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Pandemia faz brasileiros mudarem de casa para passar quarentena com família

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Priscila Mengue

São Paulo

30/03/2020 07h29

Pegar um avião e largar quase tudo para estar com a família. Ou fazer o caminho contrário, deixar o lar para preservar os entes queridos. O necessário isolamento social para conter o novo coronavírus tem levado brasileiros a trocar de residência - e até de país - por tempo indeterminado. A coordenadora de logística Thaís Graccini, de 30 anos, chegou a pedir demissão e entregar o quarto em que vivia na Irlanda para voltar ao Brasil depois de mais de cinco anos no exterior. Ela volta a morar com o pai, Valmir, de 59 anos, que é viúvo e não tem outros filhos.

Antes disso, Thaís se colocou em quarentena para garantir que não transmitirá a covid-19, mesmo que não tenha sintoma da doença. "Sei que muitas pessoas não estão fazendo, mas, para mim, não faz sentido vir para ficar com o meu pai e colocá-lo em risco. Vim de máscara, óculos, tudo. É melhor pecar pelo excesso." Ela se isolou em um apartamento alugado por duas semanas antes de voltar a viver na casa em que cresceu, até hoje em São Caetano do Sul, no ABC Paulista. A ideia é permanecer por quatro meses, mas a definição depende da pandemia.

"Acho que logo mais vai ter quarentena geral. E não quero o meu pai sozinho em uma situação dessas", explica ela . Thaís tomou a decisão há pouco mais de uma semana. "Minha empresa não estava fazendo quarentena, mas eu via a situação na Itália. Dava pânico."

Já a estudante de Engenharia da USP Isadora Pioli, de 18 anos, retornou para Linhares, no Espírito Santo, no dia 18. A pedido da mãe, Geanna, de 44 anos. O irmão, Bernardo, de 21 anos, fez o mesmo, regressando da faculdade em Vitória. Ambos devem permanecer por lá enquanto as aulas presenciais estão suspensas. "Ela estava com medo da situação piorar e eu estar longe da família."

No primeiro semestre da graduação, Isadora retornou ao convívio que tinha até o ano passado. "Meus pais estão super felizes com todo mundo em casa, mas voltou as cobranças em relação a estudos, igual era no ensino fundamental e médio."

Oposto

O fisioterapeuta Filipe Santiago, de 31 anos, fez o caminho inverso. Remanejado para atuar no atendimento de pacientes críticos com suspeita do novo coronavírus em um hospital de São Luís, no Maranhão, saiu temporariamente da residência. "Minha esposa está grávida e minha filha é pequena, vai fazer 5 anos", justifica. "A ideia é a proteção da minha família. Vou ter contato direto com esses pacientes. E não se sabe ainda com certeza o efeito que tem no feto, se tem reflexos na fase de formação."

Desde domingo, o fisioterapeuta está no apartamento do pai, em que apenas sua irmã, estudante de Medicina, reside. "Minha filha está com a mãe (ex-mulher). Faço chamada de vídeo e falo com ela, explico que o papai está trabalhando, que a situação é temporária e, em breve, vou ver e abraçar ela."

As videochamadas praticamente diárias se repetem com a esposa, Márcia, de 35 anos. "Ela também é da área de saúde, é médica, então está consciente de tudo o que acontece."

Hospital se 'autoisola'

Especializado em cuidados paliativos para pessoas idosas e com doenças crônicas, o Hospital Premier está "autoisolado" desde quarta-feira. A equipe de cerca de 200 funcionários está dividida entre o home office e os que aceitaram a proposta de se mudar temporariamente para o espaço, no Itaim-Bibi, na zona sul da cidade de São Paulo.

"Os nossos pacientes estão no topo de risco dessa pandemia, são doentes crônicos, portadores de muitas comorbidades e com sequelas", explica o superintende do hospital, Samir Salman, de 59 anos, que também se mudou para o local. "Estamos protegendo as pessoas que estão aqui, os pacientes e a sociedade, na medida que não estamos circulando e trabalhamos em área de risco", ressalta. "Para a nossa surpresa, 84 (funcionários) aderiram (à internação), a portaria, as meninas da limpeza, as meninas da copa, auxiliares de enfermagem, técnicos de enfermagem, enfermeiros, médicos, fisioterapeutas, terapeuta ocupacional, psicóloga, assistente social."

O hospital comprou 90 camas, conjuntos de roupas de cama e banho e três uniformes por funcionário. Todos foram alojados em espaços do setor administrativo e utilizam vestiários para higiene pessoal. Uma rotina de exercícios e outras atividades está sendo planejada, como na sexta-feira, em que o ato religioso do papa Francisco foi transmitido no auditório.

Visitas

As visitas estão vetadas. Por isso, dois familiares e alguns cuidadores também integram o confinamento. Segundo Salman, a iniciativa teve "100% de adesão" entre os clientes. "Até nos cumprimentaram. Diante desse drama humanitário, dessa calamidade, não temos muita opção", afirma. "Ninguém entra, mas quem quiser pode sair a qualquer hora, sem julgamento moral", garante. "É uma decisão de foro íntimo."

A experiência está sendo documentada pelos funcionários. "Estão registrando, cientificamente, todos os dados, pode ser uma experiência antropológica para enfrentamento de pandemia." O superintendente lamenta, contudo, que a situação afetou as contas do hospital, que atende clientes de classe média. Ele não tem certeza se conseguirá pagar o salário integral dos funcionários em home office, embora destaque que seja o objetivo.

"Teve uma grande majoração dos preços dos materiais de segurança dos nossos profissionais. Uma caixa de máscaras que custava R$ 3,50 com 50 unidades passou a custar R$ 200 no mesmo fornecedor", observa ele. "As finanças do hospital estão destroçadas." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.