O que a primeira epidemia de pólio nos EUA pode ensinar sobre o surto de zika

Donald G. Mcneil Jr.

  • Felipe Dana/AP

Há exatos cem anos, a cidade de Nova York foi atingida por uma das piores epidemias já vistas: o primeiro surto explosivo nos Estados Unidos de paralisia infantil – doença posteriormente conhecida como poliomielite.

Era uma enfermidade assustadora, desconcertante. A maioria das vítimas era de crianças pequenas. Inicialmente, elas nem pareciam terrivelmente doentes; na maioria das vezes acordavam febris e irritadas, dizendo que o pescoço doía.

Logo, porém, em vez de voltarem à cama, só conseguiam se arrastar pelo chão, com as pernas dobradas atrás delas. Em questão de horas, em alguns casos, as crianças lutariam para respirar e, depois, morriam.

Antes do final daquele ano, seis mil haviam morrido de pólio, na maioria crianças, e 21 mil ficaram temporária ou permanentemente paralisadas. Aquele surto se limitou à região Nordeste dos EUA, mas estabeleceu um padrão.

A pólio é uma doença de clima quente, e aconteceram epidemias de verão frequentes, mas irregulares, até que as vacinas deram cabo daquela era. Durante os 60 anos seguintes, crianças e adolescentes com as colunas retorcidas e pernas paralisadas eram comuns nos Estados Unidos.

Agora que o vírus zika chegou à porção continental dos EUA e que a pólio ressurgiu na África depois de dois anos sem um caso, pode ser instrutivo reexaminar a primeira epidemia nova-iorquina. Ela se caracterizava por muitos dos problemas que confundiram nossa reação à epidemia da zika: boatos, preconceito étnico e medidas ineficazes.

Em 1916, com a causa da pólio ainda vaga, a cidade reagiu como fazia com a disenteria, a febre tifoide e a tuberculose: as autoridades enfatizavam ferozmente a higiene. Trabalhadores lavavam diariamente as ruas com 15 milhões de litros de água e pediam que os nova-iorquinos limpassem a casa. Usem esfregões úmidos, não vassouras secas, diziam. Espalhem serragem molhada ou folhas de chá antes de varrer.

Se a pólio fosse um hantavírus, transmitido pela urina seca de rato, esse poderia ter sido um conselho sensato, mas ela é transportada pelas fezes, e lavar as ruas pode ter servido apenas para espalhar o vírus pelas sarjetas.

O conselho ruim veio diretamente do alto. Como havia feito pesquisa com o modelo animal errado – um tipo de macaco que não podia ser infectado oralmente – o Dr. Simon Flexner, diretor do famoso e então recente Instituto Rockefeller, insistia que a pólio infectava pelo nariz, através do pó ou de espirros.

Dizia-se que cachorros e gatos eram os transmissores, e os assustados donos acenavam para as carroças da Sociedade para a Prevenção da Crueldade aos Animais para entregar seus bichos ou simplesmente os soltavam. As delegacias de polícia foram tomadas por garotos arrastando vira-latas em busca de recompensas. A SPCA e a polícia mataram 72 mil gatos e oito mil cães.

Os cidadãos bombardeavam a Secretaria de Saúde da cidade com suas próprias teorias sobre a causa. Segundo a revista "Smithsonian", os suspeitos eram: mosquitos, esgoto, o Canal Gowanus, lençol freático, casquinhas de sorvete, escavações, moscas, percevejos, pó das ruas, flocos de milho, metrô, parasitas da água, utensílios de cozinha de metal, gases de fábrica de munição, carteiras escolares, mercúrio, roupa branca, vulcões, eletricidade, queimadura solar, roupas de cama usadas, comida estragada, garrafas sujas de leite, moedas na boca e tabaco.

Da mesma forma que acontece com o zika hoje, um pesticida era amplamente acusado: um herbicida contendo arseniato de chumbo.

Muitos acusavam os imigrantes. Na década de 1840, os irlandeses foram culpados pelo cólera, e, na de 1890, os judeus, pela tuberculose. A primeira criança a ficar paralítica morava num bairro italiano modesto a leste do Canal Gowanus, no Brooklyn. A pólio logo se espalhou por Pigtown, área de criação de porcos, e a maioria dos 20 primeiros casos se deu entre crianças italianas. 

