Soldado israelense que matou palestino é declarado culpado de homicídio

Tel Aviv, 4 Jan 2017 (AFP) - Um soldado israelense que matou um palestino ferido, quando ele já estava caído sem oferecer qualquer perigo aparente, foi declarado culpado pelo homicídio, nesta quarta-feira (4), após um julgamento que rachou a opinião pública.

O julgamento do soldado Elor Azaria por homicídio em um tribunal militar começou em maio do ano passado e, nesse período, muitos políticos conservadores defenderam-no, apesar de militares de alta patente terem condenado sua atuação.

Espera-se que a sentença seja divulgada em breve. Ele poderá ser condenado a até 20 anos de prisão.

Em sua página no Facebook, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu disse ser favorável a que "Elor Azaria se beneficie de um indulto".

"Um veredicto justo, para mim, seria parecido com o que nossos filhos recebem: prisão perpétua, sem libertação antecipada", disse à imprensa Hebron Yusri al Sharif, pai do palestino morto.

"Mas, aqui, Israel julga seu próprio filho. É possível que se mostre clemente. É normal. Mas espero que haja um veredicto justo, se Deus quiser", completou.

A juíza, coronel Maya Heller, demorou mais de duas horas e meia para ler a decisão, em que criticou duramente a argumentação dos advogados de Azaria. Em nome dos três juízes do tribunal, Heller disse que não haver qualquer razão para que Azaria atirasse, já que o palestino não representava uma ameaça.

Segundo a juíza, o testemunho de Azaria mudava e era "evasivo".

A conduta de Azaria mudou drasticamente quando a juíza leu o veredicto. Vestido com um uniforme militar verde, o militar havia entrado na sala sorrindo, enquanto era aplaudido por seus familiares e simpatizantes.

ONGs aprovam decisãoMais tarde, quando a juíza leu a decisão, tanto ele quanto seus familiares pareceram abatidos. Após o veredicto, sua mãe gritou "vocês deveriam se envergonhar".

Azaria tinha 19 anos ao disparar o tiro, em março de 2016, na cidade de Hebron, na Cisjordânia ocupada.

O caso se tornou público em 24 de março, com a divulgação de um vídeo, rapidamente compartilhado na Internet.

Na gravação, feita por um ativista palestino da ONG de defesa dos direitos humanos B'Tselem, aparece Abdul Fatah Al Sharif, de 21 anos, caído no chão, ao lado de outro homem depois de - segundo o Exército - ter ferido sem gravidade um soldado com uma faca minutos antes.

Azaria lhe dá um tiro na cabeça sem que ele tenha aparentado qualquer tipo de ameaça.

Os advogados do soldado argumentaram que seu cliente poderia ter pensado que o palestino portava explosivos, mas outros afirmaram que ele já havia comprovado que o homem não carregava um cinturão com essas substâncias.

A sentença "não deve fazer que se esqueça do aparato usado pela Justiça militar israelense, que passa seu tempo escondendo os casos de palestinos mortos ou feridos por membros das forças de segurança sem prestar contas", reagiu Amit Gilutz, porta-voz da ONG.

A Anistia Internacional (AI) acredita que a condenação de Azaria seja uma "pequena luz de esperança diante da impunidade galopante", da qual se beneficiam os soldados israelenses na Cisjordânia.

"Infelizmente, esse caso é apenas a ponta do iceberg", acrescentou a Anistia em um comunicado.

A AI lembrou ter informado Israel, em setembro de 2016, de pelo menos 20 casos de palestinos mortos pelas forças israelenses sem que houvesse consequências legais.

Reações israelensesNesta quarta-feira pela manhã, dezenas de manifestantes enfrentaram a Polícia nos arredores do quartel-general militar de Israel em Tel Aviv, onde o veredicto foi anunciado.

Eles carregavam cartazes com a frase "o povo de Israel não abandona um soldado no campo de batalha".

O incidente desencadeou um intenso debate político. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu telefonou para o pai de Azaria para lhe transmitir solidariedade.

Outros políticos conservadores pediram sua absolvição e protagonizaram uma rara discussão pública entre os dirigentes políticos e o aparato militar do país.

"Este julgamento não deveria ter acontecido", declarou a ministra da Cultura, Miri Regev, acrescentando que Elor Azaria "é nosso filho".

Segundo a ministra, medidas disciplinares em sua unidade militar teriam sido "suficientes".

O ministro israelense da Defesa, Avigdor Lieberman, que manifestou seu apoio a Azaria, declarou ser contra o veredicto, mas afirmou que deveria ser respeitado. Além disso, pediu aos políticos que parem de atacar as instituições de segurança.

O chefe do Estado-Maior de Israel, Gadi Eisenkot, criticou a politização do caso e advertiu que pode prejudicar o Exército.

bur-mjs/dr/jvb.

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