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Programa avisa no celular sobre bombardeios e salva a vida de sírios durante ataques aéreos

Membros dos capacetes brancos, grupo de socorristas civis da Síria, partem para um resgate após aviso de bombardeio  - AFP
Membros dos capacetes brancos, grupo de socorristas civis da Síria, partem para um resgate após aviso de bombardeio Imagem: AFP

Maaret al-Shurin, Síria

30/08/2018 15h30

Kahled e seu irmão tiveram tempo de subir na moto e fugir a toda velocidade enquanto um ataque aéreo destruía a casa de seus vizinhos no bairro de Maaret al-Shurin, na província Síria de Idlib, último bastião da insurgência ameaçado por uma ofensiva do regime sírio e da Rússia.

O jornalista de 23 anos e seu irmão poderiam ter morrido, não fosse alertados, minutos antes, em seus telefones celulares, sobre o ataque iminente. 

Eles se salvaram graças ao sistema Sentry, lançado há dois anos por dois americanos e um programador sírio. Nesta província do noroeste do país, o mecanismo pode desempenhar um papel essencial em caso de ataque.

Quando os aviões de combate sírios ou russos decolam, o Sentry calcula e localiza o possível alvo do ataque, analisando as trajetórias dos voos a partir de dados fornecidos por pessoas no terreno e por uma rede de sensores.

O sistema lança alertas que os usuários recebem através de aplicativos gratuitos em seus smartphones, sobretudo via Telegram, o que lhes dá alguns minutos para ficar em segurança.

No dia do ataque, Kahled estava em casa para recolher alguns pertences que havia deixado após fugir de um primeiro bombardeio. "Recebi um alerta no Telegram, dizendo que outro avião havia decolado e se dirigia para o mesmo setor", conta à AFP.

Frequência de uso

Segundo seus criadores, o dispositivo de alerta lançado em agosto de 2016 beneficia cerca de dois milhões de pessoas na Síria, a maioria delas em Idlib.

A iniciativa resultou ser eficaz, afirmam os criadores, inclusive durante a ofensiva deste ano contra o reduto rebelde de Ghuta oriental, onde os bombardeios, principalmente aéreos, deixaram mais de 1.700 mortos, segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), uma ONG com uma rede de fontes no terreno.

"Observamos que o uso (do sistema) alcançou um ponto máximo durante esta campanha" militar, afirmou à AFP John Jaeger, cofundador da companhia Hala Systems, que desenvolveu o Sentry.

O Sentry, programa responsável por alertar a população síria sobre bombardeios iminentes - AFP
O Sentry, programa responsável por alertar a população síria sobre bombardeios iminentes
Imagem: AFP

Este apaixonado por informática queria desenvolver meios que salvassem vidas de civis na Síria. Criou o Sentry com o apoio do empresário americano Dave Levin e de um codificador sírio cuja identidade é mantida em segredo.

É difícil obter estatísticas confiáveis, mas a análise dos dados mostra que o uso do Sentry reduz em 27% o número de pessoas mortas em ataques, afirma Jaeger.

O sistema, financiado segundo ele pelo Reino Unido, Canadá, Holanda e Dinamarca, necessita uma rede humana no terreno para vigilar as zonas e instalar sensores.

Oito minutos

Assim que recebem o alerta pelas redes sociais, rádios locais ou sirenes de alerta ativadas à distância pela Hala Systems, os residentes dispõem de uma média de oito minutos para encontrar um refúgio, segundo o cofundador da companhia.

Os socorristas nas zonas rebeldes, chamados de capacetes brancos, o usam com frequência.

"Os técnicos de defesa civil tentam fazer com que os civis sem conexão à internet possam acessar o serviço", afirmou à AFP o coordenador do sistema de alerta no norte da Síria, Ibrahim Abu Laith.

Nas últimas semanas foram realizadas quase 200 sessões de formação para ensinar as pessoas a usar o sistema por meio da internet, afirma o coordenador.

Segundo o OSDH, entre as mais de 350.000 pessoas mortas desde o início da guerra em 2011, 33.000 civis perderam a vida em ataques sírios ou russos.

"Tentamos evitar o maior número de mortes possível", diz Jaeger, que reconhece que às vezes não se consegue o resultado desejado.

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