Funcionários da saúde invadiam os bairros italianos, pregando placas de quarentena nas portas. Na verdade, os moradores podem ter sido as primeiras vítimas inocentes. Não havia um grande surto na Itália, nem haveria até a década de 1930. Os inspetores da ilha Ellis, então principal porta de entrada dos Estados Unidos, não informaram epidemia de paralisia entre os recém-chegados.

A cepa letal poderia ter origem norte-americana. Segundo David M. Oshinsky, autor de um livro sobre a doença, um surto de pólio em um minúsculo vale nos arredores de Rutland, Vermont, matou 18 e deixou 50 pessoas paralíticas em 1894. 

Outra teoria – não comprovada, e com alguns indícios em contrário – é a de que o vírus fugiu do laboratório de Flexner, onde ele criava cepas híbridas de humanos e macacos. 

 

Maior ainda do que a discriminação contra os italianos era aquela contra todas as crianças de Nova York. Fora da cidade, elas eram objetos de horror.

Enquanto as pessoas fugiam com seus filhos, cidades entre Hoboken, em Nova Jersey, até Boston colocaram policiais nas plataformas de trem e balsas, mandando de volta qualquer pessoa com menos de 16 anos. Nas rodovias de Long Island, "inspetores de saúde" – às vezes basicamente justiceiros – mandavam parar carros em busca de crianças.

O Serviço de Saúde Pública emitia "certificados de saída" para crianças consideradas livres de pólio; as autoridades emitiram 5.225 num único dia de julho. Até isso poderia dar errado. Autoridades de Schodack, Nova York, anunciaram multas de US$ 50 para forasteiros com crianças e diziam que "não reconheceriam nenhum certificado, assinado por quem quer que fosse".

Na cidade de Nova York em si, as crianças eram proibidas em cinemas, bibliotecas e eventos esportivos. As escolas dominicais fecharam e os piqueniques da igreja, desfile do Dia da Independência dos EUA e festivais de santos italianos foram cancelados. Os pais eram advertidos de que crianças saudáveis podiam ir a parques, mas nunca deveriam brincar em grupos com mais de três.

As crianças doentes – até mesmo as resfriadas – viviam coisa ainda pior.

Inicialmente, usou-se a quarentena caseira, mas quando os hospitais foram destinados para essa finalidade, as crianças eram levadas embora. Em algumas, a poliomielite era diagnosticada através de uma punção lombar perigosa e dolorosa. Os resultados demoravam dias, e as crianças com febres simples eram muitas vezes trancadas com vítimas da epidemia e morriam.

Alguns hospitais deixavam as mães reconfortar os filhos assustados; alguns barravam todos os visitantes, enviando notícias citando o nome dos paralisados e mortos. Foram proibidos os funerais públicos para as vítimas.

Registraram-se reações ferozes. As famílias ricas contratavam enfermeiros particulares, então as crianças dos pobres eram levadas. Uma agressiva escola de enfermagem do Brooklyn, segundo o "New York Times", recebeu um bilhete da Mão Negra, a precursora da Máfia norte-americana: "Se vocês denunciarem mais dos nossos bebês à Comissão de Saúde, vocês serão mortos".

Cidades como Oyster Bay, em Long Island, ficaram famosas quando ricos donos de terras, entre eles o famoso presidente Theodore Roosevelt, culparam os moradores pobres italianos e poloneses pela epidemia de pólio e fizeram a polícia confiscar crianças e aplicar multas por lixo não coletado.

No fim das contas, a brutalidade não funcionou. Oyster Bay relatou nove casos a cada mil habitantes, cinco vezes acima da média de Nova York, com somente uma fração deles entre os filhos de imigrantes pobres.

Pelo contrário, o vírus era brecado anualmente pelo inverno, com os picos de epidemia sendo controlados pela imunidade de grupo e, enfim, banido pela vacina.

Tudo isso pode acontecer com o zika – embora não possa ocorrer tão rapidamente.

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