Ortega se agarra ao poder ante rejeição crescente na Nicarágua

Manágua, 25 Mai 2018 (AFP) - O presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, segue resistindo à pressão das manifestações que exigem uma restauração da democracia plena e sua saída antecipada do governo após mais de 40 dias de protestos que deixam 78 mortos.

O movimento também deixou bloqueios em ruas e uma economia em desaceleração. "Ortega não vai sair assim, vai resistir até o fim. Não vai se mexer até que a situação seja impossível de sustentar", disse à AFP o sociólogo e analista Oscar René Vargas.

Considerou que o presidente, um ex-guerrilheiro de 72 anos, ainda conta com o apoio do setor empresarial, seu principal aliado em 11 anos de governo, mas que, como resultado da crise, ficou em suspenso.

Embora os empresários tenham apoiado "verbalmente" as manifestações contra o governo, lideradas pelos estudantes desde 18 de abril, não quiseram participar, por exemplo, de uma greve nacional como ocorreu durante a insurreição contra a ditadura dos Somoza (1934-1979), apontou Vargas.

Um dos líderes estudantis, Víctor Cuadras, admitiu que os empresários estão "divididos" entre um setor que pede que Ortega continue até as eleições de 2021, e outro que quer que ele vá antes.

- Sem saída clara -Os Estados Unidos, principal parceiro comercial da Nicarágua, ainda não adotaram medidas suficientemente fortes para colocar em risco o governo de Ortega, disse Vargas.

Nesta sexta-feira, Washington expressou que "condena a recente violência perpetrada por bandidos controlados pelo governo, resultando em mais mortes de manifestantes na Nicarágua".

De acordo com um comunicado do Departamento de Estado, Ortega deve "criar as condições para um diálogo credível e inclusivo" e para cumprir com as recomendações da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que na segunda-feira pediu para acabar com a repressão e desmantelar as forças da polícia.

A CIDH solicitou ao governo da Nicarágua que adotasse medidas para garantir a integridade de 13 dirigentes estudantis, incluindo Cuadras e Lesther Alemán, dois dos mais conhecidos ativistas.

O secretário-Geral da OEA, Luis Almagro, disse que "quem pensa que a Nicarágua tem uma solução diferente à eleitoral se equivoca grandemente", o que tem sido interpretado pelo sandinismo governista como um apoio ao período presidencial para Ortega.

"A posição da OEA é um respaldo ao Estado de direito e a um governo legitimamente constituído", destacou o presidente da Comissão de Relações Exteriores do Parlamento, Jacinto Suárez, próximo ao chefe de Estado.

Segundo Vargas, Ortega "continuará reprimindo para tentar acabar com o protesto social".

Além de 78 mortes, a violência causou mais de 800 feridos, roubos e incêndios, segundo a CIDH e relatórios locais. Os confrontos pioraram na quarta-feira, quando forças do governo atacaram com balas e morteiros manifestantes que bloquearam estradas no oeste e norte do país, causando duas mortes e mais de 50 feridos.

- Crise por mais tempo -A Conferência Episcopal suspendeu na quarta-feira o diálogo que mediava entre o governo e os opositores por falta de consenso sobre a agência de discussão.

Enquanto o governo pede que desmobilizem os manifestantes que bloqueiam as vias, os opositores propõem adiantar as eleições para que Ortega saia o quanto antes.

"Existe um estancamento no diálogo que é grave porque ameaça prolongar a situação de instabilidade do país diante da intransigência que vemos por parte do governo", declarou à AFP o ex-vice-chanceler e ex-deputado opositor José Pallais.

Ortega "não quer colocar seu poder em risco" e os manifestantes não estão dispostos a deixar as ruas porque sabem que, do contrário, "a ditadura se fortalecerá e a repressão será muito pior, virá toda uma campanha de vingança seletiva", indicou.

A crise "irá durar muito", lançou.

Nesta sexta-feira, os estudantes convocaram a população para ir às ruas protestar civicamente e exigir a renúncia de Ortega e de sua esposa, a vice-presidente Rosario Murillo, após denunciarem a "falta de vontade política do governo" para resolver a crise mediante o diálogo.

Uma cifra de 63% dos nicaraguenses pede que Ortega renuncie ao governo pela repressão que exerceu contra os manifestantes, de acordo com uma pesquisa da consultora Cid-Gallup de 5 a 15 de maio.

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