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'Imaginei que fosse armação política', diz Manuela sobre contato com hacker

Manuela D"Ávila (PCdoB) - Lucas Lima/UOL/Folhapress
Manuela D'Ávila (PCdoB) Imagem: Lucas Lima/UOL/Folhapress

Rayssa Motta e Paulo Roberto Netto

Do Estadão Conteúdo, em São Paulo

09/07/2020 16h29

Em depoimento por videoconferência ontem, a ex-candidata à vice-presidente Manuela D'Ávila (PCdoB) contou que sua primeira reação ao ser procurada pelo hacker acusado de vazar conversas da força-tarefa da Lava Jato foi pensar que estava sendo vítima de uma armação política.

A ex-deputada federal falou à Justiça no processo da Operação Spoofing, que mirou o grupo suspeito pela invasão dos celulares de procuradores e outras autoridades, incluindo o ex-ministro Sérgio Moro e o presidente Jair Bolsonaro.

Perguntada sobre o motivo que levou o suposto hacker a procurá-la, Manuela disse que, por mensagem, ele argumentou que ela devia 'lutar como uma garota' para salvar o Brasil - em referência à frase estampada nas camisetas usadas pela então candidata durante a campanha eleitoral de 2018. O invasor teria dito ainda que havia tentado procurar outras pessoas, mas Manuela era a primeira a respondê-lo.

À Justiça, ela também afirmou que o hacker manifestou a intenção de 'salvar o País da corrupção' e fez questão de grifar que não queria dinheiro pelas informações.

A ex-deputada contou em detalhes como foi o contato, iniciado no dia das Mães do ano passado, depois que ela própria teve a conta no Telegram invadida e recebeu uma notificação da plataforma informando que estavam tentando acessá-la a partir dos Estados Unidos.

Inicialmente, o hacker teria se passado pelo senador Cid Gomes (PDT-CE) para garantir que ela respondesse. Na sequência, disse, sem revelar identidade, que na verdade tinha sido o responsável pela invasão do celular de Manuela, porque tinha 'um conjunto de informações relevantes' sobre crimes de autoridades do Estado brasileiro para revelar. Como prova, teria enviado fotografias de documentos.

Segundo a ex-candidata a vice presidente, diante da afirmação de que haveriam provas de crimes, ela recomendou que ele procurasse um jornalista. "Eu liguei para o meu advogado para consultar se era um caminho adequado encaminhar para um jornalista. (?) Eu sou jornalista de formação, mas não me julguei tecnicamente a melhor pessoa, tanto para aferir legitimidade de documentos", contou.

O hacker teria demonstrado desconfiança em relação à mídia e, por isso, ela passou o contato direto do jornalista investigativo Glenn Greenwald, do portal The Intercept Brasil, que posteriormente publicou trechos de conversas supostamente enviadas pelo hacker na série de reportagens que ficou conhecida como 'Vaza Jato'.

O jornalista chegou a ser denunciado pela Procuradoria, mas o juiz Ricardo Leite, da Justiça Federal do Distrito Federal, rejeitou a tese de que ele tenha auxiliado no crime. "Ele nunca me procurou para pedir o telefone do Glenn, eu sugeri que ele procurasse o Glenn, quando ele não aceitou conversar com 'jornalistas', no termo genérico", disse.

Manuela também negou conhecer pessoalmente o hacker e disse que ele deu não detalhes de como obteve os documentos. "Deu a entender que agia sozinho, que vivia nos Estados Unidos, que fazia mestrado em ciência políticas, se não me falha a memória, em Harvard, e que tinha acesso ao Telegram, porque ele era amigo do antigo dono do Telegram".

A ex-deputada foi ouvida como testemunha na ação penal que corre na 10ª Vara Federal de Brasília e colocou seis pessoas no banco dos réus, incluindo o suposto hacker que procurou Manuela, Walter Delgatti Netto, o 'Vermelho'. Segundo a Procuradoria, o grupo executava crimes cibernéticos em três frentes: fraudes bancárias, invasão de dispositivos informáticos, como celulares, e lavagem de dinheiro. Quase mil pessoas, incluindo jornalistas e autoridades dos Três Poderes, tiveram suas conversas acessadas pelo grupo.

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