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Saúde

Nicolelis: Brasil não tem condições de enfrentar terceira onda da pandemia

Ana Carla Bermúdez, Andréia Martins e Felipe Oliveira

Do UOL, em São Paulo, e colaboração para o UOL

21/05/2021 11h56

O médico e neurocientista Miguel Nicolelis disse hoje, durante participação no UOL Entrevista, que o Brasil já começa a entrar em uma terceira onda da pandemia da covid-19 e, segundo ele, o país não terá condições de lidar com o potencial aumento nos números de contágios e mortos pela doença.

Temos um sistema de saúde que tomou dois tsunamis na testa, mal sobreviveu, e está em uma situação de que, se vier um terceiro [tsunami], nós não temos medicamentos, não temos leitos, não temos equipes de UTI. Não temos condição de dar conta de uma terceira explosão. E não temos vacina.

Na entrevista, conduzida pelas jornalistas Fabíola Cidral e Lúcia Helena, Nicolelis pontuou ainda que, no Brasil, as ondas da pandemia acontecem em um formato de "escada", com a estabilização dos números de mortos e doentes em valores ainda muito altos.

"Tem a primeira onda, chega a um platô, desce um pouquinho do platô e boom, explode a segunda rampa, passando para o próximo degrau. Aí você fica no platô de novo, desce um pouquinho e tudo leva a crer que vamos começar a ter um terceiro platô", explicou.

"O meu medo", afirmou o médico, "é que a gente esteja menosprezando o que houve na Índia e os riscos de uma terceira onda no Brasil".

'Sopa de mutações'

Na Índia, a falta de controle sobre o vírus levou a um colapso sanitário e funerário em todo o país. Nicolelis ressaltou que a explosão de contágios leva invariavelmente a uma "sopa de mutações". "Se uma mutação favorece a transmissibilidade do vírus, ela começa a ganhar a corrida", disse.

Assim como foi identificada uma variante do coronavírus na região de Manaus, outras mutações já foram encontradas na Índia. Uma delas, a cepa indiana B.1.617.2, já foi identificada no Brasil, no estado do Maranhão. O governo do estado confirmou, ontem, os seis primeiros casos no país. Mas, para Nicolelis, o Maranhão não deve ser a única "porta de entrada" no país para a variante indiana.

"A grande preocupação era evitar que essa variante chegasse ao Brasil porque tem causado um estrago tremendo na Índia. A identificação desses primeiros casos no Maranhão sugere que, primeiro: não deve ser a única porta de entrada; imagino outros relatos nos próximos dias, mas gera uma preocupação muito grande porque é uma variação de interesse", afirmou.

O neurocientista declarou que, como o Brasil renunciou fazer o monitoramento e rastreamento de casos por testagem, não é possível saber se já há outros casos de contaminação pela cepa indiana no país.

"Se você tem uma porta de entrada, um porto, aeroporto conectado a um hub rodoviário, é uma questão de dias para se espalhar uma nova variante", disse. "Foi o que aconteceu: a variante que aparece na Califórnia apareceu em Minas Gerais antes de chegar na costa leste americana".

Nicolelis também disse acreditar que a cepa indiana não será a última a ser descoberta nesta pandemia. "Ela é a pauta do momento. Vamos ouvir ainda falar de outras variantes vindas da Índia e do Brasil".

Variantes, vacinas e medidas

A OMS (Organização Mundial da Saúde) informou ontem, por meio de um comunicado, que as vacinas já desenvolvidas contra o coronavírus são eficazes contra todas as novas variantes do vírus. Apesar de dizer que esta é uma "boa notícia", Nicolelis declarou não ser difícil que uma destas novas cepas desenvolva novas mutações e escape da cobertura das vacinas.

Ele explicou que a linhagem da variante indiana, identificada pelo prefixo B.1.617, já tem três versões diferentes: a B.1.617.1, a B.1.617.2 e a B.1.617.3. As mutações acontecem principalmente na proteína responsável pela ligação do vírus com a célula humana.

"Para que ela [a cepa] possa gerar algo que possa escapar da cobertura das vacinas, não é algo difícil. Existe uma probabilidade e existe essa preocupação. Quanto mais variantes com alta transmissibilidade existem em um caldo de cultura, que o Brasil e a Índia se transformaram, maior a chance de gerar uma variante que escape da cobertura", disse.

A OMS fez um alerta para o Brasil, quer saber o que o país está fazendo. Nós não vamos sair dessa crise sozinhos, nenhum país vai sair da crise sozinho. Ou nós saímos todos juntos, ou não saímos.

O médico ainda criticou uma medida anunciada pelo CDC (Centro de Controle e Prevenção) dos Estados Unidos, que liberou pessoas que estiverem completamente vacinadas de usarem máscaras em ambientes externos no país. "É muito cedo", afirmou Nicolelis, que classificou o parecer como "completamente estranho". "Não sabemos o que vai acontecer".

Consumismo e instinto de sobrevivência

O neurocientista relacionou a dificuldade de as pessoas cumprirem com as medidas de isolamento ao modelo de vida que, principalmente no mundo ocidental, prioriza o prazer e o consumismo.

No mundo ocidental, é como se o hedonismo e o consumismo tivessem se transformado em algo mais relevante para a espécie humana que o instinto de sobrevivência.

Para ele, nós "criamos uma sociedade em que certos comportamentos são tão poderosos em sincronizar a mente das pessoas que, mesmo confrontados com o risco mortal, elas não conseguem sair do que chamo dessa 'brain net', essa rede de cérebros que se sincroniza em uma visão de mundo do que é a vida".

"E os riscos de um vírus que está matando milhões mundo afora não são equiparados, na mente dessas pessoas, com o prazer, com o comportamento que traz felicidade, excitação, seja o que for", afirmou.

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