Promotor joga suspeita sobre ONGs que atuam no Mediterrâneo

PALERMO, 27 ABR (ANSA) - O procurador da República em Catânia, Carmelo Zuccaro, afirmou nesta quinta-feira (27) que algumas ONGs que fazem resgates no mar Mediterrâneo "podem" estar sendo financiadas por traficantes de seres humanos.   

A declaração aumentou a polêmica com as entidades humanitárias, principalmente pelo fato de o promotor ainda estar investigando o caso e por ele ter jogado suspeitas sobre todas as instituições que socorrem imigrantes ao sul da Europa.   

"Em minha visão, algumas ONGs podem estar sendo financiadas por traficantes. Talvez a coisa possa ser ainda mais inquietante, se algumas ONGs perseguirem outras finalidades: desestabilizar a economia italiana para tirar vantagem", disse Zuccaro à emissora "RaiTre", ainda durante a manhã.   

Mais de oito horas depois, procurado pela ANSA, o promotor recuou e afirmou que a Procuradoria de Catânia tem apenas algumas "hipóteses de trabalho", e não "provas". "Tenho o dever de denunciar que existem pessoas que estão enriquecendo com a imigração", justificou. Mas o estrago já estava feito.   

"Espero que a Procuradoria de Catânia fale por meio dos inquéritos, dos autos. Se o promotor tiver elementos nesse sentido, faremos uma avaliação. Em geral, não é justo reconstruir a história das ONGs como um conluio com traficantes, seria uma mentira", afirmou o ministro da Justiça da Itália, Andrea Orlando.   

Já o ministro do Interior, Marco Minniti, reconheceu que questões como essa "não podem ser subestimadas", mas ressaltou que é preciso evitar "generalizações". Por parte das entidades, a resposta foi mais dura. "Se existem provas, pedimos que elas surjam o quanto antes. Enquanto não definirmos eventuais culpas, continuar generalizando não apenas não é útil para esclarecer como também contribui para criar um clima geral de desconfiança que pode prejudicar crianças, mulheres e homens em fuga", disse o diretor-geral da Save The Children no país, Valerio Neri.   

Assim como Médicos Sem Fronteiras (vencedora do Nobel da Paz em 1999), SOS Méditerranée e Migrant Offshore Aid Station (Moas), a instituição é uma das que realizam resgates de imigrantes clandestinos e deslocados externos no mar Mediterrâneo, normalmente nas águas territoriais da Líbia, onde os navios da Frontex (agência europeia para controle de fronteiras) não podem chegar.   

Uma das acusações contra as ONGs é justamente que elas atuam muito perto da costa do país africano, o que atrairia um número maior de pessoas e incentivaria a imigração ilegal. As entidades alegam que a quantidade de mortes no Mediterrâneo poderia aumentar drasticamente caso elas se afastassem da Líbia.   

"As conclusões devem ser tiradas no fim, não antes. Jogar descrédito sobre as ONGs sem provas oficiais é fácil, mas não se faz. Remete a métodos de acusação típicos do fascismo", atacou o porta-voz da Unicef na Itália, Andrea Iacomini, por meio de uma nota.   

Extrema direita - Por outro lado, as declarações do procurador de Catânia serviram de combustível para políticos ultranacionalistas, como o líder do partido Liga Norte, Matteo Salvini. "Agora o que dizem Laura Boldrini [presidente da Câmara], Roberto Saviano [escritor] e o papa Francisco? Ajudemos a África a crescer, mas não a tragamos para a Itália. É preciso parar os traficantes, afundar todos os navios usados", escreveu no Facebook.   

Já Giorgia Meloni, presidente da legenda Irmãos da Itália, usou a mesma rede social para dizer que todos que apoiam as ONGs são "cúmplices dos traficantes de seres humanos". As entidades entraram na mira de grupos anti-imigração por conta do aumento no número de deslocados externos que desembarcam em território italiano.   

Entre 1º de janeiro e 23 de abril de 2017, foram 36,8 mil, contra 25,3 mil no mesmo período do ano passado, uma alta de 45%, segundo dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM). Além disso, mais de 1 mil pessoas morreram ou desapareceram durante a travessia.   

Nos últimos meses de 2016, cerca de 40% dos resgates no Mediterrâneo Central foram feitos por ONGs. (ANSA)
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