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Covid: Com SUS lotado, famílias acumulam dívidas impagáveis na rede privada

Hermenegildo Tenório da Silva morreu no dia 8 de abril e sua esposa, Lidiane Peres Tenório, abriu um financiamento coletivo para pagar as dívidas hospitalares - Arquivo pessoal
Hermenegildo Tenório da Silva morreu no dia 8 de abril e sua esposa, Lidiane Peres Tenório, abriu um financiamento coletivo para pagar as dívidas hospitalares Imagem: Arquivo pessoal

Carolina Marins

Do UOL, em São Paulo*

30/05/2021 04h00

Quando Hermenegildo Tenório da Silva teve os primeiros sintomas da covid-19, ele resistiu à internação. Seu medo, além da doença, era não ter dinheiro para pagar a estadia no hospital em que estava. Mas naquele final de março, os hospitais públicos já estavam lotados e sua vaga no SUS nunca chegou. Ele morreu dez dias depois em 8 de abril passado, aos 48 anos. A primeira conta foi apresentada à família: mais de R$ 125 mil, e outros boletos continuam chegando até hoje.

Gildo, como também era conhecido, contraiu o novo coronavírus poucos dias depois da esposa, Lidiane Peres Tenório, 42, já no fim de março. Ambos procuraram o pronto-atendimento do hospital Villa-Lobos da Rede D'Or São Luiz, no bairro da Mooca, apenas para medicação. Lidiane, no entanto, estava com 50% do pulmão comprometido e precisou ser internada para observação.

Ele sentiu dores do peito enquanto acompanhava a esposa e foi internado em caráter emergencial. Lidiane tinha plano de saúde pela empresa em que trabalha como professora —o marido estava desempregado e sem convênio médico. Em estado mais grave, Gildo precisou de um leito de UTI, em que a diária custava cerca de R$ 16 mil.

"Meu marido ficou desesperado. Como que a gente ia pagar um dinheiro desse?", conta Lidiane. "Ele não quis ficar, assinou a própria alta. No outro dia, passou mal de novo, porque estava muito ruim, e voltou para o hospital. Chegando lá, já não tinha o que fazer, ele já foi internado e intubado".

A pedido da família, Gildo entrou para a lista do Cross (Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde) para uma vaga no SUS. Porém, a vaga nunca chegou. Até que seu estado deteriorou a ponto de não poder mais ser transferido. Gildo passou dez dias internado, gerando uma conta de R$ 125.985,28.

Desde o começo a gente falou que não tinha dinheiro e não ia conseguir pagar, mas não tinha o que fazer porque ele não podia ser nem removido"

Lidiane Peres Tenório

Hermenegildo Tenório da Silva morreu no dia 8 de abril e a família tem agora uma dívida de quase R$ 300 mil em hospital - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Hermenegildo Tenório da Silva morreu no dia 8 de abril e a família tem agora uma dívida de quase R$ 300 mil em hospital
Imagem: Arquivo pessoal

O primeiro boleto chegou quatro dias após a morte. O mais caro, de R$ 125 mil, já venceu no último dia 10 de maio e juros estão correndo desde então. Também chegaram os valores do atendimento na enfermaria, no pronto-atendimento e fisioterapia.

Por meio de ligação, o hospital comunicou Lidiane de que ainda enviarão os valores das diárias dos médicos, que ela não sabe a quanto pode chegar.

"Não temos condição de pagar, mesmo se parcelar esses valores". Em meio ao desespero das dívidas, Lidiane não teve tempo nem de viver o luto pela perda de sua "alma gêmea", como ela mesmo diz. Gildo deixou uma filha de 15 anos.

Em solidariedade, amigos começaram a ajudar com alguns dos custos. Colegas de trabalho de Lidiane sugeriram abrir um financiamento coletivo na internet, algo que até então ela não conhecia. A publicação arrecadou até agora R$ 15 mil dos R$ 300 mil necessários.

Pedidos de ajuda na internet

O caso de Lidiane e de Gildo não é isolado. Uma pesquisa rápida em sites de financiamentos coletivos mostra diversos pedidos de ajuda com contas hospitalares.

As histórias costumam ser parecidas: ou não havia vaga no SUS ou o plano de saúde recusou arcar com a internação. Há também quem, assim como Gildo, procurasse o hospital privado apenas para atendimento de pronto-socorro e acabava internado já em estado grave.

