmou.

"Já as equipes da Vigilância Sanitária Estadual inspecionaram de sexta à noite (12) a domingo de madrugada (14), um total de 76 estabelecimentos comerciais na capital, dos quais 15 foram autuados. As ações ocorreram nos bairros Vila Nova Conceição, Capão Redondo, Ibirapuera, Paraíso, Vila Mariana, Jaguaré, Freguesia do Ó, Pompeia, Perdizes, Vila Olímpia, Centro/ República, Brooklin, Alto de Pinheiros e Panamby", complementou.

Ainda segundo a prefeitura, desde julho de 2020, quando a Sanitária começou as ações de campo, foram realizadas mais de 213,3 mil inspeções e de 4,3 mil autuações em todo o estado. "O trabalho no final de semana contou ainda com a presença de equipes do Procon e Policias Civil e Militar", disse.

A gestão municipal deve informar um balanço sobre as ações feitas hoje na capital no final do dia.

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