PUBLICIDADE
Topo

Saúde

Apagão faz SUS ignorar internações em alta e atrasa respostas a epidemias

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

22/12/2021 04h00

O apagão de dados após o ataque hacker aos sistemas do Ministério da Saúde impede, há mais de dez dias, o SUS (Sistema Único de Saúde) de ter informações em tempo real sobre a curva crescente na busca de pessoas a hospitais pelo país com sintomas gripais.

Segundo fontes ouvidas pelo UOL, a falta de informações afeta de forma decisiva a avaliação de como está se comportando não só a covid-19, mas também a gripe —que tem gerado uma alta de hospitalizações em muitos estados.

Sem elas, o SUS atrasa seu poder de respostas em meio à circulação de dois vírus ao mesmo tempo —que muitas vezes causam sintomas semelhantes nos infectados.

Além dos dados de atendimentos nos hospitais e internações, os estados relatam instabilidade também nas notificações de casos e mortes por covid, além do andamento da campanha de vacinação nesse período. Os sites do ministério e o ConecteSUS saíram do ar em 10 de dezembro.

Procurado, o Ministério da Saúde afirmou que "atua com agilidade para o restabelecimento de todas as plataformas impactadas o mais breve possível".

No fim da tarde de ontem, a pasta informou à imprensa que o "e-SUS Notifica foi restabelecido" — o e-SUS monitora os casos mais leves de síndrome gripal e os raros casos graves de covid-19 que não cursam com SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave).

Em nota ao UOL, a pasta disse que o acesso ao Sivep-Gripe —que monitora casos graves e mortes de covid-19 e Influenza— "está normalizado" (leia mais abaixo). Profissionais de saúde e especialistas, entretanto, dizem que ainda há graves problemas nos dois casos.

Publicações oficiais afetadas

"Sem os dados, a gente não sabe se os casos de SRAG estão aumentando e se esses casos são covid ou influenza [gripe]", diz Isaac Schrarstzhaupt, analista de dados e coordenador na Rede Análise Covid-19.

Sem dados completos, publicações oficiais sobre gripe, covid-19 e internações por SRAG também foram afetadas. Um exemplo é o boletim semanal da covid-19, produzido pelo Ministério da Saúde, que teve sua última versão publicada no dia 4. Os dados do boletim da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) também estão atrasados por conta do apagão.

Schrarstzhaupt diz que a última atualização do Sivep-Gripe ocorreu no dia 1° de dezembro. Sivep é a sigla de Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe. Ele foi criado em 2000 para monitoramento do vírus influenza no país, a partir de uma rede de vigilância.

"O Sivep tem um delay com os dados, pois demoram para digitar. Para prever cenários, existe o nowcasting do Infogripe [plataforma da Fiocruz] que tenta compensar esse atraso. O último boletim que eles conseguiram fazer foi o da semana epidemiológica 48 [entre 28/11 e 4/12]", conta.

Desde então, não há como saber se há curvas crescendo ou caindo de covid, por exemplo.

Temos os dados consolidados apenas com as Secretarias Estaduais da Saúde, e mesmo assim algumas estão sem enviar dados há alguns dias. São eles que podem indicar se estamos iniciando uma onda de covid misturada nessa epidemia de influenza."
Isaac Schrarstzhaupt, coordenador na Rede Análise Covid-19

Registro de dados de vacinação também apresentou instabilidade, segundo estados e especialistas - Luis Alvarez/Getty Images - Luis Alvarez/Getty Images
Registro de dados de vacinação também apresentou instabilidade, segundo estados e especialistas
Imagem: Luis Alvarez/Getty Images

Secretários cobram retomada

Em nota à reportagem, o Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde) confirmou que o ataque "impactou fortemente o monitoramento das duas epidemias [covid-19 e influenza H3N2]."

Segundo o órgão, nos primeiros dias após o ataque, houve paralisação do sistema Sivep-Gripe e os casos de SRAG não puderam ser notificados —sejam aqueles causados pelo coronavírus, da gripe ou outros vírus respiratórios.

