Igreja rejeita diálogo na Nicarágua e governo atribui violência a "conspiração"

Manágua, 31 Mai 2018 (AFP) - A Igreja católica da Nicarágua rechaçou nesta quinta-feira mediar o diálogo entre el governo e a oposição para acabar com as protestos no país, após um dia de confrontos que deixaram 11 mortos e que elevam para quase 100 o número de mortos em um mês e meio.

A Conferência Episcopal da Nicarágua (CEN) anunciou que não retomará o diálogo em busca de uma saída para crise no país enquanto "o povo continuar sendo reprimido e assassinado".

O anúncio chega depois de uma quarta-feira violenta, em que, segundo a polícia de Nicarágua houve 15 mortos por armas de fogo e 199 feridos nos confrontos entre a noite de quarta-feira e a madrugada de quinta em Manágua, Masaya (sudeste da capital), Estelí (norte) e Chinandega (noroeste).

Mais cedo, um informe preliminar do Centro Nicaraguense de Direitos Humanos (CENIDH) apontou 11 mortos e 79 feridos nas cidades de Manágua, León e Masaya.

Na quarta-feira, houve pânico quando um grande protesto opositor chegou à Universidade Centro-americana (UCA) e precisou buscar refúgio em estabelecimentos comerciais e na Catedral por causa dos disparos vindos das forças de seguranças e grupos simpatizantes ao governo de Daniel Ortega, que pouco antes assegurou que não deixará o cargo.

Esses confrontos são os mais violentos da capital e elevam para 98 o número de mortos desde o começo dos protestos no dia 18 de abril.

Durante os incidentes também foram queimadas instalações da emissora do governo Radio Ya e uma cooperativa de crédito rural. A fachada do estádio nacional de beisebol foi destruída.

Também foram atacados o canal opositor 100% Noticias e os estúdios de transmissão da também opositora radio Darío, em León, segundo seus proprietários.

Em comunicado, o governo afirmou que esses atos obedecem a grupos de oposição com "agendas políticas específicas" que buscam "aterrorizar" a população, no que chamou de "conspiração".

"Não existem forças de choque nem grupos paramilitares simpáticos ao governo, motivo pelo qual não podemos aceitar que se nos acusem de acontecimentos dolorosos e trágicos que não provocamos, que jamais provocaremos", segundo o texto do governo do presidente Daniel Ortega.

O secretário geral da OEA, Luis Almagro, pediu nesta quinta-feira ao governo de Daniel Ortega que pare com a repressão a seus opositores.

"Condenamos os assassinatos cometidos ontem pelas forças repressivas e pelos grupos armados e nos solidarizamos com os familiares das vítimas. Pedimos ao Estado que detenha a violência desses fatores repressivos", disse Almagro em um vídeo publicado no site da Organização dos Estados Americanos (OEA).

"Só a justiça, a partir da identificação dos mais altos responsáveis desses fatos, deterá a violência", enfatizou.

A relatora para Nicarágua da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), Antonia Urrejola, se pronunciou através do Twitter sobre os incidentes e reiterou sua petição ao estado a seu "dever de garantir a vida e integridade de todos os manifestantes".

Os Estados Unidos também condenaram a violência do governo e advirtió que os violadores de direitos humanos deverão prestar contas internacionalmente.

"A comunidade internacional e os cidadãos da Nicaragua têm pedido reiteradamente ao governo nicaraguense que ordene sua polícia e seus homens que cessem a violência, respeitem os direitos humanos e criem as condições para um futuro pacífico. Os violadores dos direitos humanos serão responsabilizados pela comunidade internacional em fóruns internacionais", disse a portavoz do Departamento de Estado, Heather Nauert.

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