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Sanções contra Rússia são mais problemáticas para Europa que para os EUA

Trem com tropas e veículos militares da Rússia chega para exercícios em Belarus - Ministério da Defesa de Belarus/AFP
Trem com tropas e veículos militares da Rússia chega para exercícios em Belarus Imagem: Ministério da Defesa de Belarus/AFP

AFP, Paris

26/01/2022 09h38Atualizada em 26/01/2022 12h44

A Europa tem mais a perder do que os Estados Unidos em seu confronto com a Rússia sobre a questão ucraniana, afirmam analistas ouvidos pela AFP, porque é sempre mais complicado aplicar sanções a um vizinho do que a um adversário que está do outro lado do mundo.

"É óbvio que a Europa está muito mais exposta do que os Estados Unidos, porque a proximidade geográfica vai acompanhada de estreitos laços econômicos e de segurança", disse Guntram Wolff, diretor do Instituto Bruegel, com sede em Bruxelas.

Apesar da imposição de sanções europeias após a anexação da Crimeia em 2014, a Rússia continua sendo o quinto maior mercado de exportação para a União Europeia, com 81,5 bilhões de euros (US$ 92 bilhões) de janeiro a novembro de 2021.

Além disso, é o terceiro fornecedor do continente, atrás da China e dos Estados Unidos, conforme o Eurostat, com 142 bilhões de euros (160,3 bilhões de dólares) de mercadorias nos primeiros 11 meses do ano passado.

"Esta relação comercial é importante para nós", reconheceu a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em uma conferência do Fórum Econômico Mundial, em 20 de janeiro deste ano, em um contexto de escalada de tensões entre o Ocidente e a Rússia, no momento em que Moscou lançava manobras militares às portas da Ucrânia.

Von der Leyen ressaltou, contudo, que a relação "importa ainda mais para a Rússia": a UE é o maior parceiro e investidor do país.

"Aplicar sanções em si mesmo"

"A margem de manobra não é a mesma para a Europa", em comparação com os Estados Unidos, observa Olivier Dorgans, advogado especializado em sanções econômicas, que menciona o risco de "aplicar sanções a si mesmo".

O exemplo mais claro é o dos hidrocarbonetos, um possível alvo de medidas punitivas contra Moscou, em um contexto de preços em alta em plena temporada de inverno.

A Rússia é fonte de mais de 40% das importações de gás da Europa e, se deixar de fornecer gás pelas sanções ocidentais, ou por medidas de retaliação, a conta de energia de milhões de residências pode aumentar.

"Há reservas, mas estamos falando de um consumo por algumas semanas", acrescentou Guntram Wolff.

Segundo ele, "as reservas chegariam a zero e, aí, seria muito difícil compensar 100% das importações de gás russo com gás do Catar, ou de outros produtores".

Ontem, um funcionário de alto escalão do governo americano disse, porém, que o Ocidente tomou medidas para proteger o suprimento de gás natural da Europa.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, receberá o emir do Catar, Sheikh Tamim bin Hamad Al Thani, na segunda-feira (31), para tentar "garantir a estabilidade do abastecimento energético internacional", informou a Casa Branca.

Maior exportador mundial de gás natural liquefeito, este emirado do Golfo possui enormes reservas de gás.

Sistema bancário internacional

O outro grande problema é o setor financeiro russo. Os Estados Unidos podem proibir transações em dólares, a principal moeda do mundo, ou excluir Moscou da organização Swift, um importante sistema bancário internacional formado por 300 bancos e instituições russas.

Neste caso, as empresas que fazem negócios com a Rússia seriam muito afetadas. Com fortes vínculos econômicos com a Rússia, a Alemanha já manifestou sua hostilidade à exclusão do sistema Swift, conforme uma fonte diplomática da UE.

"Em vez de aplicar sanções a todos os bancos russos, poderíamos começar pelos mais próximos do círculo íntimo de Vladimir Putin. Poderíamos não tocar no setor de gás, importante demais para a Europa, e começar pelo de petróleo", sugeriu o advogado Olivier Dorgans.

Já o economista-chefe para a Europa da consultoria Capital Economics, Andrew Kenningham, alega que as sanções são insuficientes para desestabilizar a economia europeia. Para ele, seu efeito na zona do euro seria "relativamente pequeno e de curta duração", em comparação com os riscos associados à pandemia da covid-19.

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