Justiça argentina investigará assassinato de Federico García Lorca

Madri, 18 Ago 2016 (AFP) - A juíza argentina argentina encarregada dos crimes cometidos durante a Guerra Civil espanhola investigará o assassinato, há 80 anos, do escritor Federico García Lorca, informou nesta quinta-feira a associação de vítimas do franquismo que fez este requerimento.

"A juíza María Servini já aceitou a denúncia e se pôs a trabalhar sobre o tema", indicou à AFP Emilio Silva, presidente da Associação para a Recuperação da Memória Histórica (ARMH).

A magistrada de Buenos Aires incluiu o caso do poeta e dramaturgo dentro da causa que, valendo-se do princípio de justiça universal, foi aberta em 2010 para investigar violações dos direitos humanos durante a Guerra Civil espanhola (1936-1939) e a ditadura de Francisco Franco (1939-1975), segundo Silva.

"Servini solicitará ao governo espanhol qualquer informação relacionada com o caso que possa existir em qualquer arquivo", acrescentou.

Disse ainda que ela poderá viajar em breve à Espanha para recolher mais informações.

A investigação é divulgada quando, esta semana, são completados 80 anos da morte de García Lorca, fuzilado em agosto de 1936 durante os primeiros dias da guerra perto de Granada (sul).

Seus restos, jogados em uma vala comum, não foram achados.

Em setembro, começará a terceira operação de busca, anunciou recentemente o arqueólogo que dirige os trabalhos.

A ARMH fez sua denúncia com base em um documento de 1965 que permaneceu "oculto" por décadas no arquivo do ministério do Interior. "No texto, pela primeira vez o Estado franquista reconhece o assassinato de Lorca", segundo Silva.

O documento, um relatório da polícia de Granada, indica que o poeta "passou pelas armas e foi enterrado muito à flor da terra".

"A impunidade que há em relação ao tema do franquismo se converteu em toda uma cultura política e este caso é muito evidente", lamentou Silva, cuja associação acudiu à Argentina ante os obstáculos para julgar os crimes na Espanha devido a uma Lei de Anistia aprovada em 1977.

Dentro de sua investigação, a juíza Servini solicitou em março passado o depoimento de cerca de vinte envolvidos que ainda estão vivos, o que espera realizar em sua futura visita ao país.

Seu pedido para deter e extraditar esses suspeitos para a Argentina foi rejeitado pela justiça da Espanha.

Em maio de 2014, a juíza visitou a Espanha para ouvir o depoimento de algumas vítimas que, por sua idade avançada, ou estado de saúde, não podiam viajar para a Argentina.

O local em que repousam os restos mortais continua sendo um mistério.

O relatório dos arqueólogos que abriram várias valas na região de Granada, onde supostamente o poeta estava enterrado, concluiu que o lugar não possui valas com capacidade mínima para conter corpos.

Os trabalhos de escavação das valas basearam-se nos testemunhos de pessoas que afirmavam que o lugar situado a 9 km de Granada era onde teriam sido fuzilados e enterrados García Lorca com dois anarquistas e um professor em agosto de 1936, um mês depois do início da Guerra Civil.

A família Lorca sempre se opôs à abertura da vala da localidade de Alfacar, mas, após a decisão judicial, anunciou que forneceria seu DNA para identificar os restos de seu parente para facilitar os trabalhos.

Garcia Lorca foi considerado o mais notável de uma constelação de poetas surgidos durante a guerra, conhecida como "geração de 27", alinhando-se entre os maiores poetas do século XX. Foi ainda um excelente pintor, compositor precoce e pianista.

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