Foi o que aconteceu com a família de Antonio Marcos Degi, que não tinha plano de saúde quando buscou atendimento no Hospital São Camilo apenas para fazer exames. Ele possuía uma reserva de dinheiro para emergências como aquela, mas o valor foi insuficiente para os 19 dias que passou internado, 17 deles na UTI.

Seu filho, o estudante de astronomia Lucas do Nascimento Degi, 24, conta que o pai tinha muito medo da doença, principalmente porque sofria de problemas respiratórios. Desde o início da pandemia, ele já usava duas máscaras e saía apenas para o essencial. Ainda assim, não conseguiu impedir que ele e a esposa Solange se contaminassem.

Meu pai não gostava de correr riscos. Ele sempre falava: 'o seguro morreu de velho'. Infelizmente, hoje em dia, aparentemente ninguém é mais seguro no Brasil"

Lucas do Nascimento Degi

Antonio Marcos Degi, 55 anos, e sua esposa Solange do Nascimento Degi, 52 anos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Antonio Marcos Degi, 55 anos, e sua esposa Solange do Nascimento Degi, 52 anos
Imagem: Arquivo pessoal

Ele foi internado no dia 13 de abril, no auge dos casos e mortes da covid-19 em São Paulo e no Brasil. Observando a situação do sistema público de saúde, a família optou por mantê-lo no hospital particular, apesar dos custos. Naquela época, a cidade de São Paulo tinha mais de 85% dos leitos de UTI ocupados e pessoas já haviam morrido na fila de espera por vagas.

Antonio Marcos não resistiu às complicações da covid-19 e morreu no dia 1° de maio, deixando uma série de planos inacabados.

"Ele estava com 55 anos, trabalhou desde os 14, e nesses últimos dois anos ele se aposentou e pôde começar a viver além do trabalho. Ele tinha vários planos para os próximos anos para poder desfrutar mais da nossa companhia", lamenta o filho.

O amparo da família tem sido a rede de solidariedade que se formou entre aqueles que conheciam Antonio Marcos. O financiamento que os parentes abriram para custear as despesas já está perto da metade. A meta é arrecadar R$ 317 mil até o dia 21 de junho para pagar à vista os custos da internação e assim garantir um desconto de 12%.

Hospitais precisam ser transparentes com valores

Segundo a presidente da Comissão de Direito Médico e de Saúde da OAB-SP, Juliane Hasse, não há nestes casos muito o que fazer para evitar a dívida e a melhor opção é tentar negociar com o hospital a forma de pagamento.

"É uma situação muito delicada porque o hospital não pode negar o atendimento, mas também o atendimento tem que ser pago porque não é feito via SUS ou via convênio. É uma prestação de serviço", diz.

Porém, é importante que o hospital seja transparente quanto às suas tabelas de preço e não deixe os familiares sem conhecimento do valor que a dívida pode atingir, como ocorreu com a família de Hermenegildo.

O hospital não tem como estimar quanto vai ficar no final, até porque não sabe quais tratamentos o paciente vai precisar e quanto tempo vai durar a internação. Mas tabela de preço tem que ser de livre acesso a qualquer pessoa"

Juliana Hasse, presidente da Comissão de Direito Médico e de Saúde da OAB-SP

Em nota enviada ao UOL, a direção do Hospital Villa Lobos disse ter entrado "em contato com Sra. Lidiane, esposa do Sr. Hermenegildo da Silva, colocando-se à disposição para quaisquer esclarecimentos".

E acrescenta: "A cobrança das diárias foi feita seguindo os padrões habituais: com transparência e em contato diário com os familiares, sendo que tanto os valores finais assim como as formas de pagamento já foram apresentados a eles".

Já no caso de planos de saúde que se recusem a arcar com as despesas médicas da internação, a advogada orienta que os pacientes se informem sobre os motivos por trás da recusa e se não está ocorrendo algo indevido, como prazos de carência, "que não é cabível nesse caso porque é uma situação de urgência".

"O beneficiário que está com dificuldades de ser atendido, seja através de internação, seja através de teste de covid. Ele pode ir até o Judiciário, buscar uma medida que obrigue a operadora, ser reembolsado ou receber uma indenização". Fazer uma denúncia na ANS (Agência Nacional de Saúde) também é uma opção.

*Colaborou Beatriz Gomes, do UOL, em São Paulo.

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