Tim Vickery: A amizade entre símbolo da propaganda nazista e boxeador negro - e o poder do esporte

Tim Vickery

Colunista da BBC Brasil*

  • AFP

    Foto de 1938 mostra a lenda alemã do boxe Max Schmeling (à dir.) cumprimentando o americano Joe Louis durante a pesagem, antes de eles competirem em uma luta histórica vencida pelo segundo

    Foto de 1938 mostra a lenda alemã do boxe Max Schmeling (à dir.) cumprimentando o americano Joe Louis durante a pesagem, antes de eles competirem em uma luta histórica vencida pelo segundo

Algumas semanas atrás, na minha primeira visita a Nova York, fiquei num hotel ao lado do Madison Square Garden. Madison Square Garden! Que nome mágico, cheio de glamour.

Logo descobri que, na destruição criativa do capitalismo americano, esse não é o original. Na verdade, é o quarto estádio com esse nome e está lá apenas desde 1968.

O mais famoso e mais importante Madison Square Garden foi o terceiro, a algumas quadras do atual, que existiu entre 1925 e 1968 e foi construído por um promotor de boxe. E até hoje o nome do Madison Square Garden está intrinsicamente ligado às grandes lutas do passado.

Hoje em dia, não acho muito fácil acompanhar o nobre esporte. Há quase 25 anos, eu assisti em Londres a uma luta famosa, na qual um boxeador quase morreu. Me deu uma sensação de culpa, de que o sofrimento dele serviu para o meu entretenimento. E, com a idade, fico mais consciente da nossa fragilidade, do triste fato de que golpes têm consequências.

Ainda curto a história do boxe - e não somente porque há menos culpa, pois todas as consequências já ocorreram. Mas também porque, no passado, o esporte - e sobretudo o título de campeão mundial de pesos-pesados - carregava uma importância e um simbolismo incrivelmente fortes.

Especialmente na década de 30, quando o pano de fundo são a economia e a geopolítica da depressão e a busca de soluções extremas.

Aconteceu que a Alemanha tinha um dos melhores pesos-pesados, Max Schmeling, campeão do mundo entre 1930 e 1932. No ano seguinte, Hitler assumiu o poder. Schmeling, sem querer, virou uma propaganda ambulante para a teoria nazista da supremacia racial. Começava a política oficial de perseguição dos judeus.

Naquele ano, Schmeling lutou contra o americano Max Baer, cujo avô era judeu. Baer colocou a estrela de David no calção, ganhou por nocaute e, em 1934, virou campeão.

Baer era apavorante, mas, em 1935, numa das grandes surpresas na história do esporte, ele perdeu o título para Jim Braddock, um veterano despretensioso.

"O Homem Cinderela", Braddock passava por grandes dificuldades para alimentar a sua família na depressão econômica. Fazia bicos como estivador para não passar fome. Foi visto como uma zebra total, mas lutou com inteligência, frustrou Baer e ganhou por pontos.

Braddock claramente não manteria o título por muito tempo. Primeiro na lista para desafiá-lo foi Max Schmeling - mas aí teve o problema. O alemão provavelmente iria ganhar, gerando o medo que os nazistas fariam de tudo para manter o título por lá e usá-lo para fazer propaganda.

O contrato com Schmeling foi então ignorado e, em seu lugar, o adversário de Braddock foi Joe Louis, um negro.

Foi algo revolucionário: desde o reinado de Jack Johnson (1908-1915), um negro não tinha a chance de lutar pelo título. Johnson tinha sido um pesadelo para uma sociedade racista: era um negro que se recusava a "saber o seu lugar". Desfrutou a vida, virou um homem culto, namorou brancas. Mas, depois dele, a luta para ser campeão passou a acontecer somente entre boxeadores brancos.

Só que Hitler mudou o jogo. Como os Estados Unidos podiam repudiar a política antissemita dos nazistas enquanto discriminavam, de forma tão aberta, parcela tão grande de sua população? Foi Louis, então, quem lutou contra Braddock. E, previsivelmente, venceu, tornando-se campeão mundial.

A essa altura, Louis já tinha sofrido uma derrota - para Schmeling. Os dois tinham que se enfrentar de novo, agora com o título em jogo. Agora, o grande aliado de Louis era o tempo: ele tinha nove anos a menos que o alemão.

A luta aconteceu em 1938. Foi a quarta defesa de sua coroa, e o agora mais experiente Louis lutava contra um adversário já em declínio físico. Ganhou por nocaute no primeiro round e manteve o título até 1949.

Tantas décadas depois, qual e a relevância disso? O mundo, mais uma vez, está passando por turbulências. Yanis Varoufakis, o economista que entrou no olho do furacão como ministro de Finanças da Grécia em plena crise econômica, argumenta que enfrentamos o risco de entrar numa versão pós-moderna dos anos 30, com o fim de um modelo econômico e semeando nacionalismo e ódio.

As lutas de Baer e Braddock, Schmeling e Louis são ricas em história, sociologia e política. Mas a parte de que mais gosto é a final: Max Schmeling e Joe Louis, símbolos de um mundo dividido, viraram amigos.

Aquela intimidade forte do abraço de dois boxeadores depois da luta criou raízes de um contato humano, de homens com mais em comum do que ao contrário. Schmeling viajou para os Estados Unidos para participar, e para ajudar com os custos, do enterro de Louis em 1981.

A história dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro vai contar quem ganhou ouro, prata, bronze. Nem tudo isso é saudável - o envolvimento do Estado russo com o doping serve de exemplo dos perigos das nações agindo como crianças.

Prefiro humanos agindo como humanos - pessoas aproveitando um evento para fazer amizades internacionais, sejam eles torcedores, ou sejam eles como Max Schmeling e Joe Louis, heróis de Madison Square Garden.

*Tim Vickery, colunista da BBC Brasil, é formado em História e Política pela Universidade de Warwick.

 

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