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Coronavírus

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3 meses

É impossível vacinar as pessoas a cada três meses, diz infectologista

Na imagem: homem israelense recebe a quarta dose de vacina contra a covid-19, em Jerusalém - Gideon Markowicz/JINI via Xinhua
Na imagem: homem israelense recebe a quarta dose de vacina contra a covid-19, em Jerusalém Imagem: Gideon Markowicz/JINI via Xinhua

Taíssa Stivanin

18/01/2022 10h23Atualizada em 18/01/2022 10h26

A chegada da ômicron, mais contagiosa, e a conclusão de que as vacinas agem por tempo limitado contra a transmissão do SARS-Cov-2, as infecções trazem novos questionamentos: como controlar a propagação do vírus evitando que os hospitais fiquem saturados?

O infectologista francês Benjamin Davido, consultor para as questões ligadas ao covid no hospital Raymond-Poincaré, em Garches, na região parisiense, lembra que a proteção das vacinas a base de RNA mensageiro tem prazo de validade e precisa ser reforçada com frequência, principalmente com a chegada de uma nova cepa, como é o caso da ômicron.

Estudos mostram que a proteção contra uma infecção pela ômicron dez semanas após a terceira dose, cai, em média de 75% para 45%.

As vacinas evitam formas graves e mortes por um período ainda indeterminado, mas, não impedem a contaminação. O laboratório Pfizer já anunciou que prepara um imunizante específico contra a variante.

Além disso, diz o infectologista francês, há dúvidas sobre o nível de ativação da memória imunológica proporcionada pelo produto, essencial para proteger o indivíduo contra infecções.

"Não podemos vacinar toda a população a cada três meses, é impossível. Ainda mais em países com acesso restrito à vacinação, muitas variantes circulando e reticências em relação à imunização", ressalta Davido.

Vacinas produzidas com proteínas recombinantes, utilizadas em produtos como a Novavax, por exemplo, também podem ser uma arma importante na luta contra a covid-19, principalmente se atuam no reforço da imunidade celular, mediada pelos linfócitos T e seus subtipos.

Elas utilizam uma tecnologia mais clássica, e seu impacto na resposta imunológica ainda precisa ser avaliado.

Gestão a longo prazo

O infectologista francês lembra que as vacinas a base de RNA continuam sendo um avanço científico importante, mas a duração da proteção é um aspecto que não pode ser descartado na gestão da epidemia a longo prazo.

Ele também ressalta que a maioria dos pacientes hospitalizados são não vacinados ou tomaram a última injeção há mais de meses e têm fatores de risco.

Por isso, diz, é fundamental proteger os mais vulneráveis, que continuarão a ser alvo do SARS-CoV-2, apesar do acesso à imunização, e ficarão mais expostos com a diminuição das medidas restritivas e dos lockdowns.

Para Davido, também é importante que a vacinação esteja aliada a tratamentos complementares.

"Essa doença não é uma gripe, longe disso, mas teremos provavelmente ondas sazonais e as mesmas ferramentas que já temos contra a gripe: uma vacinação anual e antivirais para os pacientes que precisam e são mais frágeis", afirma.

O vírus, lembra, não desaparecerá. Haverá novas ondas e novas variantes devem surgir, embora uma epidemia "não dure para sempre".

Ômicron é mais leve?

A situação na África do Sul, onde a ômicron foi descoberta em novembro, e no Reino Unido, mostram que a nova cepa provoca menos hospitalizações. Pesquisas demonstram que é provável que ela atinja menos os pulmões.

Nesse contexto, a gestão da epidemia pode mudar, lembra o infectologista francês.

"Uma questão que podemos colocar é se a ômicron não está reescrevendo a história natural dos vírus. Em geral, existe uma atenuação da virulência ao longo das ondas epidêmicas. Em sua forma original, o novo coronavírus matou primeiro os mais vulneráveis, e isso é uma espécie de seleção natural", diz.

Benjamin Davido lembra que o vírus, para se propagar de forma eficaz, deve se adaptar e driblar a proteção adquirida pela vacinação e as mudanças de hábitos, que incluem o uso das máscaras e o distanciamento social.

Para isso, o SARS-CoV-2 deve perder as características de um vírus letal e se transformar em um vírus com proteínas que o ajudem a aderir melhor às células do hospedeiro e contaminá-lo com mais facilidade.

"Na realidade, uma das principais características de um vírus que se propaga nessa velocidade, e que já superou a delta e que já havia superado outras variantes, é a atenuação da virulência em detrimento da contagiosidade", explica.

Imunidade dupla

Essa foi, aliás, uma das hipóteses levantadas pelos cientistas, diz o infectologista, lembrando que a estratégia da vacinação foi acertada, com o objetivo de proteger as pessoas que correm risco de desenvolver formas graves.

"Uma das possibilidades, e precisamos nos preparar para ela, é que a ômicron continuará a matar, todos anos, pessoas de determinados grupos. Será necessário considerar que esse número é aceitável e conviver com essa ideia, dentro de uma estratégia de proteção e vacinação", diz.

O infectologista francês não descarta a possibilidade, otimista, da aquisição de uma imunidade "dupla", que alie vacinação e infecções naturais.

Há esperança, diz, que o SARS-CoV-2 se torne endêmico neste ano e essa seja a última onda. Isso significa que, a exemplo da gripe, ele se tornará um vírus sazonal, atingindo certas populações mais frágeis.

"Dificilmente teremos um botão de liga e desliga. O vírus não vai desaparecer. É, provavelmente, um vírus que encontrará um alvo dentro da população e que veio para ficar", afirma.

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