Rússia enfrenta dificuldade para dar início a conferência de paz na Síria

Sochi, Rússia, 30 Jan 2018 (AFP) - Os representantes de Moscou não conseguiam convencer nesta terça-feira os delegados da sociedade civil e política síria a superar suas divisões agravadas por seis anos de guerra no início da conferência de paz em Sochi.

O ceticismo sobre o resultado e o alcance do que se decida na reunião ficou em evidência pela ausência em Sochi dos principais grupos da oposição na Síria, dos curdos assim como das potências ocidentais.

Uma hora depois do horário anunciado para seu início, o "Congresso do Diálogo Nacional Sírio" ainda não havia começado.

Segundo fontes dentro da oposição, alguns rebeldes presentes se negaram a sair do aeroporto depois de ver a logomarca da conferência que inclui apenas a bandeira oficial síria e não a criada pela oposição no começo do conflito, com três estrelas entre as faixas verde e preta.

A reunião foi convocada pela iniciativa de Moscou, principal apoio de Bashar al Assad, com o consentimento de Teerã e de Ancara. Ela tem o objetivo de definir uma nova Constituição, tema que já foi tratado nas infrutíferas discussões de quinta e sexta-feira em Viena organizadas pela ONU.

A Rússia se tornou um dos atores inevitáveis do conflito na Síria desde que lançou em setembro de 2015 uma campanha militar que permitiu às forças de Bashar al Assad reconquistar terreno.

A diplomacia russa, junto com os iranianos, apoia o governo sírio, e a turca, país que apoia os grupos da oposição, impulsou o ciclo de negociação de Astana em que se criaram as "zonas de distensão" no terreno. Moscou, entretanto, tem dificuldades em transformar esses resultados em avanços políticos.

Moscou assegurou que a sociedade síria está representada em seu conjunto, mas a maioria dos participantes são afiliados ao partido Baas no poder ou são membros de formações aliadas a esse ou da oposição "tolerada" por Damasco. O governo não está representado.

A rejeição a participar de importantes grupos da oposição dos curdos, além do fracasso das negociações de Viena, parecem confirmar o impasse em que se encontra a busca de uma solução política a este conflito que deixou de 340.000 mortos desde 2011.

As ausências são o "testemunho" de que "é pouco provável" que haja avanços imediatos sobre uma solução política na Síria, reconheceu nesta segunda-feira o porta-voz do Kremlin, Dimitri Peskov.

O Comitê de Negociações Sírias (CNS), que representa os principais grupos de oposição, anunciou que não participaria após o fracasso de Viena.

Os rebeldes compareceram, mas individualmente.

Os curdos anunciaram o domingo que não participariam na reunião "devido à situação na Afrin", enclave curdo do norte da Síria onde a Turquia lançou uma ofensiva há uma semana.

Apesar dessa rejeição, mais de 1.500 pessoas deveriam participar, de um total de mais de 1.600 convites enviados, assegurou na segunda-feira o representante do Kremlin para a Síria, Alexander Lavrentiev.

As potências ocidentais também se mostraram céticas com esta iniciativa russa. Temem que isso enfraqueça as discussões organizadas pela ONU em Genebra e aponte a obter um acordo de paz vantagem para o regime de Damasco.

Estados Unidos e França afirmaram que não enviarão observadores a Sochi.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, enviou a seu emissário especial para a Síria, Staffan de Mistura.

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