Ex-presidente Rafael Correa volta ao Equador para medir forças

Guayaquil, Equador, 25 Nov 2017 (AFP) - O ex-presidente do Equador, Rafael Correa, que mantém uma disputa com seu sucessor, Lenin Moreno, pelo controle da situação, retornou ao país neste sábado (25) para defender seu partido e tentar expulsar o mandatário do movimento.

Correa chegou nas primeiras horas da manhã à cidade de Guayaquil (sudoeste), onde centenas de simpatizantes o aguardavam no aeroporto com cartazes dando as boas-vindas, enquanto seus opositores o chamavam de "delinquente".

A polícia precisou estabelecer um cordão de segurança para separar os dois grupos, que se dispersaram horas depois.

Esperava-se que o ex-presidente, que se mudou para a Bélgica depois de deixar o cargo, aparecesse na zona de chegada internacional do aeroporto José Joaquín de Olmedo em Guayaquil. No entanto, devido aos embates entre simpatizantes e opositores, o ex-presidente saiu por um hangar localizado nos arredores do terminal aéreo.

"Chegamos, Pátria querida. Cansado, mas feliz", escreveu no Twitter o ex-presidente que governou a nação por uma década.

"Que nada tire nossa alegria, nem mesmo os tempos difíceis que a Pátria e a Revolução estão passando", observou em referência à disputa dentro do partido Alianza País (AP), agora dividido entre 'morenistas' e 'correístas'.

A convenção nacional do partido acontece em 3 de dezembro na cidade de Esmeraldas (noroeste), na presença do ex-presidente, que disse em uma entrevista à AFP que a intenção da reunião é "expulsar" Moreno do partido, acusando-o de "traidor" e de governar com a direita.

"Não permitiremos que os traidores tomem a Aliança País", declarou Correa em coletiva de imprensa.

O ex-presidente acrescentou que durante o encontro serão ratificados os cargos dentro do partido do ex-chanceler Ricardo Patiño e da deputada Gabriela Rivadeneira, que foram sancionados pela comissário de ética da AP, após destituir Moreno da presidência do partido. Os dois foram substituídos em uma sessão convocada pelo presidente.

Correa afirmou que "os traidores serão expulsos", em referência a Moreno, a quem denominou de "impostor profissional" e acusou de governar com a oposição e descumprir o programa da esquerda.

Aliados no passado, Correa e Moreno se tornaram rivais políticos e disputam o controle do AP.

O destino do movimento é incerto, mas analistas apontam algumas hipóteses, entre elas o nascimento de um novo partido.

Correa "vem sentir como anda a situação, qual é a sua real capacidade de mobilização e, a partir desse ponto, tudo pode mudar", disse à AFP o analista político Esteban Nicholls, da Universidade Andina Simón Bolívar.

Para o professor, a presença de Correa torna ainda mais importante a consulta popular promovida por Moreno, que busca, entre outras coisas, eliminar a reeleição indefinida aprovada pelo ex-presidente.

"A situação de Correa vai ser resolvida no referendo, não tanto pelo peso das perguntas, mas porque vai medir a capacidade que ainda tem de mobilizar pessoas e canalizar votos a seu favor", opina Nicholls, que não descarta uma assembleia constituinte.

Al ser consultado sobre a possibilidade de criar um novo partido, Correa disse que todo dependerá dos resultados da convenção, na qual espera poder expulsar Moreno.

"Nós acreditamos que vamos ganhar essa convenção e vamos manter a Aliança País", disse Correa, assegurando que será candidato em caso de ser celebrada uma Constituinte.

Os seguidores do ex-presidente consideram indispensável que Correa "seja reeleito".

"Se for necessária uma Constituinte, os equatorianos estamos convencidos de que queremos que seja candidato", comentou à AFP Julio Flores, de 54 anos, que viajou de Quito para dividir com Correa um almoço popular na localidade de Durán.

- O descontente -O retorno de Correa ameaça selar o racha definitivo no partido no poder, cuja crise se agravou com o afastamento do vice-presidente Jorge Glas (aliado de Correa) por Moreno e as acusações que pesam contra ele por corrupção no caso Odebrecht.

Glas, cujo julgamento por associação ilícita teve início na sexta-feira, é aliado de Correa e se tornou alvo da oposição, que busca iniciar um julgamento político contra ele.

"Peçam uma prova concreta conta o vice-presidente Jorge Glas. Tudo foi um miserável complô para se apoderar da vice-presidência" por parte da ala 'morenista', expressou Correa.

A delicada situação econômica do país é outro fator que divide o oficialismo. Moreno, que assumiu a presidência em 24 de maio, acusou Correa de uma administração irresponsável da economia e criticou o endividamento.

Para os opositores, Correa é quem deve ser considerado um "traidor". "Se vier, que venha para a prisão por vendedor da pátria, por endividar tanto o país", comentou à AFP Carolina Merchán, uma dona de casa que foi ao aeroporto Guayaquil manifestar seu descontentamento.

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