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Descoberta no AM, variante P.1 responde por 9 em 10 casos de covid no país

Médicos atendem paciente com covid-19 em Manaus, Amazonas - BRUNO KELLY/REUTERS
Médicos atendem paciente com covid-19 em Manaus, Amazonas Imagem: BRUNO KELLY/REUTERS

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

31/05/2021 04h00

O Brasil se tornou epicentro da pandemia de covid-19 no início deste ano, com colapso hospitalar em vários estados. Parte da culpa é sempre atribuída ao surgimento das novas variantes. O tema ganhou força com o descobrimento da P.1 no Amazonas, em janeiro, que teve relação direta com a alta incidência da doença no estado.

A variante se espalhou pelo Brasil e hoje responde por nove em cada 10 casos de covid-19. Mas ela não é a única, e desde o início da pandemia, no Brasil circulam ou circularam pelo menos 50 linhagens do novo coronavírus, algumas que são, na verdade, variantes (ou seja, têm mudanças mais consolidadas que uma linhagem e com "assinatura" genética).

Segundo dados disponibilizados na Rede Genômica Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), somente no estado do Rio de Janeiro já foram identificadas 43 linhagens diferentes em amostras analisadas até abril — o maior número para um estado. Em São Paulo foram 37.

Essas mutações fizeram com que, ao longo dos meses, o coronavírus fosse mudando de cara no Brasil e hoje seja dominado pela variante P.1 em um percentual inédito.

Frequência das principais linhagens do SARS-Cov-2 por mês de amostragem - Rede Genômica Fiocruz/GISAID/Divulgação - Rede Genômica Fiocruz/GISAID/Divulgação
Frequência das principais linhagens do SARS-Cov-2 por mês de amostragem
Imagem: Rede Genômica Fiocruz/GISAID/Divulgação

Mudanças de perfil

Segundo a Fiocruz, no começo da pandemia, ainda em março de 2020, a maioria das infecções ocorria pela linhagem B.1.1.28, com 171 (ou 31%) das amostras analisadas.

Um mês depois, ela perdeu o topo para a B.1.1.33 — linhagem que teria uma pequena evolução em relação à rival. Até setembro do ano passado, elas duas foram se revezando na liderança e dividindo o protagonismo.

Foi quando surgiu a P.2, descoberta originariamente no Rio de Janeiro, ainda em agosto. A partir dali, ela foi ganhando corpo até que, em dezembro, tomou a ponta como a variante que mais infectava no país: 41% do total de amostras naquele mês.

Mas tudo iria mudar com a chegada da variante P.1, que acumula um poder de infecção duas vezes maior e potencial de escape imunológico. Em menos de três meses, ela tomou a dianteira, passando a liderar desde fevereiro. Em abril, 91% das amostras sequenciadas eram da P.1, que conferem a ela um domínio inédito de uma variante.

"A P.1 tem mutações importantes que permitem que ela tenha melhor ligação ao receptor humano e maior resistência à neutralização pelos anticorpos prévios. Outras mutações ao longo do genoma podem ser também importantes, como a deleção na NSP6 [proteína que tem papel na multiplicação do vírus dentro das células]. Também é importante lembrar a maior carga viral observada nos pacientes, que foi até 10 vezes maior", afirma o virologista da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) Amazônia e pesquisador responsável pela descoberta da P.1, Felipe Naveca.

"Fora isso, temos que pensar que a P.1 emergiu em um período de férias, o que pode ter facilitado sua disseminação pelo país, promovendo múltiplas entradas em vários estados, em especial pontos de ligação, como Rio e São Paulo", completa.

Frequência das principais linhagens do SARS-Cov-2 por mês de amostragem e região geográfica - Rede Genômica Fiocruz/GISAID/Divulgação - Rede Genômica Fiocruz/GISAID/Divulgação
Frequência das principais linhagens do SARS-Cov-2 por mês de amostragem e região geográfica
Imagem: Rede Genômica Fiocruz/GISAID/Divulgação

Variantes recém-descobertas

Linhagens surgem de mutações — que são alterações genéticas na estrutura do vírus. Elas podem ocorrer e conferir alguma vantagem adaptativa, como melhor transmissibilidade ou capacidade de furar imunidade adquirida. Quando essas mudanças oferecem maior possibilidade de reprodução, acabam se consolidando em substituição às outras cepas. Foi o que ocorreu com a P.2 e, depois, com a P.1.

Segundo Fernando Spilki, virologista e professor da Universidade Feevale (RS), para que uma nova variante se consolide, alguns critérios têm de ser observados.

"Primeiro, tem de haver uma clara distinção das linhagens e variantes existentes nas chamadas análises filogenéticas — que são as 'árvores' que montamos para avaliar o parentesco de genomas. Essa variante deve se comportar como um 'galho' novo e separado", explica.

Outro ponto citado por ele é a necessidade de suporte epidemiológico — ou seja, uma possível relação entre casos — e geográfico — que é a presença de forma consistente em uma determinada região no início da descoberta.

"É preciso haver evidências da circulação em uma determinada região, com um número considerável de casos. E, para linhagens, falamos de mutações características, que podem servir como uma 'assinatura', um conjunto de características únicas dessa nova variante", explica.

Nesse contexto, ele explica que ainda é cedo para se preocupar com a descoberta, nos últimos dias, da variante P.4 — que circula no interior de São Paulo — e com o diagnóstico da cepa indiana no Maranhão e em São Paulo.

A P.4 seguramente está se transmitindo já de forma sustentada, mas não sabemos se vai se consolidar. Já a variante Indiana, por enquanto, só temos casos importados, ela não circula."
Fernando Spilki, virologista e professor da Universidade Feevale

Evolução de mutações preocupa

Mesmo sem novas variantes, as existentes no Brasil seguem em franco processo de evolução com suas mutações.

As duas cepas nacionais P.1 e P.2, explica Spilki, já apresentam mutações que podem resultar em mais problemas. "A P.1, por exemplo, deu origem a P.1-like. Os ramos dessas duas variantes que estão surgindo também são tema de investigação hoje. Há outras variantes possíveis em estudo, mas ainda precisamos fechar mais dados. Mas a P.1 e a P.2 já produz suas linhagens", diz.

A única solução para conter o surgimento de novas variantes é a adoção de medidas de distanciamento social efetivas ou pela vacinação — o que, no caso do Brasil, segue a passos lentos. "Se a imunização fosse aplicada da maneira e da velocidade adequadas, iríamos ter menos riscos [de mutações]. Mas como a gente vacina muito lento, podemos ter problemas", diz.

Segundo Naveca, o cenário atual do Brasil fornece um ambiente ideal para que novas variantes surjam.

Se não pararmos de dar chance ao vírus de evoluir, podemos pagar um preço ainda mais alto. Ainda não existe nada no sentido de furar imunidade de vacina, mas se dermos chance, isso não pode ser descartado."
Felipe Naveca, virologista e pesquisador da Fiocruz Amazônia

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