Os casos leves de influenza são monitorados somente em unidades sentinela, onde este também é o sistema utilizado. A alimentação do sistema já foi retomada, mas o acesso dos estados às informações através de API ainda não foi retomado."
Conass, em nota do dia 20 de dezembro

A API é uma espécie de túnel virtual por onde passam os dados entre dois sistemas informatizados, de forma automática. Sem ela, os estados precisam baixar os dados manualmente, em arquivo .CSV (planilha de Excel), por exemplo.

"O Conass está cobrando constantemente em relação ao restabelecimento do e-SUS Notifica e do ConecteSUS", finaliza o texto.

Como resposta às queixas do Conass e de especialistas, o Ministério da Saúde alegou, em nota enviada ao UOL por volta das 17h30 de ontem, que "o e-SUS Notifica foi restabelecido e o acesso às APIs do Sivep-Gripe está normalizado, desde a última sexta-feira (17)".

"A disponibilização dos acessos é realizada pela Secretaria de Vigilância em Saúde para os estados", diz o texto.

Entretanto, Isaac Schrarstzhaupt disse na noite de ontem que o acesso ao e-SUS para usuários externos segue fora do ar. "Agora os estados que dependiam do e-SUS para notificar ainda terão um trabalho de jogar os 11 dias represados", afirma. "Eu continuo sem acesso algum."

O Conass também informou hoje que os estados continuam sem acesso.

Alta é percebida pelo país

O apagão de dados ocorre em um momento em que estados e médicos brasileiros relatam alta no número de busca de pacientes por serviços de hospitais.

Isaac aponta ainda que gráficos produzidos por uma pesquisa que a Universidade de Maryland em parceria com o Facebook sinalizam, em tempo real, um aumento nos registros de pessoas com sintomas gripais.

"Nessa pesquisa, as pessoas respondem se tem sintomas, e vimos que tem vários estados onde as pessoas estão respondendo que estão com febre, tosse e dificuldade de respirar. É um dado adjacente, indicativo, que deveria andar junto com os dados robustos de testagem e hospitalizações. Mas eles indicam que pode estar havendo um aumento [de casos]", aponta.

Médicos do país relataram também ao UOL uma intensa alta na procura de pacientes nos pronto-socorros, e sugerem que isso está ocorrendo especialmente pelo avanço da influenza.

"Os relatos de casos de síndrome gripal só aumentam. Nos grupos de WhatsApp, vários médicos estão se queixando do alto volume de atendimentos de pacientes com quadro gripal e ainda assim não há um posicionamento oficial ou uma resolução do Ministério da Saúde. A sensação que dá é que estamos largados à própria sorte", diz Bruno Ishigami, infectologista no Hospital Oswaldo Cruz, do Recife.

Enquanto profissional de saúde, a minha impressão é que as autoridades do governo federal não se importam com a saúde da população. Pelo contrário, continuam a alimentar e incentivar os negacionistas e não demonstram nenhuma ação coordenada para melhorar a nossa atual situação."
Bruno Ishigami, infectologista

Em Porto Velho, a situação é semelhante em hospitais públicos e privados. "O número de pacientes buscando o hospital está muito maior que em outros anos, a maioria deles com febre. O número de atendimento está igual ao pico da covid aqui", diz a infectologista Lourdes Borzacov.

Em Maceió, os profissionais da saúde também já percebem a alta. "Temos recebido muitos pacientes com quadros gripais, alguns necessitando internação. Estou com três internados: um com covid e dois com influenza", afirma Artur Gomes Neto, diretor da Santa Casa. "Todo o cuidado é pouco."

O Observatório Covid alertou, em nota, ter percebido que o "número de hospitalizações de casos suspeitos de covid-19 no município de São Paulo tem crescido rapidamente desde o início de dezembro". Entretanto, diz o texto, "até o momento, não é possível afirmar, com segurança, qual o agente infeccioso responsável por este marcante aumento de hospitalizações."

Segundo o texto, três hipóteses "parecem as mais plausíveis:

  1. Estamos diante de nova subida de casos de infecção por SARS-CoV-2, desta vez causados, predominantemente, pela variante ômicron;
  2. Estamos diante de uma epidemia de influenza A (H3N2, linhagem darwin), como observado no Rio de Janeiro;
  3. Por fim, estamos em um cenário de combinação dos efeitos da circulação desses dois vírus."

Saúde