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Bolsonarista raiz assume a defesa de Flávio Bolsonaro

O senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) - Sergio Moraes/Reuters
O senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) Imagem: Sergio Moraes/Reuters

Ricardo Galhardo

Em São Paulo

23/06/2019 08h41

Sob o comando do criminalista paulistano Frederick Wassef desde o dia 6 de junho, a defesa do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) vai sair da esfera estritamente jurídica para atuar também no campo dos meios de comunicação. Além disso, pretende atuar mais perto do Ministério Público do Rio para enfrentar no mérito as suspeitas de lavagem de dinheiro, peculato e organização criminosa imputadas ao senador ainda na fase de investigação.

A maior mudança na linha de defesa de Flávio, no entanto, não é apenas técnica. Integrante do círculo mais próximo da família Bolsonaro, Wassef é o que se pode chamar de bolsonarista "raiz".

Crítico do que chama de "indústria dos radares", defensor de "ações mais efetivas da polícia" no combate à violência, católico praticante, adversário da esquerda, Wassef costuma fazer rondas de carro pela madrugada paulistana, nas quais grava em vídeo flagrantes de desperdício de dinheiro público ou suspeita de corrupção.

O primeiro contato entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fred, como é conhecido, foi por acaso. Wassef ganhou de presente um smartphone quando estava internado para tratamento de câncer, clicou no ícone do Youtube e caiu sem querer em um discurso do atual presidente sobre controle de natalidade. A identificação foi imediata.

No dia seguinte, Fred telefonou para o gabinete de Bolsonaro na Câmara. Com seu temperamento intenso, convenceu a secretária a passar a ligação ao então deputado. Depois de mais de uma hora de conversa, marcaram um encontro pessoal. Isso foi em 2014.

Desde então, Bolsonaro e a primeira-dama, Michelle, passaram a frequentar a casa de Fred e sua ex-mulher, a empresária Cristina Boner, em Brasília. Em 2015, Bolsonaro comprou por R$ 50 mil uma Land Rover de uma das empresas de Cristina.

Wassef gosta de dizer que foi o primeiro a incentivar o então deputado do baixo clero a disputar a Presidência. Quando a ideia não passava de um devaneio, Fred, nascido e criado em bairro nobre de São Paulo, levou o capitão para circular nos salões da elite paulistana.

Além da amizade, Wassef passou a orientar Bolsonaro juridicamente. "Conheço a família desde 2014 e tive uma atuação de consultoria jurídica e advocacia. Sempre no sentido do restabelecimento da verdade. Bolsonaro é, há tempos, vítima de crimes como denunciação caluniosa, calúnia e difamação. Ele foi vítima de uma insana perseguição contra um homem que é um verdadeiro herói."

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A relação de extrema confiança levou Wassef a desbancar medalhões da advocacia criminal que se ofereciam para defender Flávio. Antes de assumir o caso do senador, Fred atuava como consultor, às vezes aconselhando as advogadas Nara Nishizawa e Paula Barione, que continuam na equipe.

Avesso aos holofotes, Wassef costuma manter a discrição nos casos em que atua. A decisão de levar Flávio para a frente das câmeras é uma exceção.

"Eu não vejo que o papel do advogado seja ficar dando entrevista nem publicidade à defesa técnica do cliente. Via de regra, nunca falo com imprensa, não dou entrevista, jamais permiti ser fotografado." Mudou nesse caso. "Excepcionalmente, entendi que a situação é atípica, fora da curva. Flávio está sofrendo um massacre midiático."

Além do flanco midiático, Wassef quer se aproximar do Ministério Público do Rio, onde corre a investigação contra Flávio. "Vou atuar diretamente dentro do MP-RJ cooperando, indicando assistência técnica e pretendo provar na própria investigação os equívocos e distorções propagadas pela imprensa."

Uma das bases da argumentação jurídica será a versão dada pelo ex-assessor de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio Fabrício Queiroz, investigado por movimentações suspeitas de R$ 1,2 milhão.

"Queiroz falou várias vezes que Flávio nunca teve conhecimento de tudo o que ele fez no passado, que jamais foi repassado qualquer valor financeiro a ele. A tal da 'rachadinha' não existe."

Indagado sobre o fato de Queiroz ter admitido que recolhia parte dos salários dos funcionários do gabinete para contratar outras pessoas, Wassef disse que se houve algum ilícito, a culpa é do ex-assessor.

"Na verdade não acredito nem em ilícito. Às vezes, a pessoa pode ter feito o que fez achando que era a melhor forma de administrar seu trabalho. Mas, se houve irregularidade, com certeza a responsabilidade é dele. Meu cliente jamais teve ciência".

Embora tenha dois habeas corpus na Justiça do Rio nos quais alega que a investigação contra Flávio é ilegal, Wassef já se prepara para recorrer às Cortes superiores.

A argumentação que, segundo ele, tem o objetivo de "restabelecer a verdade", se baseia em cinco pontos:

  • A defesa teve uma vitória quando o ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), trancou a investigação admitindo que houve quebra ilegal do sigilo de Flávio pelo MP do Rio e Coaf (decisão revertida pelo ministro Marco Aurélio Mello);
  • Houve vazamento de informações sigilosas;
  • O MP negou que o senador fosse investigado quando, segundo a defesa, era o verdadeiro alvo dos promotores;
  • O filho do presidente foi o único dos 26 integrantes da Alerj investigados por movimentações atípicas cujo caso foi vazado;
  • Houve quebra de sigilos e investigação contra um parlamentar sem autorização da Justiça;

As informações são do jornal "O Estado de S. Paulo".

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