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Adolescente apátrida vira porta-voz dos meninos em caverna da Tailândia

Adul Sam-on (à esq.) é membro do time que ficou preso em caverna na Tailândia - AFP
Adul Sam-on (à esq.) é membro do time que ficou preso em caverna na Tailândia Imagem: AFP

Em Mae Sai (Tailândia)

06/07/2018 10h30

Nascido em Mianmar e educado por professores cristãos na Tailândia, Adul Sam-on é uma das 12 crianças presas em uma caverna inundada na Tailândia. Como dezenas de milhares de crianças no reino, ele é apátrida, mas, por falar inglês, se tornou porta-voz improvisado do grupo.

As imagens do adolescente de olhos grandes, iluminado pelas lanternas dos mergulhadores que o encontraram com os outros 11 colegas no fundo da caverna de Tham Luang, rodaram o mundo.

"Meu nome é Adul, estou bem de saúde", afirma em tailandês no vídeo o menino magro, fazendo em seguida o gesto do "wai", a salvação da cultura tailandesa.

Ele ainda está preso nas entranhas da vasta rede subterrânea, enquanto as equipes de resgate se lançaram em uma corrida contra o relógio para tentar resgatá-los, com novas chuvas que os ameaçam.

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Os professores da escola Ban Pa Moea, onde cursa seus estudos, elogiam seus talentos linguísticos, especialmente em inglês, em um país onde apenas um terço dos habitantes fala a língua de Shakespeare.

Ele foi o único capaz de se comunicar com os mergulhadores britânicos, que foram os primeiros a se encontrar os desaparecidos na segunda-feira à noite.

"Que dia é hoje?", pergunta Adul em inglês, explicando aos socorristas que o grupo estava com fome.

Nascido no estado de Wa, região do leste de Mianmar marcado por um conflito étnico, Adul fala além do tailandês e do inglês, birmanês e chinês, e frequenta esta escola desde os sete anos.

Ele deixou sua família para receber uma educação melhor no norte da Tailândia. Seus pais ficaram em Mianmar, mas o visitam com frequência na Igreja cristã que o acolheu.

Futebol, piano e guitarra

Os combates entre o grupo étnico rebelde do Exército Unido do Estado de Wa (UWSA) e o Exército birmanês forçaram milhares de pessoas ao exílio em busca de proteção e segurança, especialmente na Tailândia.

Adul é uma das mais de 400 mil pessoas identificadas como apátridas na Tailândia, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur).

Algumas fontes estimam, no entanto, que este número alcance 3,5 milhões.

"Progressos foram feitos, mas alguns apátridas na Tailândia continuam a enfrentar desafios para ter acesso a seus direitos básicos", explica à AFP a porta-voz da ONU Hannah Macdonald.

Sem uma certidão de nascimento, identidade ou passaporte, Adul e outros apátridas na Tailândia não podem se casar legalmente, conseguir um emprego ou abrir uma conta bancária, possuir bens ou votar.

A Tailândia se comprometeu a registrar todos os apátridas até 2024, mas, até lá, o vácuo legal permanece.

Adul se recusa a desanimar, afirmam pessoas próximas. Este entusiasta do futebol também gosta de tocar piano e guitarra. "É uma maravilha", disse à AFP o diretor da escola Phunawhit Thepsurin.

"Ele é bom tanto nos estudos quanto no esporte. Ele trouxe para a escola várias medalhas e certificados graças a suas proezas."